Com o quinta animação da saga Toy Story, Woody, Buzz Lightyear e companhia regressam aos cinemas portugueses e, desta vez, o grande antagonista não é um vilão clássico nem um brinquedo esquecido. Em Toy Story 5, estreado hoje, 18 de Junho, o verdadeiro adversário é um simples tablet capaz de captar toda a atenção da pequena Bonnie. Parece um argumento divertido, mas acaba por funcionar como um espelho bastante fiel da realidade que muitas famílias vivem diariamente.
A eterna disputa entre o brinquedo físico e o mundo digital já não acontece apenas na sala de estar. Está presente nas escolas, nos quartos das crianças e até nas conversas entre pais que tentam perceber quanto tempo de ecrã é demasiado tempo de ecrã.
Toy Story 5 faz uma pergunta que todos os pais conhecem
No novo filme da Pixar, Jessie assume a liderança dos brinquedos tradicionais numa tentativa de recuperar o interesse da criança perante o tablet Lilypad. A metáfora é evidente: será que a tecnologia está a substituir a imaginação?
A resposta parece ser mais complexa do que um simples “sim” ou “não”.
Os dados mais recentes mostram que os dispositivos digitais deixaram de servir apenas para ver vídeos ou jogar. Cada vez mais crianças utilizam aplicações educativas, plataformas de aprendizagem e até ferramentas de inteligência artificial para explorar novos conhecimentos.
Em vez de destruir a criatividade, a tecnologia pode ampliá-la quando utilizada de forma equilibrada e acompanhada.
As crianças portuguesas já vivem num mundo de inteligência artificial
A transformação é particularmente visível em Portugal.
Segundo o mais recente estudo da rede EU Kids Online, cerca de 85% das crianças e jovens portugueses entre os 9 e os 17 anos já utilizam ferramentas de inteligência artificial generativa, um valor superior à média europeia.
Quase metade recorre a estas plataformas para resumir textos, estudar ou preparar trabalhos escolares. Um em cada quatro jovens afirma igualmente utilizar estas tecnologias como apoio pessoal ou emocional, demonstrando que os assistentes digitais estão a ganhar um papel muito mais amplo no quotidiano.
Há poucos anos isto pareceria ficção científica. Hoje é apenas mais uma terça-feira.
Menos entretenimento passivo, mais curiosidade
Outra tendência interessante prende-se com a forma como os mais novos pesquisam informação.
As pesquisas relacionadas com plataformas de vídeo diminuíram significativamente, enquanto temas ligados à aprendizagem, à programação e à educação passaram a ocupar posições de destaque nas pesquisas efectuadas na Internet.
Serviços como plataformas escolares, aplicações para aprender línguas ou ferramentas de programação mostram que muitos jovens utilizam a tecnologia para criar e aprender, e não apenas para consumir conteúdos.
É uma mudança silenciosa, mas que poderá ter impacto durante muitos anos.
A tecnologia não é a vilã da história
Segundo Fabio Assolini, Investigador Principal de Segurança da Kaspersky, o enredo de Toy Story 5 representa uma excelente metáfora para aquilo que acontece actualmente.
Os brinquedos continuam a existir, mas muitos deles passaram a ser aplicações, videojogos, assistentes inteligentes ou plataformas educativas. A questão deixa de ser combater esta evolução e passa antes por ensinar as crianças a utilizá-la de forma segura e consciente.
A educação digital torna-se assim tão importante como aprender a atravessar uma estrada ou a andar de bicicleta.
Como transformar os ecrãs em aliados
Em vez de proibir indiscriminadamente a tecnologia, faz mais sentido criar hábitos saudáveis e acompanhar aquilo que as crianças fazem online.
Algumas recomendações continuam a fazer todo o sentido:
- Conversar regularmente sobre os riscos e oportunidades da Internet.
- Conhecer os jogos, aplicações e plataformas utilizadas pelos mais novos.
- Dar o exemplo, equilibrando o tempo passado diante dos ecrãs com actividades no mundo real.
- Explicar como identificar burlas, ligações suspeitas e ofertas demasiado boas para serem verdade.
- Incentivar aplicações educativas e ferramentas que estimulem a criatividade e a aprendizagem.
Tal como Woody e Buzz precisaram de se adaptar a um mundo novo, também os adultos precisam de aceitar que a infância de hoje é inevitavelmente diferente daquela que conheceram.
Em suma
Toy Story 5 é muito mais do que uma viagem nostálgica ao universo da Pixar. É uma reflexão surpreendentemente actual sobre a convivência entre brinquedos tradicionais, inteligência artificial e dispositivos digitais. Para pais, educadores e curiosos da cultura tecnológica, o filme lembra que o verdadeiro desafio não é afastar as crianças da tecnologia, mas ajudá-las a crescer com ela de forma inteligente, segura e equilibrada. Afinal, Woody pode continuar a ter um lugar especial na prateleira, mesmo que ao lado esteja um tablet ligado ao Wi-Fi.






