O Samsung The Premiere 5 é o tipo de produto que divide as pessoas em dois campos de forma quase imediata: de um lado ficam os que lêem as especificações técnicas, comparam com outros projectores a preço semelhante e chegam à conclusão de que Full HD a este preço não faz sentido quando há opções 4K disponíveis.
Do outro lado ficam os que percebem que este projector não está a competir com mais nenhum projector mas a inventar uma categoria nova, algures entre o ecrã portátil, o projector de sala e um dispositivo interactivo que ainda não tem nome próprio. Escolho ficar no segundo grupo mas vou explicar porquê.
Compacto, laser triple, táctil e completamente fora do comum. Há imperfeições? Há e não importam.
O Premiere 5 chegou-me às mãos com algum cepticismo inicial – os 1999€ do preço de lançamento eram uma barreira real mas o preço desceu para 1.499,99 € (por enquanto). Mas depois de semanas com o aparelho, a conclusão é clara: é provavelmente o produto mais interessante e bem conseguido neste segmento de preço, e a sua proposta é suficientemente única para tornar a comparação directa com outros projectores quase um exercício de má-fé.
Design e construção

O Premiere 5 tem 13,6 cm de largura, 20 cm de comprimento e pesa 1,7 kg. Para referência: é mais pequeno do que a maioria dos livros de cozinha e mais leve do que muitos portáteis compactos. O chassis cilíndrico em plástico rugoso com controlos tácteis no topo tem uma elegância discreta que se integra bem em qualquer ambiente – não grita “sou tecnologia cara”, o que é exactamente o que se pretende num objecto que pode viver permanentemente na sala de estar ou ser transportado de divisão em divisão.
A tampa flexível é amovível com fecho magnético, revelando o interior do projector de forma que parece deliberada e é o tipo de detalhe de design que só existe quando alguém pensou muito no produto.
Outro mimo, já habitual na marca, é o comando SolarCell que não precisa de pilhas: carrega através da luz ambiente ou por captação de radiofrequência. Num mundo de electrodomésticos que consomem pilhas AA às dezenas, é um argumento de sustentabilidade genuíno e prático ao mesmo tempo.
As ligações incluem 2X micro HDMI e 2X USB-C, sendo um deles exclusivo para alimentação e o outro para dados e carregamento externo.
A ausência de HDMI de tamanho normal obriga à compra de cabos adequados (ou adaptadores) separados para quem queira ligar uma consola ou leitor de Blu-ray, o que é uma irritação legítima num produto a este preço. Mas na prática, a maioria dos utilizadores vai usar o Tizen OS integrado para streaming e raramente vai precisar de cabos.
Projecção laser triple

O motor óptico do Premiere 5 usa três lasers RGB independentes – vermelho, verde e azul -, a mesma tecnologia dos modelos The Premiere 7 e 9, os projectores de cinema doméstico de topo da Samsung. A diferença está na potência: o Premiere 5 tem 560 lumens ISO (aproximadamente 500 ANSI), muito abaixo dos 2000+ dos modelos de sala dedicados. Esta é a concessão técnica central do produto, e é honesta: não é um projector de cinema doméstico de alto desempenho mas um projector lifestyle com um motor laser de qualidade.



O que os três lasers trazem de concreto é precisão de cor e ausência de degradação ao longo do tempo – os lasers RGB não perdem saturação com o envelhecimento como as lâmpadas tradicionais ou os sistemas laser-fósforo. A temperatura de cor é naturalmente mais precisa, os verdes são mais ricos, e a gama de cores cobre o espectro de forma mais fiel.

A 60″ num quarto com luz controlada, a imagem é genuinamente bonita: limpa, com cor correcta e detalhe adequado para Full HD.
A 100″ em plena luz do dia é outra história – os 500 lumens não são suficientes para combater a luz ambiente directa, e a imagem perde punch. Mas com as persianas fechadas ou ao fim do dia, mesmo a 100″ o resultado é cinematográfico e imersivo de uma forma que surpreende para um aparelho deste tamanho.

O ultra-curto alcance permite projectar 60″ a apenas 22 cm da parede e 100″ a 63 cm – o que na prática significa que podemos colocá-lo em qualquer mesa perto de uma parede e ter uma imagem enorme sem cabos a atravessar a sala.
O suporte HDR10+ e HLG está presente mas deve ser lido com moderação: o ganho em contraste e cor ao activar HDR em Netflix ou Disney+ é real e perceptível, mas não tem o mesmo impacto de um painel OLED ou de um projector de cinema doméstico dedicado.
Se para uso casual de streaming é mais do que suficiente, para cinéfilos exigentes com calibração de referência não é o produto certo.
O som

O sistema de som de 10 watts em configuração estéreo é uma surpresa genuinamente positiva. A Samsung implementou o Object Tracking Sound Lite – tecnologia que cria a ilusão de que o som emerge da imagem projectada em vez de vir do aparelho – e o resultado é um campo sonoro mais natural do que se esperaria de um projector desta dimensão.
O diálogo é claro e inteligível mesmo a volumes baixos, a música tem presença e alguma amplitude, e o suporte Dolby Atmos adiciona dimensionalidade subtil mas perceptível. Para uma divisão pequena a média, o som integrado é completamente adequado para uso diário.
Para quem queira mais, a compatibilidade Q-Symphony permite integrar o som do Premiere 5 com uma soundbar Samsung compatível, criando um sistema combinado mais envolvente. É uma opção que faz sentido para uso permanente numa sala.
Por último, há que referir que este projector também pode ser usado apenas como uma coluna de som, desde que não puxemos demasiado dele.
A base táctil

Ora aqui está o elemento que torna o Premiere 5 verdadeiramente único e que, honestamente, me deixou com vontade de mostrar a toda a gente que visitou a minha casa durante o período de análise.
A Touch Stand – incluída na caixa – encaixa no projector através de ímanes com um clique satisfatório, reorienta a projecção para baixo, e activa um sistema de câmara infravermelha e laser que transforma a superfície abaixo do projector num ecrã táctil funcional!!!
Sim, leram bem e podem ver o vídeo abaixo: qualquer mesa, secretária ou piso plano torna-se uma superfície interactiva onde se pode jogar, desenhar, navegar em aplicações e interagir com conteúdo através de toques e gestos.
A latência de resposta é de aproximadamente meio segundo – perceptível e diferente da resposta imediata de um ecrã táctil convencional -, o que torna a funcionalidade menos adequada para jogos de reacção rápida mas perfeitamente aceitável para jogos casuais, aplicações educativas e interacção criativa.
A limitação mais real é a sensibilidade às superfícies: o sistema funciona melhor em superfícies mate e neutras – MDF, laminado, cerâmica, madeira clara -, e pode não funcionar em superfícies muito reflectoras ou com padrões complexos. Requer também condições de luz ambiente razoavelmente controladas. Estas são limitações reais que a Samsung precisa de resolver em iterações futuras do produto – e que resolveu parcialmente em relação aos primeiros protótipos testados noutros mercados.
Mas quando funciona – e funciona com consistência nas condições adequadas -, a experiência é de uma categoria diferente. Jogar Sea Battle ou Fruit Ninja numa mesa projectada com os dedos, ver crianças interagirem com conteúdo educativo numa superfície plana, usar o projector como quadro interactivo numa reunião informal – são experiências que não existiam antes deste produto.
A Samsung está a construir o vocabulário de uma interface que ainda não tem paralelo no mercado de consumo, e o Premiere 5 é o primeiro capítulo dessa história. Naturalmente que, como todos os primeiros capítulos, é imperfeito. Mas, como em todos os primeiros capítulos de histórias interessantes, vale a pena ler até ao fim.
O ecosistema Tizen – o mesmo sistema operativo dos televisores Samsung – traz todas as aplicações de streaming relevantes (Netflix, Disney+, Prime Video, YouTube e muito mais), modo Ambient para exibir arte ou animações quando o projector não está em uso activo, integração com SmartThings para automação doméstica, e compatibilidade AirPlay 2 para utilizadores de dispositivos Apple.
Quem já vive no ecosistema Samsung vai encontrar o Premiere 5 como uma extensão natural – definições sincronizadas, dispositivos reconhecidos automaticamente, experiência integrada. Para os restantes, é um ponto de entrada convincente.
Poderia ter um botão timer mais directo? Poderia, mas para lá chegarmos temos que navegar pelos muitos quadros de definições.
Em suma

O Samsung The Premiere 5 é o projector mais ambicioso e mais original disponível até aos 2000 euros – e provavelmente até bem acima desse valor se considerarmos a unicidade da proposta. Não é o projector certo para quem quer cinema doméstico de referência com 4K e máxima luminosidade: para esse perfil há opções mais focadas e mais eficientes nessa tarefa específica.
É o projector certo para quem quer um dispositivo extraordinariamente versátil que projecta grande onde quer que seja, integra streaming nativo de qualidade, soa bem, tem um design que não envergonha nenhuma divisão, e abre uma janela para uma forma de interagir com conteúdo digital que não existia antes.
A base táctil precisa de maturação e vai recebê-la em actualizações e gerações futuras. Mas a ideia é suficientemente poderosa e a execução actual suficientemente convincente para justificar a compra.
Preço Samsung The Premiere 5
1.499,99 €

A ANÁLISE
The Premiere 5
É o projector certo para quem quer um dispositivo extraordinariamente versátil que projecta grande onde quer que seja, integra streaming nativo de qualidade, soa bem, tem um design que não envergonha nenhuma divisão, e abre uma janela para uma forma de interagir com conteúdo digital que não existia antes.
PRÓS
- Qualidade, construção, originalidade e novo conceito, excelente som
CONTRAS
- Não é um projector 4K para cinéfilos.






