SOTA e POTA: da paixão pelos cumes e parques à solução para o combate aos incêndios em Portugal
Num destes fins de semana acompanhei um amigo numa activação POTA (Parks on the Air) no Parque Natural da Arrábida. Para quem não conhece, é um programa internacional onde radioamadores licenciados se deslocam a parques nacionais, reservas naturais e áreas protegidas para estabelecer contactos rádio. É uma actividade simples, divertida e muito viciante.
Mas enquanto o via montar a antena e sintonizar frequências, não conseguia parar de pensar numa coisa: como é possível que ele, com equipamento de 200 euros e uma licença de radioamador, consiga comunicar perfeitamente a centenas de quilómetros a partir de uma floresta remota, mas os nossos bombeiros ficam sem comunicações quando mais precisam?
SOTA Portugal e POTA: uma lição de simplicidade e eficácia

O SOTA (Summits on the Air) e o POTA são programas que demonstram diariamente algo que os responsáveis pela nossa Protecção Civil parecem não perceber: comunicações simples e robustas funcionam sempre.
Para participar nestes programas, é preciso ter licença de radioamador – um exame que garante conhecimentos técnicos e operacionais adequados. Não é para qualquer um, mas também não é nenhuma ciência para lançamento de foguetes.
Todos os fins de semana, radioamadores licenciados portugueses sobem montanhas (SOTA), visitam parques naturais (POTA), e estabelecem contactos rádio usando equipamento que cabe numa mochila. Sem torres, sem infra-estrutura complexa, sem pontos únicos de falha.
No SOTA, operadores activam cumes por todo o país – desde a Serra da Estrela ao Pico da Vara nos Açores. No POTA, exploram os nossos parques naturais, criando uma rede informal mas eficaz de comunicações que cobre praticamente todo o território nacional.
E o mais impressionante? Conseguem comunicar entre si e com o mundo inteiro usando apenas ondas de rádio, baterias, e conhecimento técnico.
A oportunidade perdida: monitorização natural

Imaginem só: centenas de radioamadores que conhecem palmo a palmo as nossas florestas, que visitam regularmente áreas remotas, que têm equipamento de comunicação sempre funcional. Não seria esta a rede de monitorização florestal perfeita?
Um operador POTA no Parque Natural do Douro Internacional consegue dar alerta imediato de qualquer situação anómala. Um activador SOTA na Serra do Gerês tem visão privilegiada sobre milhares de hectares. E todos eles têm comunicações que funcionam independentemente da rede eléctrica ou de infra-estruturas vulneráveis.
Mas o Estado parece não querer saber. Prefere sistemas caros, complexos e que falham quando mais precisamos.
O SIRESP: um monstro tecnológico inútil
O SIRESP custou milhões aos contribuintes e continua a custar milhões anuais em manutenção. É baseado numa rede TETRA que depende de torres, repetidores, cabos, energia eléctrica – toda uma infra-estrutura que pode colapsar precisamente quando um incêndio atinge proporções críticas.
O problema fundamental? Quem o implementou não percebe o conceito básico de redundância. Em qualquer sistema crítico, tens sempre alternativas. Os militares usam HF como backup porque sabem que quando a infra-estrutura civil falha, as ondas de rádio continuam a propagar-se.
Durante os trágicos incêndios de 2017, o SIRESP colapsou em várias zonas, deixando bombeiros sem comunicação uns com os outros. Pessoas morreram, em parte, porque não conseguiam comunicar. E isto continua a acontecer, verão após verão.
CB: a democracia das comunicações de emergência

Mas nem tudo tem de passar por licenças de radioamador. O rádio CB é verdadeiramente democrático e acessível. Qualquer um pode comprar um equipamento por 50-100 euros, instalar numa viatura, e ter comunicações imediatas. Não há licenças, não há burocracias, não há dependência de operadores.
É por isso que continua a ser usado por camionistas, agricultores, e profissionais que trabalham em áreas remotas. Porque funciona. Sempre!
Para bombeiros voluntários e equipas de emergência, seria o complemento perfeito ao SIRESP. Quando o sistema “oficial” falha – e falha regularmente – o CB continua lá, simples e eficaz.
HF: o alcance que o SIRESP nunca terá
HF (ondas curtas) vai ainda mais longe. Com propagação ionosférica, um operador no interior consegue comunicar directamente com Lisboa, Porto, ou até outros países, sem uma única torre repetidora.
É por isso que os militares portugueses – e de todo o mundo – mantêm redes HF activas. Porque quando tudo falha, HF continua a funcionar.
Uma estação HF numa zona de incêndio pode coordenar directamente com o centro de operações nacional, mesmo que toda a infra-estrutura local tenha colapsado.
Um plano realista para Portugal
Se fosse responsável pelo combate a incêndios nacional, e como me ensinaram durante esta aventura e experiência, implementaria isto:
Fase 1: redundância imediata (6 meses)
- Equipar todos os veículos de bombeiros com rádio CB (custo: €200 por veículo)
- Estações HF nos quartéis principais (custo: €2.000 cada)
- Formação básica para operadores (aproveitando conhecimento dos radioamadores locais)
Fase 2: rede de monitorização POTA (1 ano)
- Certificar radioamadores voluntários como observadores florestais
- Criar protocolos de alerta via CB/HF para situações de emergência
- Equipamento básico fornecido pelo Estado (antenas, rádios, baterias)
- Pontos estratégicos baseados na experiência SOTA/POTA existente
Fase 3: integração total (2 anos)
- Centro de coordenação que recebe alertas CB/HF
- App móvel para operadores reportarem situações
- Sistemas automáticos de retransmissão em pontos altos
- Backup por satélite para zonas críticas
Os números que convencem
Custo total do plano: 5-10 milhões de euros
Custo anual do SIRESP: 15-20 milhões de euros
Fiabilidade do CB/HF: 99%+ (não depende de infra-estrutura)
Fiabilidade do SIRESP em crise: Questionável (historial de falhas)
Tempo de implementação: 2 anos versus os 10+ anos que o SIRESP levou a ficar “funcional”
A lição de Jonathan Haidt
Recentemente li “The Anxious Generation” de Jonathan Haidt, e uma das suas principais mensagens ressoa aqui: a complexidade desnecessária destrói sistemas que deviam proteger-nos.
Haidt mostra como substituímos sistemas simples e funcionais por sistemas complexos e problemáticos (smartphones e redes sociais) com resultados desastrosos. O mesmo está a acontecer com as nossas comunicações de emergência.
Trocámos sistemas simples e fiáveis (CB/HF) por um monstro tecnológico complexo que falha precisamente quando mais precisamos dele.
Para os radioamadores: uma chamada à acção
À comunidade portuguesa CB e radioamadora: está nas vossas mãos mostrar o caminho. Continuem com SOTA e POTA, documentem as vossas activações, demonstrem como conseguem comunicar de qualquer ponto do país com equipamento básico.
Organizem exercícios de emergência. Mostrem às autoridades que uma rede voluntária bem coordenada pode ser mais eficaz que sistemas de milhões de euros.
O futuro: duas estradas
Estrada 1: Continuamos com o SIRESP como sistema único, rezando para que não falhe na próxima grande catástrofe. Gastamos mais milhões em “melhorias” e “actualizações” de um sistema fundamentalmente falho.
Estrada 2: Implementamos redundância inteligente com CB/HF, criamos uma rede de monitorização baseada na experiência SOTA/POTA, e finalmente temos comunicações que funcionam sempre.
Conclusão: a simplicidade salva vidas!!!
Todos os verões, Portugal arde. E todos os verões, as comunicações falham. Não tem de ser assim.
A solução está literalmente ao alcance das nossas mãos. CB e HF funcionam há décadas, custam uma fracção do SIRESP, e não dependem de infra-estruturas vulneráveis. A comunidade radioamadora já demonstra diariamente como se faz.
Só falta alguém com responsabilidade e coragem para implementar esta mudança.
Porque no fundo, de que serve ter o sistema mais tecnologicamente avançado do mundo se não funciona quando mais precisamos dele?
Este artigo foi escrito depois de acompanhar uma activação POTA, observando como comunicações simples podem ser eficazes. Porque há coisas que nunca falham – e comunicações de emergência deviam ser uma delas.






