O re:Invent 2025, o principal evento da Amazon Web Services (AWS), está a decorrer em Las Vegas entre os dias 1 e 5 de Dezembro. Ao longo desta semana, a empresa apresenta alguns dos seus maiores anúncios do ano, acompanhados de novidades de clientes e parceiros que estão a transformar indústrias inteiras através da cloud.
Este não é um evento qualquer – é o momento em que a AWS mostra para onde vai o futuro da computação em nuvem, da inteligência artificial e da modernização tecnológica empresarial.
AWS re:Invent 2025: o que está a ser anunciado
O evento arrancou oficialmente a 1 de Dezembro, mas os anúncios começaram já no domingo anterior, estabelecendo o ritmo para uma semana recheada de novidades. Desde novas categorias de parceiros especializados em IA agêntica até colaborações estratégicas com gigantes como BlackRock, Nissan e Visa, a AWS está a demonstrar que a próxima geração de serviços cloud não é apenas mais rápida ou mais barata – é fundamentalmente mais inteligente e autónoma.
O que é IA agêntica?
A IA agêntica é um sistema de inteligência artificial que pode atingir um objectivo específico com supervisão limitada. Ela consiste em agentes de IA – modelos de aprendizado de máquina que imitam a tomada de decisão humana para resolver problemas em tempo real. Em um sistema multiagentes, cada agente executa uma subtarefa específica necessária para alcançar o objectivo e seus esforços são coordenados por meio da orquestração de IA.
Novas categorias de IA agêntica para parceiros AWS
No domingo 30 de Novembro, a AWS introduziu três novas categorias para parceiros no âmbito da AWS AI Competency (anteriormente designada AWS Generative AI Competency): Aplicações de IA Agêntica, Ferramentas de IA Agêntica e Serviços de Consultoria de IA Agêntica.
Estas categorias reconhecem parceiros de software e de serviços com profunda especialização no desenvolvimento e implementação de soluções de IA de nível empresarial capazes de compreender contexto, raciocinar sobre objectivos e agir autonomamente, exigindo intervenção humana mínima.
Tradução para português claro: são sistemas que não se limitam a responder perguntas, mas que podem executar tarefas complexas de forma independente, desde análise de dados até automatização de processos empresariais inteiros. A distinção entre IA generativa (que cria conteúdo) e IA agêntica (que age) é fundamental.
Enquanto a primeira revolucionou a forma como criamos texto, imagens e código, a segunda promete revolucionar a forma como trabalhamos, automatizando não apenas tarefas repetitivas mas decisões que tradicionalmente requeriam julgamento humano.
AWS Marketplace: descoberta conversacional e ofertas flexíveis

Também no domingo 30 de Novembro, a AWS apresentou inovações impulsionadas por IA no AWS Marketplace que simplificam a descoberta e a implementação de soluções na cloud. As novidades incluem modo de agente para descoberta conversacional – ou seja, podem literalmente conversar com o sistema para encontrar as soluções certas em vez de navegarem por catálogos intermináveis.
As ofertas privadas expressas permitem preços personalizados automatizados, acabando com semanas de negociações via email. As soluções multi-produto agregam ofertas de vários fornecedores numa única compra, simplificando procurement. E os novos modelos de preços flexíveis para serviços profissionais e agentes de IA reconhecem que nem tudo se vende por hora ou por utilização – às vezes, o valor está nos resultados.
Amazon Connect: 29 novas capacidades de IA agêntica
Ainda no domingo, a Amazon Connect anunciou 29 novas capacidades de IA agêntica distribuídas por quatro áreas críticas para centros de contacto e experiência do cliente.
Primeiro, agentes de IA autónomos que executam acções de forma independente em canais de voz e digitais – podem resolver problemas de clientes sem intervenção humana, escalando apenas quando necessário.
Segundo, assistência de IA em tempo real que colabora com representantes de experiência do cliente, sugerindo respostas, identificando problemas e acelerando resoluções.
Terceiro, insights preditivos sobre o cliente que permitem envolvimento proactivo – o sistema antecipa necessidades antes do cliente contactar.
Quarto, ferramentas avançadas de observabilidade para monitorizar, testar e avaliar o desempenho da IA, garantindo que os agentes autónomos não estão a criar problemas maiores que os que resolvem.
O Amazon Connect oferece agora interações de voz naturais com modelos de fala avançados, eliminando aquele tom robotizado que todos detestamos em sistemas de atendimento automático.
BlackRock e AWS: Aladdin migra para a cloud
Na segunda-feira 1 de Dezembro, a BlackRock anunciou parceria estratégica com a AWS para disponibilizar o Aladdin numa infraestrutura de cloud segura e escalável. Para quem não está familiarizado, o Aladdin é a reconhecida solução tecnológica de gestão de investimentos da BlackRock – essencialmente, a plataforma que gere triliões de dólares em activos financeiros globalmente.
A plataforma Aladdin passará a estar disponível na infraestrutura de cloud segura, escalável e de alto desempenho da AWS. Isto significa que os clientes Aladdin podem agora alojar a plataforma directamente na AWS, escolhendo o ambiente de alojamento que melhor responde aos seus requisitos tecnológicos e operacionais, mantendo a experiência unificada e o poder analítico que fazem do Aladdin a linguagem central de gestão de portefólio.
Esta parceria é significativa porque demonstra que até as instituições financeiras mais conservadoras, que gerem activos na ordem dos triliões e têm requisitos de segurança e compliance absolutamente rigorosos, estão a migrar para a cloud. Se a BlackRock confia na AWS para o Aladdin, está a enviar uma mensagem clara ao sector financeiro global.
Nissan acelera veículos definidos por software com AWS
Também na segunda-feira 1 de Dezembro, a Nissan estabeleceu parceria com a AWS para acelerar a inovação em veículos definidos por software através da nova Plataforma de Software Aberta Escalável da Nissan.
Esta infraestrutura baseada na cloud unifica o desenvolvimento de software, a gestão de dados e as operações de veículos na AWS. Os resultados já são impressionantes: aumento de 75% na velocidade de testes e colaboração contínua para mais de 5.000 programadores globais.
A plataforma permite actualizações mais rápidas de funcionalidades de veículos e colaboração transfronteiriça mais eficiente – essencial quando equipas no Japão, Europa e América precisam de trabalhar no mesmo código simultaneamente. Ao beneficiar das plataformas da AWS, a Nissan melhora significativamente a sua eficiência de desenvolvimento global.
Com o futuro em vista, a empresa planeia integrar capacidades avançadas de IA, incluindo um sistema ProPILOT melhorado para ambientes de condução complexos até 2027, como parte da sua visão para a mobilidade de próxima geração impulsionada por IA. Veículos definidos por software são a próxima grande revolução automóvel – tal como os smartphones transformaram telemóveis em plataformas programáveis, os carros estão a tornar-se computadores sobre rodas que podem ser actualizados, melhorados e personalizados através de software.
Visa e AWS: pagamentos seguros para agentes de IA
Na segunda-feira 1 de Dezembro, a Visa e a AWS anunciaram colaboração para capacitar programadores e empresas focadas em comércio agêntico. A Visa irá listar a plataforma Visa Intelligence Commerce no AWS Marketplace, facilitando que empresas e programadores se liguem a fornecedores de comércio agêntico para experiências de pagamento seguras e fiáveis.
Além disso, a AWS e a Visa irão disponibilizar blueprints no repositório público do Amazon Bedrock AgentCore para casos de uso como compras agênticas, reservas de viagens e reconciliação de pagamentos, permitindo que programadores criem e conectem fluxos de trabalho de forma mais eficiente. Através desta colaboração, a AWS e a Visa reforçam o avanço das cargas de trabalho agênticas e das capacidades de comércio na AWS, com a Visa a implementar ferramentas MCP (Model Context Protocol) para activar soluções de comércio agêntico totalmente integradas e de ponta a ponta na plataforma.
Isto resolve um problema crítico: como é que agentes de IA fazem compras de forma segura sem comprometer dados de pagamento? A resposta da Visa e AWS é criar infraestrutura que permite transacções autónomas mantendo os mesmos padrões de segurança que protegem compras humanas.
AWS Transform: modernização agêntica de código legado
Ainda na segunda-feira 1 de Dezembro, a AWS anunciou novas capacidades agênticas no AWS Transform que permitem a modernização rápida de qualquer código ou aplicação. Entre as novidades destaca-se uma capacidade personalizada do AWS Transform para acelerar a modernização de código e aplicações em toda a organização, suportando qualquer código, API, framework, runtime, arquitetura, linguagem e até linguagens de programação e frameworks específicos da empresa.
Além disso, a AWS introduz a capacidade de acelerar a modernização full-stack do Windows em até cinco vezes. Com estas melhorias, os clientes podem reduzir a sua dívida técnica legada – ou seja, o esforço manual de modernização – e redirecionar recursos valiosos para iniciativas de inovação.
Dívida técnica é o pesadelo silencioso de todas as empresas com mais de uma década de existência: sistemas antigos, código legado, aplicações que ninguém quer tocar porque “funcionam” mas que impedem inovação. O AWS Transform promete automatizar a modernização desses sistemas usando IA agêntica, libertando programadores para trabalharem em projectos novos em vez de manterem dinossauros tecnológicos.
O que significa IA agêntica na prática
Todos estes anúncios orbitam em torno de um conceito central: IA agêntica. Vale a pena clarificar o que isto significa na prática, porque é um termo que vai dominar os próximos anos. IA agêntica refere-se a sistemas de inteligência artificial capazes de agir autonomamente para atingir objectivos específicos, não apenas responder a prompts. Enquanto um chatbot tradicional espera por perguntas, um agente de IA pode:
- Analisar um problema complexo
- Decidir que acções tomar
- Executar essas acções em múltiplos sistemas
- Adaptar a estratégia baseando-se em resultados
- Completar a tarefa sem supervisão constante Exemplo prático: em vez de um humano pesquisar voos, comparar preços, verificar hotéis e fazer reservas, um agente de IA pode receber “preciso de ir a Berlim na próxima semana, orçamento médio” e executar todo o processo autonomamente, apresentando apenas opções finais para aprovação.
Implicações para empresas portuguesas
Embora o re:Invent decorra em Las Vegas e os anúncios se concentrem em gigantes como BlackRock e Nissan, as implicações para empresas portuguesas são directas. A AWS tem presença significativa em Portugal através de parceiros, e muitas destas tecnologias estarão disponíveis para empresas de qualquer dimensão.
A democratização de IA agêntica através do AWS Marketplace significa que até PMEs podem aceder a capacidades que antes estavam reservadas a corporações com orçamentos tecnológicos de milhões. A disponibilidade de blueprints prontos para comércio agêntico, pagamentos seguros e modernização de código reduz drasticamente o investimento inicial necessário para adoptar estas tecnologias.
Em suma
O AWS re:Invent 2025 está a estabelecer a direcção da cloud computing para os próximos anos, com IA agêntica como protagonista absoluta. Entre os dias 1 e 5 de Dezembro, em Las Vegas, a AWS está a apresentar não apenas tecnologias impressionantes mas parcerias estratégicas que demonstram adopção real destas inovações por indústrias críticas como finanças, automóvel e pagamentos.
As novas categorias de parceiros especializados em IA agêntica, a simplificação do AWS Marketplace, as 29 capacidades do Amazon Connect, a migração do Aladdin para a cloud, a plataforma de software da Nissan, a colaboração Visa para pagamentos seguros e a modernização automatizada através do AWS Transform representam, em conjunto, uma visão coerente: sistemas que não apenas assistem humanos mas agem autonomamente, mantendo segurança, compliance e controlo.
Para empresas portuguesas atentas, este é o momento de explorar como estas tecnologias podem transformar operações, acelerar inovação e reduzir dívida técnica. O futuro não está apenas a ser anunciado em Las Vegas – está a ser disponibilizado através de APIs, marketplaces e parcerias que o tornam acessível a organizações de qualquer dimensão.






