
Nos primeiros três meses de 2025, o Imposto Especial sobre o Jogo Online (IEJO) arrecadou 82,7 milhões de euros, um valor que cresceu 9% face ao mesmo período de 2024, mas recuou 12% em comparação com o último trimestre do ano passado.
Este imposto significativo mostra como o jogo digital é lucrativo, mas ao mesmo tempo levanta questões urgentes sobre os efeitos na saúde mental dos portugueses.
Os dados do Serviço de Regulação e Inspecção de Jogos (SRIJ), analisados pela APAJO, revelam uma queda do volume de negócios em apostas desportivas (–13% face ao trimestre homólogo, – 6% face ao trimestre anterior) e redução de 8% nos casinos online.
Ainda assim, o desempenho fiscal permaneceu forte, o que indica margens mais elevadas (a cota média das apostas ultrapassou os 23%) e um ganho económico imediatista .
A lucidez dos números
Apesar de a receita fiscal demonstrar maturidade do sector, o maior recuo trimestral em receitas desde 2018, cresce a preocupação com o comportamento dos apostadores. O número de contas activas caiu 2,7% em comparação com o trimestre anterior, enquanto os novos registos caíram cerca de 14%, o que indica uma redução no envolvimento, mas não reduz o consumo entre quem já joga.
O impacto invisível: depressão, ansiedade e insónia
O crescimento do jogo online traz à baila problemas de saúde mental bem documentados. Estudos mostram que o vício em jogo está associado a alterações profundas no cérebro, nomeadamente na via da dopamina, o sistema de recompensa instável do cérebro “é raptada”, de forma semelhante às substâncias psicoactivas.
ler: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov+1researchgate.net+1
É esta activação irregular que pode conduzir a sinais insidiosos de dependência: insónia, ansiedade, exclusão social e até comportamentos suicidas.
No caso português, já se observou uma forte correlação (85%) entre o Transtorno do Jogo na Internet (IGD) e distúrbios como TDAH, ansiedade e depressão.
Ler: sciencedirect.com+7pt.wikipedia.org+7researchgate.net+7
Entre jovens universitários, e apenas em Porto, estimativas recentes apontam para níveis elevados de risco e perda de desempenho académico.
Jogo Online: o que dizem os especialistas
O Dr. Stephen Shapiro, da Universidade da Carolina do Sul, alerta para o fenómeno do “fast‑food gambling“: apostas rápidas e constantes que destroem a capacidade de decisão racional e aceleram a dependência.
A American Psychology Association também compara o efeito neuroquímico do jogo ao tabaco, reforçando como os ciclos de antecipação e recompensa alteram o cérebro .
Pesquisas concluem que há uma necessidade urgente de intervenção clínica estruturada: terapias cognitivo-comportamentais e até bloqueadores de dopamina, ainda que apenas experimentais, mostram eficácia potencial na recuperação.
O que se pretende: equilíbrio entre receita e responsabilidade
Portugal recolhe receitas importantes com o jogo online – 82,7 milhões de euros no 1.º trimestre – que financiam desporto e projectos ambientais.
Mas esse benefício económico tem um custo social e psicológico. A redução no número de contas activas não significa ausência de risco: para alguns utilizadores, os padrões de jogo tornaram-se mais intensos e prejudiciais.
O país precisa urgentemente de uma abordagem que combine regulação de mercado e prevenção do risco. E isso obriga ai:
- Implementar programas de rastreio activo de jogo problemático,
- Investir em canais gratuitos de apoio psicológico,
- Criar campanhas de literacia digital que expliquem os riscos do “fast‑food gambling”.
Enquanto o Estado Português celebra os ganhos fiscais, é essencial que a sociedade proteja aqueles mais vulneráveis às armadilhas do jogo online. Uma abordagem equilibrada deve garantir que a evolução tecnológica e económica não venha à custa da saúde mental de muitos portugueses.
Os jogos e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa: uma mão visível na saúde mental em Portugal
O papel invisível dos jogos na saúde pública
A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) tem sido, ao longo dos anos, uma entidade incontornável no panorama da saúde e da solidariedade social em Portugal. Mas talvez nem todos saibam que, por detrás dos boletins de aposta e das raspadinhas, há um financiamento consistente destinado a áreas críticas como a saúde mental.
Através dos Jogos Santa Casa, canalizam-se milhões de euros para projectos, instituições, serviços e programas de apoio que têm um impacto real na vida de milhares de portugueses.
Mais do que caridade: uma estrutura de apoio à saúde mental
Entre as várias frentes em que a SCML actua, a saúde mental é uma das mais discretas, mas também uma das mais estruturadas. A começar pela Unidade W+, uma valência especializada que disponibiliza apoio psicológico e psiquiátrico tanto aos colaboradores da instituição como aos seus familiares, oferecendo respostas rápidas e de proximidade, num contexto em que a acessibilidade aos cuidados de saúde mental continua a ser um desafio nacional.
A SCML vai, no entanto, mais longe. Por meio do seu Programa de Jogo Responsável, reconhecido internacionalmente, promove não só a prevenção de comportamentos de risco associados ao jogo online e presencial, como também intervém directamente na gestão de adições e patologias associadas, um território onde o cruzamento entre jogo e saúde mental se torna cada vez mais evidente.
A Linha de Apoio Jogo Responsável está activa para quem procura ajuda, garantindo confidencialidade e apoio profissional a jogadores em risco e às suas famílias.
Financiamento com propósito e impacto
Para além das respostas internas, a SCML financia diversas instituições e projectos externos dedicados à saúde mental, através dos lucros obtidos pelos seus jogos. Trata-se de um modelo de redistribuição que, ainda que discreto, tem contribuído para manter vivo o trabalho de dezenas de organizações da sociedade civil, centros de atendimento e iniciativas de prevenção e reabilitação.
Outro aspecto pouco divulgado é a disponibilização de produtos de apoio – como dispositivos para mobilidade, comunicação ou conforto – destinados a pessoas com deficiência ou incapacidade, muitas vezes em contexto de sofrimento psicológico ou doença mental, através dos seus serviços de Acção Social e Saúde.
Uma rede com potencial, mas que precisa de ser mais visível
É inegável que a SCML assume um papel relevante na estrutura de apoio à saúde mental em Portugal. Contudo, esta intervenção ainda é pouco reconhecida pelo público geral e raramente referida no debate político ou nos media.
Num momento em que os índices de depressão, ansiedade e adições crescem de forma alarmante – especialmente entre os mais jovens – é fundamental dar visibilidade às instituições que já têm trabalho no terreno, com recursos e know-how.
A pergunta que se impõe: estamos a tirar o devido partido desta estrutura sólida e histórica, ou limitamo-nos a vê-la como uma entidade do passado?
Concluindo: jogar com responsabilidade, gastar com consciência
A presença da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa no universo da saúde mental é, acima de tudo, uma prova de que os recursos públicos – mesmo os provenientes do jogo – podem ser aplicados com responsabilidade e propósito social.
Num país onde a saúde mental ainda caminha com dificuldades entre estigmas e carências estruturais, o contributo da SCML é valioso, mas não deve ser visto como substituto de uma política nacional robusta.
Ao mesmo tempo, não podemos fechar os olhos ao paradoxo de financiar a saúde mental com receitas provenientes de uma actividade que, para muitos, representa risco acrescido de adição.
A solução não passa por cortar o financiamento, mas sim por reforçar o acompanhamento, a prevenção e, sobretudo, a transparência: saber para onde vão os milhões que alimentam esta rede e avaliar, com métricas sérias, o seu verdadeiro impacto.
Num país que tanto fala em inclusão, progresso e bem-estar, urge olhar para estruturas como a da SCML com exigência renovada – não como um legado que respeitamos em silêncio, mas como um parceiro com responsabilidade social activa num dos temas mais críticos do nosso tempo.






