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A despedida do Sierra: nem os telemóveis puderam entrar

João Gata por João Gata
Julho 2, 2026
Discos rígidos do supercomputador Sierra a serem destruídos por máquina trituradora industrial, parte do processo de desmantelamento por razões de segurança nuclear

Sete anos a simular o arsenal nuclear dos EUA. Sete meses a ser desmantelada peça a peça. Esta foi a "morte" de Sierra.

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Durante sete anos, o Sierra ajudou os Estados Unidos a manterem o seu arsenal nuclear sem recorrer a testes nucleares reais. Quando chegou a hora de desligar um dos supercomputadores mais poderosos alguma vez construídos, no passado Outubro, o protocolo de segurança era tão rigoroso que nem um simples telemóvel podia entrar nas instalações. Mas um jornalista conseguiu fotografar o seu desmantelamento que obrigou ao recurso a máquinas fotográficas de película, como se o tempo tivesse recuado várias décadas.

Sierra: sete anos a simular o impensável

O Sierra entrou ao serviço do Lawrence Livermore National Laboratory, na Califórnia, em 2018, fornecendo capacidade de computação essencial para que os cientistas responsáveis pelo arsenal nuclear norte-americano pudessem avaliar o desempenho das armas através de simulações em vez de testes subterrâneos reais.

Construído pela IBM, era composto por 4.474 nós, dos quais 4.284 eram dedicados ao processamento. Cada um integrava 256 GB de memória RAM, dois processadores IBM POWER9 com um total de 44 núcleos e quatro placas gráficas Nvidia Tesla V100 com 16 GB de memória cada.

Para colocar estes números em perspectiva, uma GPU – ou placa gráfica – é um processador especializado em executar milhares de cálculos em simultâneo. Embora tenha sido criada para gerar gráficos, hoje é também uma das peças fundamentais da Inteligência Artificial e das grandes simulações científicas. O Sierra tinha milhares destas unidades a trabalhar em conjunto.

No seu auge ocupava 240 bastidores de computação distribuídos por cerca de 650 metros quadrados, aproximadamente a área de um pequeno pavilhão desportivo inteiramente dedicado ao processamento de dados.

Em termos de desempenho, chegou a ser o segundo supercomputador mais rápido do mundo segundo o ranking TOP500, alcançando 94,64 petaflops. Traduzido para português corrente, significa que conseguia efectuar cerca de 95 quatriliões de cálculos por segundo. É um número tão gigantesco que deixa rapidamente de fazer sentido para o cérebro humano. Ainda assim, apenas sete anos depois, já não era suficiente.

Sierra supercomputer 1

Porque foi desligada uma máquina que ainda funcionava?

A pergunta parece inevitável. Se o Sierra continuava operacional, porque motivo foi retirado de serviço?

A resposta não está na idade da máquina, mas sim na sua manutenção.

A IBM e a Nvidia deixaram de fabricar os componentes específicos utilizados pelo Sierra, tornando cada reparação mais difícil. Ao mesmo tempo, a versão do Red Hat Enterprise Linux utilizada pelo sistema deixou de receber suporte técnico. Para uma máquina responsável por processar informação altamente sensível, continuar a operar sem actualizações de segurança simplesmente deixou de ser uma opção aceitável.

Mas houve outro motivo ainda mais decisivo: a chegada do seu sucessor.

El Capitan mudou as regras do jogo

O Lawrence Livermore National Laboratory instalou entretanto o El Capitan, actualmente um dos supercomputadores mais rápidos do planeta.

Apesar de consumir até 36 megawatts de potência – mais do triplo dos 11 megawatts do Sierra -, consegue atingir 1,809 exaflops, o equivalente a cerca de dezanove vezes mais desempenho.

Como resumiu Rob Neely, director associado de simulação e computação do laboratório, o Sierra “já não justificava o esforço”. Com uma máquina quase vinte vezes mais rápida instalada ao lado, manter o antigo sistema em funcionamento deixou simplesmente de fazer sentido, tanto do ponto de vista económico como estratégico.

Uma despedida digna de um filme de espionagem

É aqui que a história deixa de parecer um artigo sobre informática e passa a lembrar um filme de espionagem.

O processo de desligamento foi cuidadosamente planeado. Primeiro, os investigadores receberam instruções para guardar todos os seus trabalhos. Depois foi emitida uma espécie de ordem de “Não Ressuscitar”, o que significava que deixariam de existir reparações ou substituições de componentes.

O desligamento físico começou pelos nós de computação e pelos comutadores de rede, permanecendo apenas os sistemas de gestão activos até às últimas fases da operação.

Mas a parte mais curiosa surgiu quando chegou o momento de documentar o desmantelamento.

Como o Sierra processava informação classificada relacionada com o arsenal nuclear norte-americano, qualquer equipamento equipado com Wi-Fi ou Bluetooth estava proibido nas instalações. Nem sequer um fotógrafo podia entrar com um telemóvel no bolso.

A solução foi recorrer a máquinas fotográficas de película e equipamento completamente desligado de qualquer rede sem fios. Segundo os relatos, o fotógrafo escolhido – um antigo fotógrafo de guerra – ficou tão impressionado com a dimensão e o rigor da operação que regressou mais tarde para continuar a documentar o processo.

Entre as imagens captadas encontram-se os discos rígidos do Sierra a serem fisicamente destruídos, a única forma de garantir que nenhuma informação poderia algum dia ser recuperada.

O que sobra de um supercomputador?

Desmantelar um computador comum já exige cuidados ambientais. Fazer o mesmo com uma máquina que durante anos processou informação sobre o arsenal nuclear de uma superpotência é uma tarefa incomparavelmente mais complexa.

Cada dispositivo de armazenamento teve de ser destruído sob supervisão, cada componente inspeccionado e cada peça encaminhada segundo protocolos rigorosos. Nada podia simplesmente seguir para reciclagem sem antes garantir que não continha qualquer vestígio de informação classificada.

E há uma ironia difícil de ignorar: um dos computadores mais avançados alguma vez construídos terminou a sua missão rodeado de tecnologia do século passado. Sem smartphones, sem ligações sem fios, apenas máquinas fotográficas de película, trituradoras de discos e um protocolo de segurança quase obsessivo para garantir que nenhum dado escapava para o exterior.

O Sierra desapareceu, mas deixou para a história uma das despedidas mais invulgares da computação moderna.

Tags: desmantelamentoEl CapitanhardwareIBMLawrence Livermoresegurança nuclearSierrasupercomputador
João Gata

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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