162 documentos, “orbes” a lançar “orbes”, luzes na Lua e nenhum marciano. Mas a pergunta certa não é “o que voa ali?” – é “porque é que nos mostram isto agora?”
Ah, os Orbes… Na sexta-feira passada, 8 de Maio de 2026, o que ainda se chama Pentágono – embora a administração Trump tenha rebaptizado o Departamento de Defesa de “Departamento de Guerra”, o que já nem consegue ser uma piada – lançou o maior arquivo desclassificado de fenómenos aéreos não identificados da história dos Estados Unidos.
Cento e sessenta e dois ficheiros, disponíveis sem qualquer credencial de segurança em war.gov/ufo, numa iniciativa que a administração baptizou de PURSUE – sigla para Presidential Unsealing and Reporting System for UAP Encounters, porque o que esta administração nunca perde é o sentido de espectáculo circense.
O lote inclui vídeos e imagens de avistamentos de fenómenos aéreos não identificados capturados em vários pontos do globo, documentos históricos sobre programas governamentais que remontam aos anos 40 e transcrições do programa Apollo. Entre o material mais comentado está um relato de “orbes a lançar orbes” registado por funcionários federais no oeste dos EUA em 2023, uma “bola de luz branca irregular e deformada” reportada pelo exército norte-americano na Síria em 2024, e imagens do Apollo 17 com três pontos luminosos visíveis acima da superfície lunar.
O astronauta Buzz Aldrin, nas transcrições de 1969 agora desclassificadas, descreveu ter visto uma “possível fonte de laser” no espaço durante a missão Apollo 11, sim, em mil nove e sessenta e nove…
O que os ficheiros dizem e, obviamente, o que não dizem

Antes de qualquer entusiasmo razoável, convém ler as letras pequeninas: os documentos não sugerem qualquer encobrimento governamental alargado de encontros extraterrestres, e não contêm qualquer indicação de que o governo norte-americano tenha tido interacção com seres de outros planetas ou razões para acreditar que tais seres visitaram a Terra. Lá se vai a Área 51…
Sean Kirkpatrick, ex-director do All-domain Anomaly Resolution Office do Pentágono, avisou que “não há nada de inesperado nesta divulgação e que, sem análise ou contexto, apenas vai alimentar mais especulação, conspiração e pseudociência de sofá”. O que é uma forma educada de dizer que mandar material bruto para o público sem análise científica estruturada não é transparência – é espectáculo.
Muitos dos documentos presentes nesta publicação já eram publicamente acessíveis, embora algumas versões incluam agora menos reduções ou mais páginas do que as versões anteriores. A novidade é mais a embalagem do que o conteúdo.
O modelo Epstein e o que isso nos deve dizer
Há um detalhe de contexto que quase todos os meios de comunicação norte-americanos referiram de passagem e que merece mais atenção: o Pentágono usou como modelo para esta divulgação um sistema semelhante ao que o Departamento de Justiça utilizou em Dezembro para lançar os Epstein Files.
Mesmo formato, mesmo site progressivo, mesma promessa de “rolling releases” – novos documentos a cada poucas semanas. Os Epstein Files geraram meses de cobertura mediática, conversas intermináveis e, no final, relativamente pouco de substancial.
Alguém no governo aprendeu que este formato funciona extraordinariamente bem como ocupação do espaço público. Quanto aos marcianos terem ou não uma cópia em carbono dos Epstein Files, a administração não se pronunciou – o que, ironicamente, é a única coisa que não está a ser desclassificada e foi a única pergunta que lhes fiz (sim, enviei essa questão).
Porque agora? O contexto que a Casa Branca não menciona
Esta é a pergunta central que os ficheiros dos OVNIs, por si só, não respondem. Em Fevereiro de 2026, os EUA e Israel lançaram ataques em larga escala contra o Irão, dando início a uma guerra que o mediador omani descreveu como “uma grave miscalculação” e “uma catástrofe”. O cessar-fogo chegou a 8 de Abril, mas semanas depois os EUA e o Irão continuam sem conseguir negociar um acordo de paz permanente, com Teerão a exigir o controlo do Estreito de Ormuz e Washington a insistir no desarmamento nuclear como condição não negociável.
Nas conversações de Islamabade, que duraram 21 horas, Trump escreveu naquela aventura pessoal que é a Truth Social que “a reunião correu bem, a maioria dos pontos foi acordada, mas o único ponto que realmente importava, o NUCLEAR, não foi”. Traduzindo: nenhum acordo. E os preços do petróleo subiram. E o Estreito de Ormuz continua bloqueado. E a posição internacional dos EUA saiu fragilizada de um conflito que o próprio Omã classificou como uma guerra feita nos interesses de Israel, não da América.
É precisamente neste contexto – com a imagem de Trump como negociador em causa, a economia pressionada pelos preços da energia e a opinião pública a precisar de uma narrativa nova – que surgem os ficheiros dos OVNIs. Com o seu próprio site, o seu próprio acrónimo cinematográfico e a garantia de “máxima transparência”. Trump escreveu na sua plataforma que “foi uma honra” dirigir a administração a divulgar os ficheiros sobre vida extraterrestre e fenómenos não identificados.
Cobertura? Provavelmente não.
Seria simplista demais afirmar que os OVNIs existem apenas para desviar atenção do Irão. A realidade é mais banal e, de certa forma, mais perturbante: este tipo de divulgação serve múltiplos propósitos em simultâneo. Serve a base de apoio de Trump, que inclui uma comunidade vasta e activa de entusiastas de UAP. Serve a narrativa de transparência contra as “administrações anteriores que procuraram desacreditar o povo americano”. Serve os media, que têm agora semanas de material para cobrir. E serve também, colateralmente, como ruído de fundo enquanto as negociações com o Irão tropeçam em Islamabade.
O comandante da Artemis II, Reid Wiseman, talvez tenha dado a resposta mais honesta de toda esta semana quando questionado sobre a teoria da conspiração de que a NASA esconde contacto extraterrestre: “Sabem o que acontecia se encontrássemos vida alienígena e voltássemos a reportá-lo? A NASA nunca mais teria problemas de orçamento pelo resto da eternidade. Por isso, acreditem em mim.”
Em suma, os ficheiros dos OVNIs são reais, os avistamentos são genuinamente inexplicados e a desclassificação é um acto legítimo que devia ter acontecido há décadas. Mas a pergunta que vale a pena fazer não é se há vida inteligente noutros planetas – essa é uma questão científica fascinante que estes documentos não respondem.
A pergunta é: que vida inteligente está a decidir o quê, quando e como divulgar, e com que objectivos? Essa, curiosamente, é a mais terrena de todas. E sabemos que, no momento actual, inteligência é algo que não mora no Pentágono.





