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Austrália proíbe redes sociais… que jovens já abandonaram

João Gata por João Gata
Dezembro 10, 2025
Editorial Xá das 5 sobre proibição de redes sociais Austrália

Jovem entediado com smartphone, simbolizando o declínio das redes sociais e o falhanço das políticas de proibição

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Há decisões políticas que parecem saídas de um brainstorm feito às três da manhã com excesso de cafeína e falta de bom senso.
A nova lei australiana que proíbe menores de 16 anos de usar redes sociais encaixa perfeitamente nesse género de obra legislativa: ruidosa, moralista, e tecnologicamente analfabeta.

Enquanto políticos batem nos peitos e declaram vitória contra os males da tecnologia, os jovens – que supostamente são o público protegido – estão ocupados a fazer aquilo que sempre fizeram: contornar sistemas, adaptar comportamentos e ignorar adultos que não percebem como o mundo funciona. Ou não se lembram dos vossos 20 anos?

Mas o mais irónico, é que muitos já tinham resolvido o problema antes da lei existir.
Chama-se posting zero: a nova arte milenar de… não publicar. E sim, é uma #trend.
Só que simples, silenciosa, eficaz e com zero intervenção governamental.

Australia
Sim, há um erro no “Austrália” mas deixo ficar para envergonhar os donos das IAs

A proibição australiana é um golpe de teatro

Não resolve nada, não educa ninguém, e ainda cria riscos novos onde não existiam.
É o equivalente digital a fechar avenidas porque há excesso de carros: dá uma falsa sensação de acção enquanto o problema real continua a acelerar por ruas laterais.

O mais delicioso é que a lei obriga a sistemas de verificação de idade que acabam por recolher… mais dados de menores. Privacidade garantida por vigilância?
Bravo, Austrália!!!
Continuem assim e ainda reinventam o fax.

A adolescência sempre foi hacker

Os jovens encontraram sempre maneiras de furar aquilo que os adultos tentam controlar.
Nos anos 90 inventaram o Napster.
Nos anos 2000 dominaram torrents.
Agora vão dominar VPNs e dark patterns de login mais rápido do que um ministro consegue dizer “proteger as crianças”.

Proibi-los de usar plataformas regulamentadas vai empurrá-los para espaços digitais sem moderação, sem segurança e sem responsabilidade.
É como fechar escolas para evitar más notas.

O que os jovens estão realmente a fazer? A fugir das redes

O fenómeno mais fascinante, mas que os legisladores parecem ignorar com uma perícia quase artística, é que os jovens estão fartos das redes sociais.

Fartos de algoritmos manipuladores, de spam gerado por IA, de fingir que a vida é uma série de reels cinematográficos. Ou seja, fartos de ser produto. E pasme-se, nós, não tão jovens, também!

Começaram a desaparecer dos feeds muito antes de o governo australiano decidir agir.
Não por medo, mas por tédio.
O tédio sempre foi a força mais destrutiva das redes sociais e a mais subestimada.

Quando os adolescentes, motores culturais dos últimos 15 anos de internet, deixam de publicar, as máquinas de engagement começam a tossir, hesitar e, eventualmente, colapsar.

Este é o verdadeiro “ban”: orgânico. Cultural. Irreversível.

Portugal não deve copiar a Austrália antes superá-la

A tentação de copiar a medida australiana vai surgir, inevitavelmente, em colunas de opinião preguiçosas, debates parlamentares apressados e gritos de pânico moral que confundem sintomas com causas.

Mas Portugal tem uma vantagem: tem tempo para pensar. , por uma vez que seja, pensar bem. Não precisamos de proibições absolutas mas de:

  • literacia digital séria (não powerpoints sobre “cuidado com estranhos”)
  • responsabilização real das plataformas
  • transparência algorítmica
  • espaços digitais alternativos e europeus
  • educação emocional e social que prepare jovens para lidar com manipulação digital
  • diálogo, não paternalismo

E sobretudo, precisamos de não cair na caricatura da “solução simples para um problema complexo”. E colocar a saúde mental de uma vez por todas no topo da pirâmide.

Se queremos que os jovens saibam navegar o mundo digital, não podemos deixá-los fechados à porta até aos 16 anos, esperando que por milagre se tornem sábios quando soprarem velas.

A transformação digital que ninguém quer admitir

O futuro das redes sociais não será definido por leis: será definido pelo desinteresse.

A Gen Z percebeu algo que a indústria não queria que percebessem: a vida melhora quando desligam.
É simples. É revolucionário. E devastador para o modelo de negócio.

A proibição australiana tenta travar jovens e os mesmos jovens, sem alarido, já tinham começado a abandonar o barco. No fim, a lei não é o futuro.
É o epitáfio.

Em suma

O que a Austrália fez é politicamente fotogénico, tecnologicamente ingénuo e psicologicamente contraproducente.

Os jovens não precisam de proibições. Precisam de confiança, autonomia e literacia.
As redes sociais não precisam de bans. Precisam de reinvenção ou… tédio.

Portugal pode e deve fazer melhor: não copiando, mas compreendendo. Não impondo, mas educando. Não proibindo, mas preparando.

E, ironicamente, talvez a verdadeira salvação venha daquela força silenciosa que nenhum político consegue legislar: a juventude a perder o interesse.

Tásse!

Agora o contexto português:

Em Portugal, a discussão sobre protecção de menores online tem sido enquadrada principalmente através do Regulamento Geral sobre a Protecção de Dados (RGPD) e da Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD), que estabelecem que menores de 13 anos necessitam de consentimento parental para processamento de dados. O Digital Services Act europeu, aplicável desde 2024, adiciona camadas de protecção sem recorrer a proibições absolutas.

Iniciativas como o programa SeguraNet e recursos da Direcção-Geral da Educação focam-se em literacia digital e uso seguro, em vez de proibição total – uma abordagem mais alinhada com valores de educação e autonomia do que paternalismo legislativo.

Links úteis:

  • Digital Services Act (Comissão Europeia)
  • CNPD – Protecção de Dados de Menores
  • SeguraNet – Literacia Digital
  • Online Safety Act (Reino Unido)

Actualização: Este artigo reflecte a situação a 10 de Dezembro de 2025, data de entrada em vigor da proibição australiana.

Tags: Austrália baneditorial xadas5Gen Zlegislação digitalpirataria digitalpolíticas falhadas tecnologiaposting zeroprivacidade jovensredes sociais menorestransformação digital Portugal
João Gata

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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