Ou, como título ainda mais fatalista, “Blu-ray: a história do formato que chegou tarde e partiu cedo”, escolham.
Era uma vez um disco. Era azul, literalmente, o laser que o lia era de cor azul-violeta, o que lhe dava nome e lhe permitia armazenar muito mais informação do que o vermelho do DVD. Esse disco chamava-se Blu-ray, chegou em 2006 com a promessa de ser o futuro do vídeo doméstico, venceu uma guerra cara e prolongada contra o seu rival directo, e foi então trocado, com surpreendente rapidez e sem cerimónia especial, por uma ligação à Internet e uma senha de WiFi.
Esta é a história de uma tecnologia que fez tudo certo e mesmo assim acabou a olhar para o tecto.
O DVD e a promessa de um successor digno

Para perceber o Blu-ray é preciso recuar ao DVD, que em meados dos anos 2000 era o formato dominante de vídeo doméstico e um dos produtos de consumo com crescimento mais rápido da história da electrónica. O DVD tinha sucedido à cassete VHS (que infelizmente venceu a batalha contra a muito superior Betamax) no final dos anos 90 com argumentos irrecusáveis: imagem mais nítida, som melhor, disco durável, capítulos seleccionáveis, menus interactivos e – detalhe que os utilizadores adoravam – não era preciso rebobinar.
Em poucos anos, a secção de filmes das lojas reorganizou-se completamente em torno das caixas de plástico transparente.
O problema é que a televisão também evoluiu. O século XXI trouxe consigo os ecrãs de alta definição – primeiro os plasmas enormes e caros, depois os LCD cada vez mais acessíveis – e esses ecrãs mostravam uma coisa incómoda: o DVD não era assim tão bom.
Uma imagem DVD tem uma resolução de 720 por 480 píxeis em formato NTSC (o padrão americano e japonês) ou 720 por 576 em PAL (o europeu). Num televisor de 32″ dos anos 90, era mais do suficiente. Mas num painel de 50″ em alta definição, a imagem pixelizava, perdia nitidez, ficava aquém do potencial do equipamento. Portanto, era preciso um disco melhor.
Dois campos, uma guerra
A indústria respondeu com dois formatos incompatíveis, o que, visto agora com distância, parece uma decisão colectiva de sabotagem. De um lado, o Blu-ray, liderado pela Sony em consórcio com a Matsushita (Panasonic), Samsung, Philips, Pioneer e outros. Do outro, o HD DVD, defendido pela Toshiba e pela NEC, com o apoio da Microsoft e da Intel.
Ambos usavam lasers de alta frequência para ler discos de maior capacidade e ambos prometiam alta definição a 1080p, resolução suficiente para aproveitar a nova geração de televisores. E, como se estava à espera, ambos eram completamente incompatíveis entre si, o que punha os consumidores numa posição desconfortável: comprar um leitor era apostar num cavalo sem saber se ganharia a corrida, ou seja, regressávamos à guerra e às eternas discussões tipo VHS vs Betamax.
A guerra dos formatos durou pouco mais de dois anos, entre 2006 e 2008, e foi travada em várias frentes. Os fabricantes de hardware tentavam convencer os grandes retalhistas, os estúdios de Hollywood eram cortejados com contratos de exclusividade: alguns como a Disney e a Fox alinharam com o Blu-ray, outros como a Universal ficaram com o HD DVD, e a Warner Brothers flutuou durante algum tempo entre os dois campos antes de anunciar, em Janeiro de 2008, que ficaria exclusivamente com o Blu-ray. Essa decisão foi, na prática, o sinal de fim da guerra e a Toshiba rendeu-se semanas depois e descontinuou o HD DVD.

O Blu-ray tinha vencido!!! Foi uma vitória real, conseguida com estratégia industrial, alianças bem construídas e um factor decisivo que muita gente subestimou: a PlayStation 3 da Sony, lançada em 2006, incluía um leitor de Blu-ray incorporado. Num só movimento, a Sony colocou leitores Blu-ray nas salas de estar de milhões de pessoas que compravam uma consola de jogos, não um equipamento de vídeo. Em 2008, a PlayStation 3 era o leitor de Blu-ray mais vendido do mercado.
A guerra tinha acabado, e o vencedor estava pronto para reinar.
O que o Blu-ray realmente oferecia
Do ponto de vista técnico, o salto do DVD para o Blu-ray era genuíno e significativo. Um disco Blu-ray de camada simples armazenava 25 gigabytes contra os 4,7 GB de um DVD de camada simples e os modelos de dupla camada chegavam aos 50 GB.
Isso permitia filmes em resolução 1080p com taxas de dados muito superiores às do DVD, o que se traduzia em imagem visivelmente mais nítida, com menos artefactos de compressão, e som em formatos como o Dolby TrueHD e o DTS-HD Master Audio, que eram, em rigor, cópias bit a bit das faixas sonoras originais dos filmes, sem qualquer perda de qualidade em relação ao que existia nos estúdios.
Para os cinéfilos sérios, os coleccionadores e os audiofílicos, o Blu-ray era um formato extraordinário. A qualidade de imagem e som era notavelmente superior ao que qualquer serviço de streaming oferecia e continua a ser, em muitos casos, superior ao que os serviços actuais transmitem.
Um Blu-ray de um filme bem masterizado, visto num bom equipamento, é ainda hoje uma experiência de referência que os serviços de streaming raramente igualam, pelo menos nas suas ofertas padrão.
O problema que ninguém quis ver a tempo
Mas havia um problema que a indústria do disco físico demorou a levar a sério, e que em retrospectiva parece óbvio: o Blu-ray chegou ao mercado exactamente no mesmo período em que a Internet de banda larga começava a chegar às casas portuguesas e europeias com velocidade suficiente para fazer algo mais do que enviar emails e descarregar música.
Em 2007, a Netflix nos Estados Unidos – que até aí era apenas um serviço de aluguer de DVDs por correio – lançou o streaming de vídeo e em 2008 e 2009, esse serviço expandia-se. Em Portugal, os operadores de telecomunicações instalavam fibra óptica com crescente rapidez. A equação estava a mudar, e estava a mudar mais depressa do que os fabricantes de leitores de disco queriam acreditar.
O streaming não oferecia, em 2008 ou 2009, qualidade de imagem comparável ao Blu-ray mas oferecia algo que o disco físico nunca conseguiu oferecer: conveniência absoluta. Não era preciso ir à loja, não era preciso esperar a entrega, não era preciso guardar espaço físico em casa, não era preciso levantar do sofá para trocar o disco. Carregava-se num botão e o filme começava com qualidade razoável e em conforto total.
Para a maioria das pessoas, esse compromisso era mais do que aceitável. Afinal, a maioria das pessoas nunca foi cinéfila; queria ver um filme, não estudá-lo.
A ascensão e o declínio silencioso
O Blu-ray teve o seu período áureo entre 2008 e 2013, aproximadamente. As vendas cresciam, os leitores ficavam mais baratos, e a qualidade dos títulos disponíveis era excelente. Os grandes estúdios relançaram os seus catálogos clássicos em alta definição, e havia claramente um mercado disposto a pagar pela qualidade.
O formato Ultra HD Blu-ray, anunciado em 2015 e comercializado a partir de 2016, trouxe resolução 4K, suporte a High Dynamic Range (HDR), uma tecnologia que expande a gama de brilho e cores de uma imagem, tornando-a mais próxima do que o olho humano vê na realidade, e som ainda mais avançado. Era, tecnicamente, o melhor formato de vídeo doméstico alguma vez criado.
Mas as vendas de discos físicos caíam. Em Portugal, como em todo o mundo ocidental, as lojas de música e vídeo fechavam ou reduziam drasticamente as suas secções de venda. A FNAC, o Worten, a Media Markt, todos foram reduzindo o espaço dedicado ao disco físico à medida que o streaming crescia.
A Netflix chegou a Portugal em 2015 e a NOS, a Vodafone e a MEO expandiram os seus serviços de vídeo a pedido. O Apple TV, o Amazon Prime Video, o Disney+ foram chegando e a questão deixou de ser se o streaming iria substituir o disco físico, e passou a ser apenas… quando.
A nuvem que não tem peso
Há uma ironia no centro desta história que merece ser dita com clareza: o Blu-ray é, objectivamente, um formato superior ao streaming na esmagadora maioria dos contextos técnicos que importam para a qualidade de imagem e som. Um Ultra HD Blu-ray tem taxas de dados entre os 80 e os 100 megabits por segundo. O Netflix em 4K raramente ultrapassa os 15 a 25 megabits por segundo. A diferença é visível num bom televisor com um bom sistema de som e, no entanto, o streaming ganhou.
Ganhou porque a conveniência é um argumento mais forte do que a qualidade para a maioria das pessoas. Ganhou porque ter acesso a milhares de títulos sem sair do sofá e sem ocupar espaço físico em casa é uma proposta de valor que o disco físico nunca poderá igualar por definição. Ganhou também porque os serviços de streaming perceberam cedo que o negócio não era vender filmes individuais, mas vender acesso e esse modelo de subscrição mensal encaixava melhor na psicologia do consumidor moderno do que o acto de comprar um objecto físico.
A cloud trouxe ainda outra vantagem que passa despercebida: a portabilidade. Um catálogo comprado em formato digital está disponível em qualquer ecrã, em qualquer lugar, sem carregar caixas. Uma colecção de duzentos Blu-rays é uma estante bonita mas também é um problema logístico quando se muda de casa, e uma perda total se ocorrer um incêndio ou uma inundação.

Quem ficou e porquê
O Blu-ray não morreu completamente, e provavelmente não morrerá tão cedo. Há um mercado de coleccionadores e cinéfilos que continua a comprar discos com a mesma determinação com que os audiofílicos continuaram a comprar vinil quando o CD parecia ter destruído o mercado do disco de 33 rotações (embora eu tenha uma opinião muito concreta sobre o revivalismo do vinil e que nada tem que ver com qualidade).
Os argumentos são os mesmos: qualidade superior, posse física, independência de plataformas e algoritmos, valor cultural do objecto. Uma edição especial de um filme em Ultra HD Blu-ray com making-of, comentários do realizador e arte exclusiva é algo que o streaming raramente oferece com a mesma profundidade.
Há também uma questão de soberania que começa a preocupar os consumidores mais atentos: um filme comprado em Blu-ray é seu para sempre, independentemente do que aconteça à empresa que o vendeu. Um filme comprado digitalmente numa plataforma pode deixar de estar disponível se a plataforma fechar, se perder os direitos de distribuição ou se simplesmente decidir remover o título do catálogo. Acontece com mais frequência do que se imagina, e é um argumento que o disco físico usa com crescente pertinência.
Em suma
A história do Blu-ray é, no fundo, a história de uma tecnologia que fez tudo o que lhe foi pedido e ainda assim não foi suficiente. Ganhou a guerra dos formatos com estratégia e alianças inteligentes, entregou qualidade de imagem e som que o streaming ainda hoje não iguala na generalidade, sobreviveu à transição para o 4K com o Ultra HD Blu-ray e ficou a ver o mundo mudar à sua volta, rendido não por um formato tecnicamente superior, mas por um modelo de negócio e um nível de conveniência que nenhum disco, por mais azul que seja o seu laser, alguma vez conseguirá oferecer.
Mas tenho um conselho muito importante e quiçá premonitório: para quem ainda tem um leitor em casa, não o venda. A qualidade continua lá e não precisa de palavra-passe nem de ligação à Internet. E pelo que parece que vai acontecer ao mundo, nada melhor que ter uma prova física na mão de algo que existe…





