Belém recebeu a COP30 com o entusiasmo de quem acredita que ainda é possível mudar o rumo do planeta. Mas antes de celebrarmos a energia diplomática, vale a pena olhar para o óbvio. Esta é a trigésima conferência desde que o mundo decidiu reunir-se anualmente para travar as alterações climáticas. Trinta reuniões, centenas de horas de discursos, milhares de páginas de compromissos. O resultado está à vista: as emissões globais continuam a subir e os efeitos estão a acelerar.
COP30 em perspectiva
Há algo desconfortável nesta aritmética. Quanto mais a comunidade internacional fala de ambição, mais evidente se torna a incapacidade de transformar discussão em ação concreta. O COP, que nasceu como instrumento de mudança, ganhou uma vida própria. Tornou-se palco, ritual, roteiro diplomático, onde a linguagem progride mais depressa do que a realidade.
Este ano, o contraste ficou ainda mais nítido. Falou-se muito da transição energética, do combate ao desmatamento, da urgência do cumprimento do Acordo de Paris. Mas os países que mais poluem o planeta não estavam verdadeiramente presentes. Os Estados Unidos, a China e a Índia enviaram delegações discretas ou representações técnicas. Quem devia estar no centro do debate optou por ficar na margem. É difícil levar a sério um processo global quando os maiores responsáveis pela crise climática não ocupam o seu próprio lugar na mesa.

COP30 e a aritmética incómoda
E há outro dado que não pode ser ignorado. Mais de mil e seiscentos representantes ligados à indústria dos combustíveis fósseis registaram presença na conferência. Isto significa que, a cada tema discutido, havia uma fileira inteira a zelar para que nada avançasse depressa demais. A transição energética está sempre presente no discurso, mas raramente entra no território da mudança estrutural.
Face a isto, a pergunta impõe-se. Depois de trinta edições, o que mudou graças às COP? Não o que se prometeu, não o que se assinou, mas o que realmente aconteceu no mundo real. As respostas são desconfortáveis. O planeta aquece. Os ecossistemas colapsam. A perda de biodiversidade aproxima-se de pontos de não retorno. A desigualdade climática aumenta. E, apesar de tudo isto, continuamos a repetir o ritual anual como se a repetição fosse, por si só, uma forma de progresso.
Não se trata de negar o valor do encontro. Trata-se de reconhecer que o formato está esgotado. Uma conferência que exclui os principais poluentes, que convive pacificamente com o lobby que alimenta a crise e que se habituou à ideia de que “falar é fazer” não pode continuar a funcionar como se fosse suficiente.
O que está em causa não é o COP30 em Belém. É a lógica que sustenta todas as COP anteriores. A ideia de que o consenso é mais importante do que a ação. A convicção de que a diplomacia pode substituir o conflito político necessário para alterar modelos económicos inteiros. A crença confortável de que é possível resolver um problema global sem confrontar quem mais contribui para o agravamento desse problema.
Talvez seja tempo de admitir o impensável. O planeta não precisa de mais uma conferência. Precisa de um mecanismo de responsabilidade real. De consequências para quem não cumpre. De coragem para dizer que alguns modelos de desenvolvimento são simplesmente incompatíveis com a sobrevivência coletiva.

A verdade é que a COP30 também expõe uma fadiga difícil de negar. Há vontade, há discurso e há palco, mas falta a ponte entre o que se promete e o que realmente se faz. A distância entre o anúncio e o acto tornou-se confortável demais. Enquanto isso, os indicadores climáticos avançam sem esperar pelo consenso diplomático que todos dizem querer, mas que poucos parecem dispostos a assumir com consequências reais.
Se calhar, não é o planeta que está cansado. Somos nós que continuamos a adiar a única conversa que ainda não tivemos. E talvez esteja na altura de repensar tudo isto.






