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iRobot declara falência: o que acontece ao Roomba lá de casa?

João Gata por João Gata
Dezembro 15, 2025
Análise Roomba Combo 405 Plus + AutoWash
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A iRobot, criadora do Roomba e durante anos a referência absoluta em robótica doméstica, entrou oficialmente em falência esta semana. Trinta e cinco anos após a sua fundação por três investigadores do MIT, a empresa norte-americana anunciou que será totalmente adquirida pela Picea Robotics, uma empresa chinesa de Shenzhen que já era o seu principal fornecedor de componentes e, nos últimos meses, também o seu maior credor.

O desfecho não surpreende quem acompanha o sector. Desde Março deste ano que a iRobot admitia publicamente “dúvidas substanciais sobre a sua capacidade de continuar a operar”, linguagem que no mundo financeiro equivale a acenar com uma bandeira branca.

As acções, que em 2021 valiam 133 dólares, chegaram a Novembro cotadas a 1,40 dólares. A receita anual caiu de 890 milhões de dólares em 2023 para 682 milhões em 2024, uma descida de 23% que reflecte a perda de quota de mercado para concorrentes asiáticos mais baratos e tecnologicamente competitivos.

A Amazon que não foi e a concorrência que chegou

O ponto de viragem aconteceu em Janeiro de 2024, quando a tentativa de aquisição pela Amazon, avaliada em 1,7 mil milhões de dólares, caiu por terra após o chumbo da Comissão Europeia. Margrethe Vestager bloqueou o negócio argumentando que a Amazon poderia favorecer os seus próprios produtos no marketplace, prejudicando a concorrência.

A indemnização de 94 milhões que a Amazon pagou pela quebra do acordo não foi suficiente para estabilizar a empresa. Colin Angle, fundador e CEO, demitiu-se imediatamente. Seguiram-se cortes de 31% na força de trabalho e um empréstimo-ponte de 190 milhões de dólares ao Carlyle Group para manter as operações a funcionar enquanto se procurava uma solução.

Essa solução acabou por vir da própria Picea Robotics, que entretanto adquiriu essa dívida ao Carlyle e agora, através do processo de falência segundo o Capítulo 11 apresentado no tribunal de Delaware, fica com 100% do capital da iRobot. A dívida de 190 milhões será cancelada, assim como mais 74 milhões devidos por acordos de fabricação. Outros credores e fornecedores serão pagos na totalidade, mas os accionistas comuns perdem tudo. O processo deverá estar concluído em Fevereiro de 2026.

Mas a questão de fundo não é apenas regulatória. A iRobot foi sendo ultrapassada por marcas chinesas como Roborock, Dreame, Ecovacs e até pela Xiaomi, que conseguiram oferecer aspiradores robóticos com sensores mais avançados, navegação LiDAR e funcionalidades de lavagem a preços significativamente inferiores aos Roomba de gama comparável.

A empresa tentou reagir este ano com o maior lançamento de produtos da sua história, as séries 105, 205, 405 e 505, com navegação LiDAR e aspiração 70 vezes mais potente que os modelos antigos. Mas a inovação chegou tarde demais para compensar anos de erosão de quota de mercado. E os problemas de juventude da nova App também não ajudaram às análises iniciais, como eu próprio apontei aqui:

  • análise ao “ultimo iRobot” americano, o Combo 405 Plus + AutoWash

As tarifas norte-americanas sobre importações do Vietname, onde a iRobot fabrica os seus produtos, adicionaram 23 milhões de dólares aos custos só em 2025, complicando ainda mais o planeamento financeiro de uma empresa já a operar com prejuízo consistente.

E quem tem um Roomba em casa?

Para os milhões de utilizadores que têm um Roomba, a curto prazo nada muda. A iRobot promete que não haverá “interrupção antecipada” das funcionalidades da aplicação, suporte técnico ou programas com clientes e parceiros. O CEO Gary Cohen afirmou que a transacção “fortalecerá a posição financeira da empresa e ajudará a oferecer continuidade aos consumidores”.

Mas a médio prazo, as incertezas são reais. Os modelos Roomba continuarão a funcionar em modo offline, isso é garantido. São aspiradores físicos, afinal. O problema está nas funcionalidades que dependem da cloud: mapeamento inteligente, programação de limpeza por aplicação, integração com assistentes virtuais. Se os servidores forem desligados no futuro, estas funções deixam de existir.

O precedente da Neato, cuja empresa-mãe encerrou operações em 2023 mas manteve os servidores activos até 2025 para cumprir compromissos de suporte, sugere que a iRobot possa seguir um caminho semelhante, garantindo algum tempo de transição.

A questão que fica em aberto é o que a Picea Robotics fará com a marca. Será que manterá a iRobot como entidade independente, aproveitando o valor do nome Roomba no mercado ocidental? Ou integrará a tecnologia e os activos nas suas próprias linhas de produtos, reduzindo a iRobot a uma marca secundária? A Picea não é uma empresa menor no sector, é um dos principais fabricantes de componentes para aspiradores robóticos e já tinha uma relação profunda com a iRobot. Mas a lógica industrial chinesa nem sempre favorece a manutenção de marcas ocidentais como entidades autónomas.

A inovação que não acompanhou… a inovação

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A iRobot não falhou por falta de visão ou por ser tecnologicamente incapaz. Foi a empresa que transformou os aspiradores robóticos numa categoria de produto de consumo massivo.

O primeiro Roomba, lançado em 2002, vendeu mais de 50 milhões de unidades e tornou-se num ícone cultural que ultrapassou a função de aspirador. Mas enquanto a iRobot consolidava a sua posição com modelos incrementalmente melhorados, a concorrência asiática acelerou o ritmo de inovação e, mais importante ainda, conseguiu escalar a produção mantendo preços agressivos.

O que aconteceu à iRobot é o que acontece a muitas empresas pioneiras: definem o mercado, mas perdem-no quando chegam competidores com estruturas de custos mais eficientes e menos compromissos com linhas de produto legado. A Nokia dos telemóveis, a GoPro das câmaras de acção, e agora a iRobot dos aspiradores robóticos. O padrão repete-se.

Para quem está a ponderar comprar um Roomba neste momento, a recomendação é clara: avaliar se as funcionalidades cloud são essenciais. Se forem, o risco de ficarem órfãs num futuro próximo é real. Se o que interessa é um aspirador robótico fiável que funcione offline, um Roomba ainda é um Roomba e continuará a aspirar. Mas há alternativas no mercado, muitas delas mais avançadas tecnologicamente e mais baratas, que não enfrentam as mesmas incertezas de suporte a longo prazo.

A iRobot não desaparece amanhã. Mas deixou de ser uma empresa norte-americana independente e passa a integrar o ecossistema industrial chinês que, nos últimos anos, dominou progressivamente o mercado de robótica doméstica.

É, afinal, o fim de uma era para uma marca que durante duas décadas foi sinónimo de inovação no sector. E um lembrete de que no mundo da tecnologia, ser pioneiro não garante ser eterno.

Tags: Amazonaspiradores robotiRobotirobot falênciapicea roboticsRoomba
João Gata

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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