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TikTok promete integridade eleitoral em Portugal, mas…

redacção por redacção
Dezembro 14, 2025
TikTok eleições Portugal: plataforma agora controlada por aliados de Trump promete integridade
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O TikTok anunciou, com grande pompa, as suas medidas para garantir a integridade das eleições presidenciais portuguesas de 2026. Centro Eleitoral, parcerias com fact-checkers, combate à desinformação, enfim, o habitual catálogo de boas intenções que qualquer plataforma tecnológica debita quando quer parecer responsável.

Estivemos uma semana a ponderar se deveríamos publicar o comunicado ou se o deveríamos deixar passar. Mas, como meio de informação, o Xá das 5 também tem a obrigação de colocar os pontos nos is, ou, pelo menos, tentar. E foi essa a decisão. Preparados? então cá vai!

Desde setembro de 2025 que o TikTok deixou de ser uma plataforma chinesa para se tornar uma ferramenta americana controlada por aliados directos de Donald Trump. E isto é um grande problema!

TikTok e a venda que tudo mudou

Enquanto o comunicado de imprensa do TikTok Portugal fala de “compromisso contínuo” e “proteger a integridade da nossa plataforma”, convém recordar o que aconteceu nos últimos meses nos Estados Unidos.

Em setembro de 2025, Donald Trump finalizou a venda forçada do TikTok USA a um consórcio de investidores que inclui:

  • Oracle (liderada por Larry Ellison, aliado próximo de Trump que foi brevemente a pessoa mais rica do mundo)
  • Andreessen Horowitz (cujo cofundador Marc Andreessen ajudou a recrutar pessoal para o Departamento de Eficiência de Elon Musk)
  • BlackStone, Silver Lake e outros fundos tradicionalmente alinhados com interesses republicanos
  • Família Murdoch (Rupert e Lachlan, proprietários da Fox News)

O acordo dá ao governo Trump representação directa na estrutura accionarial. Os investidores americanos ficam com 80% do TikTok USA, enquanto a ByteDance chinesa mantém apenas 20%. Mais importante: o governo Trump cobra uma “tarifa” de milhares de milhões de dólares por “facilitar o acordo”, como o próprio presidente americano se gabou.

Trump, que em 2020 tentava banir o TikTok por razões de “segurança nacional”, mudou de ideias quando percebeu o poder da plataforma. Abriu conta oficial, creditou ao TikTok parte da sua vitória eleitoral de 2024, e agora controla indirectamente uma das maiores plataformas de comunicação do planeta.

O problema não é teórico

A questão aqui não é ideológica. É prática e urgente.

Uma plataforma que promete combater “operações de influência oculta” está agora nas mãos de pessoas que têm interesse directo em influenciar eleições – não só americanas, mas globalmente. A Oracle, que “supervisará as operações” e “controlará o algoritmo”, não é uma empresa neutra. É uma empresa cujo CEO é um dos maiores apoiantes financeiros de Trump.

Quando o TikTok Portugal diz que vai “identificar contas de meios de comunicação afiliados ao Estado”, quem decide o que é uma “afiliação estatal”? Quando promete combater “desinformação prejudicial”, quem define o que é “prejudicial”? A mesma empresa que tem representantes do governo Trump no conselho de administração?

O Centro Eleitoral é apenas cosmética?

O tal “Centro Eleitoral” que o TikTok anuncia com tanto orgulho é, na melhor das hipóteses, cosmética. Na pior, é uma cortina de fumo que dá legitimidade a uma plataforma que perdeu qualquer credibilidade para se apresentar como guardiã da integridade democrática.

Sim, o TikTok colaborou com reguladores portugueses. Sim, tem parceria com o Polígrafo. Sim, produz vídeos educativos sobre desinformação. Tudo isso é verdade. E tudo isso se torna irrelevante quando a plataforma está sob controlo de interesses políticos directos.

O problema não está nas ferramentas técnicas porque essas até podem funcionar bem. O problema está em quem controla essas ferramentas e em que interesses servem.

Algoritmos não são neutros

O comunicado menciona várias vezes o algoritmo do TikTok, como se fosse uma entidade neutra que apenas “recomenda conteúdos”. Mas algoritmos são escolhas humanas codificadas. Decidem o que milhões de pessoas vêem, quando vêem, e como vêem.

O acordo de venda especifica que a Oracle terá acesso à “cópia do algoritmo” e será responsável por “monitorizá-lo continuamente para assegurar que não é influenciado por interesses estrangeiros”. Óptimo. E quem monitoriza para garantir que não é influenciado por interesses americanos? E quando esses interesses servem, até anunciado por Trump, para ajudar os movimentos e partidos de direita ou extrema-direita na Europa?

Se a China usar o algoritmo para promover conteúdos pró-China, toda a gente concorda que é inaceitável. Mas se a Oracle, empresa americana com ligações directas ao governo Trump, fizer ajustes subtis ao algoritmo que favorecem narrativas conservadoras ou enfraquecem narrativas progressistas, quem vai detectar? Quem vai denunciar? Quem sequer tem acesso aos dados para verificar?

O que isto significa para Portugal

As eleições presidenciais portuguesas de 2026 vão acontecer num ambiente mediático onde uma das principais plataformas usadas por jovens eleitores está controlada por interesses alinhados com a extrema-direita americana.

Não é preciso imaginar teorias da conspiração. Basta perceber que:

  1. O algoritmo pode ser ajustado para dar mais visibilidade a certos tipos de conteúdo e menos a outros, de forma subtil e indetectável.
  2. As definições de “desinformação” podem variar conforme os interesses de quem está no controlo. O que é considerado “desinformação prejudicial” para a Oracle pode não ser o mesmo que para reguladores europeus.
  3. A moderação de conteúdos pode ser selectiva. Conteúdos de candidatos ou movimentos políticos que não agradem aos interesses americanos podem ser moderados de forma mais agressiva.
  4. Os dados dos utilizadores portugueses passam agora por servidores controlados pela Oracle. Mesmo que prometam privacidade, a infra-estrutura está nas mãos de uma empresa americana sujeita a legislação americana.

Anúncios políticos: a excepção que confirma a regra

O TikTok proíbe publicidade política paga. É uma das suas políticas mais publicitadas e apresentadas como prova do seu compromisso democrático. Mas vale a pena ler a letra pequena.

A proibição aplica-se a “candidatos, partidos políticos” mas não a “entidades oficiais responsáveis pela supervisão eleitoral”. Ou seja, governos podem fazer publicidade. E quem decide o que é “informação essencial” versus propaganda política? Exacto: o TikTok. Que agora está controlado por aliados de Trump.

Mais importante: a proibição de anúncios pagos é irrelevante quando se controla o algoritmo. Não é preciso pagar por anúncios se se pode simplesmente ajustar o algoritmo para promover organicamente os conteúdos que se quer ver amplificados.

TikTok centro eleitoral

A hipocrisia do fact-checking

O comunicado menciona a parceria com o Polígrafo e outros fact-checkers. É uma boa prática. Mas torna-se irónica quando a própria plataforma está nas mãos de pessoas que regularmente promovem desinformação.

Larry Ellison é conhecido por financiar causas conservadoras e promover narrativas que, muitas vezes, entram em conflito com consensos científicos ou factuais. Marc Andreessen tem um historial de tweets e declarações que espalham teorias conspiratórias sobre regulação tecnológica. A família Murdoch controla a Fox News, um dos principais veículos de desinformação conservadora nos Estados Unidos.

Estas são as pessoas que agora controlam a plataforma que promete combater desinformação em Portugal. A ironia seria engraçada se não fosse perigosa.

O que fazer?

Primeiro: aceitar a realidade. O TikTok deixou de ser uma plataforma neutra (se é que alguma vez foi). É agora uma ferramenta controlada por interesses políticos americanos específicos.

Segundo: não confiar cegamente nas promessas de integridade. O Centro Eleitoral, as parcerias com fact-checkers, as políticas contra desinformação, tudo isso pode ser revertido ou manipulado a qualquer momento.

Terceiro: diversificar fontes. Os candidatos, os partidos, os eleitores, todos devem reduzir a dependência do TikTok como canal principal de comunicação política. Usar outras plataformas, privilegiar meios tradicionais verificados, investir em canais próprios.

Quarto: exigir transparência. Os reguladores portugueses e europeus devem exigir acesso aos dados sobre como o algoritmo está a funcionar em território nacional. Auditorias independentes, relatórios públicos, mecanismos de verificação.

Quinto: legislar. A União Europeia já tem o Digital Services Act e outras ferramentas regulatórias. É preciso usá-las de forma agressiva para garantir que plataformas controladas por interesses estrangeiros não podem interferir em processos democráticos europeus.

Conclusão: é tarde, mas não é tarde demais

O TikTok mudou de mãos. Passou de uma empresa chinesa com potenciais ligações ao governo chinês para uma empresa americana com ligações documentadas à administração e amigos de Trump. Do ponto de vista da soberania digital europeia, não é claro que tenha sido uma melhoria.

As eleições presidenciais portuguesas de 2026 vão ser as primeiras a decorrer sob esta nova realidade. O comunicado de imprensa do TikTok é, na melhor das hipóteses, ingénuo. Na pior, é propaganda.

Não é preciso acreditar em teorias da conspiração para perceber que uma plataforma controlada por aliados de Trump, que cobra milhares de milhões ao governo americano por “facilitar” o acordo, que tem representação directa do governo na estrutura accionarial, e que controla o algoritmo que decide o que milhões de portugueses vêem todos os dias, não é uma entidade neutra para gerir informação eleitoral.

A pergunta não é se o TikTok vai tentar influenciar as eleições portuguesas. A pergunta é como e quando. E se estaremos atentos o suficiente para perceber.

Tags: algoritmosdesinformaçãoDigital Services ActDonald Trumpeleições presidenciais 2026Fact-Checkingintegridade eleitoralLarry Ellisonmanipulação eleitoralOracleredes sociaisregulação europeiaTikTok portugal
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