
Há exactamente 40 anos, a 13 de Julho de 1985, estava eu e o meu vizinho Carlos preparadíssimos com uma tonelada de cassetes betamax para gravar todos os segundos do maior evento musical da História da música que teve o nome de Live Aid.

Do R/C para o 2º andar, muitos lances foram feitos a correr para substituir as ditas nos dois gravadores de vídeo que, por acaso, convencemos ambos os pais a comprar meses antes. E, na verdade, ainda tenho esse resultado, mas agora noutro formato que de Betamax passou para o horroroso VHS, depois para 8mm e por fim para MP4.
Live Aid… um título auto-explicativo
Era um sábado de Verão quando o mundo inteiro se uniu numa experiência única. Dois palcos, duas cidades, um só coração. O Live Aid foi um concerto beneficente realizado simultaneamente no Estádio de Wembley, em Londres, e no Estádio JFK, na Filadélfia, a 13 de Julho de 1985. O concerto atraiu cerca de 1,5 mil milhões de telespectadores e angariou milhões de dólares para o alívio da fome na Etiópia.
Para uma geração de jovens de 20 anos, foi o momento que definiu o que a música poderia fazer. Não se tratava apenas de entretenimento, era sobre mudar o mundo.
O Porquê: A Resposta a Uma Tragédia
Tudo começou no final de 1984, quando Bob Geldof, vocalista dos Boomtown Rats, assistiu a um relatório da BBC sobre a fome devastadora na Etiópia. O evento foi organizado por Bob Geldof e Midge Ure (Ultravox, Visage) para angariar mais fundos para o alívio da fome de 1983-1985 na Etiópia, um movimento que começou com o lançamento do bem-sucedido single de caridade “Do They Know It’s Christmas?” em Dezembro de 1984.
O impacto das imagens foi tão forte que Geldof não conseguiu dormir. Na manhã seguinte, decidiu fazer alguma coisa. Contactou Midge Ure e juntos criaram o Band Aid, reunindo as maiores estrelas britânicas para gravar “Do They Know It’s Christmas?“. O single foi um sucesso estrondoso, mas não era suficiente.
A Visão Ambiciosa
O que começou como um single de caridade transformou-se numa ideia revolucionária: um concerto simultâneo em dois continentes, transmitido ao vivo para todo o mundo. A 13 de Julho de 1985, o que continua a ser o maior concerto da história teve lugar no Estádio de Wembley, em Londres, e no Estádio John F. Kennedy, na Filadélfia – Live Aid, a jukebox global que por um só dia uniu o mundo num esforço para ajudar os povos famintos da Etiópia e Eritreia.
Bob Geldof: O Homem que Moveu o Mundo
Sir Bob Geldof, músico irlandês de 34 anos na altura, tornou-se o rosto de uma geração que acreditava no poder da música para mudar o mundo. Numa entrevista recente à agência Associated Press, Geldof, um icónico músico irlandês de 68 anos que liderou a banda Boomtown Rats nos anos 1970, chegou a dizer que o Live Aid arruinou a sua vida. O sucesso do evento ofuscou para sempre a sua carreira musical, mas criou um legado indelével.
Midge Ure: O Parceiro Essencial
Midge Ure, vocalista dos Ultravox, foi o co-organizador menos visível mas igualmente crucial. Com a sua experiência em produção e conhecimento da indústria musical, Ure ajudou a dar forma técnica à visão de Geldof, garantindo que o evento fosse não apenas emocionalmente poderoso, mas também tecnicamente viável.
O Dinheiro: Mais de 150 Milhões de Libras
O website do próprio Geldof estima que os espectáculos angariaram 150 milhões de libras para o alívio da fome. O dinheiro foi canalizado através da Band Aid Trust directamente para organizações humanitárias que trabalhavam no terreno na Etiópia e outros países africanos afectados pela fome.
Uma Experiência Televisiva Única
Para os jovens de 20 anos em 1985, assistir ao Live Aid foi como fazer parte de algo maior do que eles próprios. Durante 16 horas, as televisões de todo o mundo mostraram o mesmo evento. Não havia internet, não havia redes sociais – apenas a experiência colectiva de milhões de pessoas a assistir simultaneamente ao mesmo momento histórico.

Curiosidades e Momentos Inesquecíveis
O Bilhete de 5 Libras
Os bilhetes para o espectáculo de Wembley custavam apenas 5 libras – com uma doação de caridade de 20 libras acrescentada, naturalmente. Hoje, esse bilhete vale uma fortuna como peça de colecção.
A Maratona de Phil Collins
Phil Collins protagonizou um dos momentos mais emblemáticos do dia: actuou em Wembley de manhã e depois voou no Concorde para a Filadélfia para actuar novamente no mesmo dia. Collins, claro, personificaria o excesso dos anos 80 naquele dia ao saltar para o Concorde e voar para a etapa americana do espectáculo no mesmo dia.
A Actuação Lendária dos Queen
Contrariamente ao que o filme Bohemian Rhapsody afirma, os Queen não estavam “enferrujados” e tinham acabado de uma enorme tournée mundial em apoio ao seu álbum The Works. A performance de 20 minutos dos Queen é considerada por muitos como a melhor actuação ao vivo de sempre.
O Problema Técnico de Paul McCartney
Paul McCartney também teve um problema técnico – o seu microfone não funcionou correctamente durante o primeiro verso da sua versão do clássico dos Beatles “Let It Be”.
David Bowie: O Sucessor Perfeito
Teria sido assustador para qualquer um pisar o palco de Wembley depois de Freddie Mercury e companhia terem acabado de entregar a performance de uma vida, mas havia um artista que estava mais do que preparado para o desafio: David Bowie.
O Desastre dos Led Zeppelin
Talvez o set mais notório do Live Aid tenha sido o dos Led Zeppelin reformados, que recrutaram um nervoso Phil Collins para substituir o seu falecido baterista John Bonham. Robert Plant estava rouco, Jimmy Page estava desafinado e a banda não tinha ensaiado o suficiente. Nunca permitiram que as imagens fossem oficialmente lançadas.
A Princesa Diana e o Príncipe Charles
Claro, os membros “conservadores” da realeza não podiam ser vistos num evento tão importante, por isso Charles e Diana apareceram. A presença real deu ao evento uma legitimidade adicional.
As Bandas que Fizeram História

Wembley Stadium, Londres:
Primeira Parte:
- Status Quo (abertura com “Rockin’ All Over The World”)
- The Boomtown Rats
- Adam Ant
- Ultravox
- Spandau Ballet
- Elvis Costello
- Nik Kershaw
- Sade
- Sting
- Phil Collins
- Howard Jones
- Bryan Ferry
- Paul Young
- Alison Moyet
Segunda Parte:
- U2
- Dire Straits
- Queen (a actuação lendária)
- David Bowie
- The Who
- Elton John
- Wham!
- Paul McCartney (final com “Let It Be”)
JFK Stadium, Filadélfia:
Primeira Parte:
- Joan Baez
- The Hooters
- The Four Tops
- Billy Ocean
- Black Sabbath
- Run–D.M.C.
- Rick Springfield
- REO Speedwagon
- Crosby, Stills, Nash & Young
- Judas Priest
- Bryan Adams
Segunda Parte:
- The Beach Boys
- George Thorogood
- Simple Minds
- The Pretenders
- Santana
- Ashford & Simpson
- Madonna
- Tom Petty and the Heartbreakers
- Kenny Loggins
- The Cars
- Neil Young
- The Power Station
- Thompson Twins
- Eric Clapton
- Phil Collins (segunda actuação)
- Led Zeppelin
- Crosby, Stills, Nash & Young
- Duran Duran
- Patti LaBelle
- Hall & Oates
- Mick Jagger
- Tina Turner
- Bob Dylan
O Legado: Mais que Música
O Live Aid não foi apenas um concerto – foi o momento em que a música pop se tornou verdadeiramente global e politicamente consciente. Estabeleceu o modelo para todos os eventos beneficentes que se seguiram, do Live 8 ao Global Citizen.
Para aqueles que tinham 20 anos em 1985, assistir ao Live Aid foi uma experiência formativa. Era a prova de que a música poderia ser mais do que entretenimento – poderia ser uma força para o bem. Era a sensação de fazer parte de algo histórico, mesmo que fosse apenas sentado à frente da televisão.
O Preço do Sucesso
“Não me foi permitido voltar ao trabalho”, explicou Geldof em entrevistas posteriores. O sucesso do Live Aid tornou-se uma prisão dourada para o seu criador, que nunca mais conseguiu escapar à sombra do evento que organizou.
Reflexões aos 40 Anos
Hoje, quatro décadas depois, o Live Aid permanece como um marco da cultura popular. “Este é o Woodstock da vossa geração” (Joan Baez) – palavras que se revelaram proféticas.
Num mundo pré-internet, pré-redes sociais, o Live Aid conseguiu algo que parece impossível hoje: uniu verdadeiramente o mundo numa experiência partilhada. Por 16 horas, não havia diferenças de fuso horário, nacionalidade ou língua – apenas música e compaixão.
O Live Aid foi mais do que o maior concerto de todos os tempos. Foi o momento em que uma geração descobriu que podia mudar o mundo. E por um dia glorioso de Verão, conseguiu mesmo fazê-lo.
E, felizmente, eu tinha a idade certa para apreciar cada desses fenomenais e imortais segundos!
“Somos o mundo, somos as crianças, somos aqueles que fazem um dia mais brilhante, por isso vamos começar a dar.” – Era assim que a geração de 1985 via o futuro. E talvez, 40 anos depois, ainda possamos aprender alguma coisa com essa esperança.






