A MED-EL acaba de marcar um momento histórico na medicina portuguesa ao introduzir pela primeira vez no país uma cirurgia de implante coclear assistida por braço robótico. O procedimento foi realizado em Lisboa através das novas tecnologias OTOARM e OTODRIVE, sistemas desenvolvidos para aumentar drasticamente a precisão cirúrgica em operações ao ouvido interno.
As primeiras intervenções tiveram lugar no Hospital Dona Estefânia e no Hospital de São José, sob coordenação da equipa liderada por Herédio Sousa, director do Serviço de Otorrinolaringologia da Unidade Local de Saúde de São José. Ao todo foram realizadas quatro cirurgias pioneiras utilizando esta tecnologia de elevada precisão.
E embora a ideia de “braço robótico” ainda faça muita gente imaginar um cenário algures entre ficção científica e laboratório futurista, a realidade aqui é bastante mais séria – e potencialmente transformadora para milhares de doentes com perda auditiva severa.

OTOARM e OTODRIVE ajudam onde a mão humana encontra limites
A colocação de implantes cocleares exige um nível de precisão quase microscópico. Durante a inserção do eléctrodo na cóclea, qualquer microvariação de pressão ou movimento pode afectar estruturas extremamente delicadas do ouvido interno.
É precisamente aqui que entram o OTOARM e o OTODRIVE. Estes sistemas permitem controlar a inserção do implante com velocidades mínimas de apenas 0,1 milímetros por segundo, mantendo uma pressão constante e eliminando tremores involuntários.
Traduzindo para linguagem menos clínica: o sistema consegue efectuar movimentos mais suaves e estáveis do que aquilo que o corpo humano consegue sustentar naturalmente durante vários minutos consecutivos. E isso faz toda a diferença quando estamos a falar de estruturas internas tão sensíveis como a cóclea.
Segundo Julio Rodrigo Dacosta, director-geral da MED-EL para Espanha e Portugal, um dos grandes desafios passa precisamente pelas limitações físicas naturais dos próprios cirurgiões, incluindo microvibrações causadas pelo batimento cardíaco.
A cirurgia robótica não substitui médicos – ajuda-os
Importa esclarecer algo importante: esta tecnologia não substitui o cirurgião nem transforma a operação num processo automático. Pelo contrário.
O sistema funciona como ferramenta de assistência de ultra precisão, ajudando os médicos a executar movimentos mais controlados e estáveis, mantendo sempre o controlo clínico total do procedimento.
Num tempo em que demasiada gente associa inteligência artificial e robotização à substituição humana, este caso mostra precisamente o contrário. A tecnologia funciona aqui como extensão da capacidade médica, não como concorrência.
E no caso da cirurgia otológica, isso pode traduzir-se em menos trauma cirúrgico, maior preservação das estruturas internas do ouvido e melhores resultados auditivos para os doentes.
MED-EL quer preservar audição residual dos doentes
Uma das grandes vantagens destas novas abordagens está na possibilidade de preservar parcialmente a audição residual de alguns pacientes.
Em muitos casos, os doentes ainda conseguem ouvir determinadas frequências graves, mas já não obtêm discriminação suficiente através de aparelhos auditivos convencionais. Com inserções mais suaves e controladas, aumenta a probabilidade de preservar essas estruturas auditivas existentes.
Isto permite combinar estimulação eléctrica do implante com audição acústica natural residual, criando uma experiência auditiva potencialmente mais rica e natural.
Na prática, estamos a falar de um avanço importante para pessoas cuja qualidade de vida depende directamente da capacidade de comunicação, percepção sonora e integração social.

OTOARM aposta em estabilidade e ergonomia
O OTOARM foi concebido como sistema robótico de estabilização cirúrgica, oferecendo múltiplos graus de liberdade e controlo extremamente preciso dos instrumentos. Entre as suas características estão:
- Eliminação do tremor manual
- Ajuste ergonómico com uma só mão
- Estrutura compacta
- Alimentação via USB-C
- Integração simples no bloco operatório
- Campo visual cirúrgico desimpedido
O design compacto permite integrar facilmente o equipamento sem alterar significativamente o fluxo normal das cirurgias, algo essencial em ambientes hospitalares onde cada minuto operativo conta.
OTODRIVE leva movimentos milimétricos à cirurgia auditiva
Já o OTODRIVE foca-se sobretudo no controlo linear extremamente preciso do movimento cirúrgico.
O sistema permite deslocações suaves para a frente e para trás, com controlo contínuo e uniforme, sendo operado através de pedal mãos-livres para que o cirurgião mantenha atenção total ao campo operatório.
Além disso, a integração modular e o carregamento USB-C mostram como até o equipamento médico de alta especialização começa lentamente a adoptar abordagens mais práticas, compactas e flexíveis.
A medicina de precisão está a acelerar
Nos últimos anos, a robotização médica deixou de ser apenas uma curiosidade tecnológica reservada a grandes centros internacionais. Hoje começa lentamente a chegar a áreas cada vez mais específicas da medicina, incluindo procedimentos altamente delicados como os da cirurgia otológica.
A entrada destas tecnologias em Portugal demonstra também uma evolução importante do sistema médico nacional na adopção de ferramentas avançadas de precisão cirúrgica.
E embora o termo “robótico” continue a impressionar, talvez o mais relevante seja isto: quanto menos invasivo, mais preciso e mais seguro for um procedimento, maiores são as hipóteses de melhorar verdadeiramente a vida do doente.




