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A Geração Ansiosa: Portugal precisa de acordar

João Gata por João Gata
Setembro 1, 2025
Jovem ansiosa com smartphone na mão, símbolo da geração ansiosa

A Geração Ansiosa e a relação tóxica com o smartphone / © Arquivo XD5

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Jonathan Haidt tem razão, há uma geração ansiosa e nós estamos a falhar os nossos miúdos

Acabei de ler “The Anxious Generation” de Jonathan Haidt, que alerta para a geração ansiosa que estamos a formar, e confesso que me deixou com um nó no estômago. Não porque o livro seja mau – pelo contrário, é brilhante e necessário – mas porque me fez perceber o quão atrasados estamos em Portugal na compreensão desta crise geracional que temos entre mãos.

Haidt, psicólogo social na NYU e uma das vozes mais respeitadas quando se fala de bem-estar mental juvenil, apresenta dados que não deixam margem para dúvidas: estamos perante a primeira geração de adolescentes verdadeiramente ansiosa da História moderna. E o pior? Dizem que nós é que somos os culpados. Homessa, mas eu nunca fiz mal a ninguém…!

  • Ler “Geração Ansiosa” – KOBO
a geracao ansiosa

A grande reconfiguração da infância

O autor é cristalino no diagnóstico: entre 2010 e 2015 aconteceu uma “grande reconfiguração da infância”. Passámos de uma geração que brincava livremente na rua, que resolvia os seus próprios conflitos, que aprendia através da exploração e do risco controlado, para uma geração que vive colada a ecrãs, superprotegida pelos pais, e constantemente bombardeada por comparações sociais nas redes.

Os números não mentem: a depressão juvenil disparou, a ansiedade atingiu máximos históricos, e os problemas de saúde mental tornaram-se epidémicos. E isto não é apenas nos Estados Unidos – os dados europeus contam a mesma história.

Portugal: o país que não acorda

E onde é que Portugal se enquadra nisto tudo? Em lado nenhum, pois continua completamente adormecido à sombra da bananeira mesmo que exista um tremendo trabalho feito por associações dedicadas e pelo PNPSM.

Enquanto países como França começam a implementar políticas para limitar telemóveis nas escolas, enquanto a Austrália discute idades mínimas para redes sociais, nós continuámos a fingir que não há problema e só agora, muito recentemente, se começou a discutir esta problemática. As nossas escolas estão cheias de miúdos com ansiedade, mas a resposta oficial é sempre a mesma: “mais psicólogos escolares” e “programas de bem-estar”.

Estas medidas não são suficientes e Haidt explica porquê.

O diagnóstico

Haidt identifica dois factores centrais desta crise:

1. Da Brincadeira Livre para o Telemóvel As crianças deixaram de brincar livremente. Deixaram de resolver conflitos entre elas, de correr riscos calculados, de desenvolver resiliência através da experiência directa. Em vez disso, passam horas a fio em ecrãs, consumindo conteúdo passivamente ou a navegar nas águas turbulentas das redes sociais.

2. Super-protecção Parental Extrema Os pais, movidos pelo medo amplificado pelos média, criaram bolhas de protecção que impedem as crianças de desenvolver competências essenciais. Não podem ir sozinhas para a escola, não podem brincar no parque sem supervisão, não podem falhar e aprender com os erros.

A Receita de Haidt

O psicólogo não se limita ao diagnóstico. Apresenta quatro medidas concretas:

  1. Proibir smartphones antes dos 14 anos
  2. Proibir redes sociais antes dos 16 anos
  3. Tornar as escolas zonas livres de telemóveis
  4. Incentivar a autonomia e o livre brincar

Parecem medidas drásticas? Bom, a situação é drástica…

Para Portugal: um plano de acção

Se levássemos Haidt a sério – e devíamos – o que poderia Portugal fazer para sair deste buraco?

1. Revolução nas escolas (imediatamente)

Telemóveis fora das salas de aula. Ponto final. Não há negociações, não há “mas e se houver emergência?”, não há “os pais precisam de contactar”. As escolas têm telefones, os pais sempre conseguiram comunicar com as escolas antes dos smartphones existirem.

França fez isto. A Holanda está a fazer. Nós continuamos a debater se é “pedagogicamente adequado” enquanto os miúdos desenvolvem ansiedade crónica.

2. Reeducação parental (urgente)

Precisamos de campanhas nacionais para explicar aos pais que superproteger é prejudicar. A criança que nunca falha nunca aprende a lidar com o fracasso. A criança que nunca corre riscos nunca desenvolve coragem. A criança que nunca resolve conflitos sozinha nunca aprende diplomacia.

Isto não é filosofia de café – é neurociência pura. O cérebro adolescente precisa de desafios reais para se desenvolver adequadamente.

3. Legislação sobre redes sociais (corajosa)

16 anos idade mínima para redes sociais. Instagram, TikTok, Snapchat – tudo. E não vale a pena vir com desculpas sobre “literacia digital”. Uma criança de 13 anos não tem maturidade neurológica para lidar com a pressão constante das redes sociais.

Vamos ver que político tem coragem de propor isto. Porque é que conseguimos proibir álcool e tabaco a menores, mas não conseguimos protegê-los de algoritmos desenhados para criar vício?

4. Reconstrução dos espaços de brincadeira

Precisamos de devolver as ruas às crianças. Parques sem vedações obsessivas, espaços onde possam correr, saltar, cair e levantar-se. Horários pós-escola dedicados exclusivamente a brincadeira livre, sem estrutura, sem objectivos pedagógicos.

Sim, algumas vão magoar-se. É suposto magoarem-se. É assim que aprendem os limites do mundo físico e das suas próprias capacidades.

A geração perdida?

Esta geração de adolescentes portugueses – os nascidos entre 2005 e 2015 – pode estar perdida? Haidt é optimista, e eu também quero ser. Mas precisamos de agir agora.

Cada ano que passa sem mudanças estruturais é mais uma “dinastia” de jovens que chega à vida adulta sem as competências básicas para lidar com stress, fracasso, e relacionamentos interpessoais complexos.

O futuro

Temos duas opções:

1: Continuamos como estamos. Daqui a 10 anos temos uma geração de adultos jovens cronicamente ansiosos, incapazes de tomar decisões autónomas, viciados em validação digital, e completamente dependentes de estruturas externas para regulação emocional.

2: Acordamos, implementamos as medidas que Haidt (e muitos outros profissionais de saúde – e não só) propõe, e criamos uma geração resiliente, autónoma, e mentalmente saudável.

A responsabilidade é nossa

Não podemos continuar a culpar “os tempos modernos” ou “a tecnologia” como se fossem forças da natureza inevitáveis. Nós é que escolhemos dar smartphones a crianças de 10 anos. Nós é que escolhemos criar bolhas de super-protecção. Nós é que escolhemos substituir brincadeira por ecrãs.

E também podemos escolher diferente, ou não? Ou os pais assumiram a total desresponsabilização na educação dos petizes?

O livro de Haidt não é apenas um diagnóstico – é um manual de instruções para salvar uma geração. A pergunta é: temos coragem para o seguir?

Porque se não tivermos, daqui a 20 anos vamos olhar para trás e perguntar-nos como é que deixámos isto acontecer. E a resposta vai ser simples: sabíamos o que fazer, mas tivemos miaúfa!

Tags: ansiedadeGeração ansiosaJonathan Haidtsaúde mental
João Gata

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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Comments 1

  1. António Madeira says:
    9 meses atrás

    artigo muito interessante que faz pensar. Obrigado.

    Responder

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