Como músico que também fui, editado e com carreira e tudo (é verdade), percebo e sinto o drama que a indústria musical, principalmente os seus intérpretes directos (músicos, produtores, engenheiros, técnicos, etc), têm sofrido nesta última década. A falência deste sistema, devido a políticas ridículas e continuadas pelos editores, armazenistas, distribuidores e retalhistas, colocaram em modo de sobrevivência (ou desistência) a maior parte dos autores e músicos deste planeta. Perguntam porque aponto o dedo tão veementemente e respondo: os CDs saem da fábrica com um custo de 1 euro e são vendidos ao consumidor por 20. O autor das músicas desse CD recebe, com sorte, 10% de cada venda que ainda tem de dividir com os outros autores. São 10% do preço de armazém, não do de venda, portanto, menos 50%. É fazer as contas para perceber como a indústria enriqueceu.
Com preços impróprios para um mundo tecnológico e cada vez mais imediatista, seria lógico que os consumidores encontrassem formas de conseguirem ouvir os seus artistas preferidos de graça, ou seja, utilizando as redes P2P e outras para ‘sacarem’ e fazerem o download dos temas. Esta solução, que deveria ter mostrado à cadeia industrial que mencionei atrás que era urgente uma nova política de preços, não foi levada a sério. E os resultados, passados 10 anos, estão aí. Nem só os músicos faliram, mas também quase toda a indústria colapsou. Existem novos players (as marcas de hardware, quem diria, como a Apple e a Sony, ou retalhistas globais como a Amazon) que tomaram o lugar dos antigos gigantes. Mas os músicos (os mesmos autores que são o coração e a arte, o sentimento e a paixão, a originalidade e o esforço) continuam na mesma. Desempregados, subvalorizados, esquecidos, menosprezados.
Se por um lado o digital trouxe novas possibilidades (para quem sabe um pouco ou muito destes meandros) de conseguir dar ao mundo novos autores e músicas, sabemos que só alguns conseguiram tal sucesso. A outrora arrogante indústria conseguiu, num último esforço, apoderar-se das pataformas que eram democráticas. É gente poderosa, essa, e, não tarda, tudo estará na mesma. Ou talvez não…
Todo este apontamento serve para dar conta de uma notícia que li no The Economist e que trata com novos olhos e profundidade este complicado tema. Diz o repórter que começa a surgir uma luz ao fundo do túnel para os massacrados músicos e autores. Ao que parece (estamos a falar do estrangeiro, esse grande país), o valor/hora aumentou de 16 para 22 dólares e há um crescente número de pedidos para concertos ao vivo, actuações aqui e ali, com música original e com instrumentos ao vivo. O emprego aumenta também para estes profissionais e existem áreas específicas que alimentam este crescimento. São elas as startups, as produtoras de jogos de vídeo e terapia musical. Novos mercados que estão a oferecer oportunidades e um estudo reflecte esta verdade: cerca de 5000 músicos responderam a um inquérito e, em média, afirmaram que ganham cerca de 55.500 dólares anuais, bem mais que a média anual nos States que é de 43.000. Mas atenção… para conseguir este resultado, têm três empregos em áreas como a composição, gravações e concertos.
As universidades já perceberam esta nova realidade e apressam-se a responder às novas necessidades (lá está, continuo a falar do estrangeiro, esse país lá fora). Por exemplo, Peter Spellman, director do Career Development Center da Berklee College of Music, declarou à Forbes que “está muito confiante neste novo mercado que exige novos conhecimentos como noções de marketing e capacidade negocial combinadas com, afinal a mais importante, criação musical que também requer tecnicismos muito próprios e elaborados”.
Para além da Berklee, outras universidades estão já a trabalhar neste novo nicho, como a University of California de Los Angeles, a Belmont University de Nashville, a University of Southern California e a Syracuse University em New York, para citar alguns exemplos. E quem são os novos mestres e professores? Músicos, Engenheiros de som, Managers, Agentes e até Executivos que ensinam agora as artes e manhas do marketing, promoção, social media, tecnologia e empreendorismo.
Cada universidade tem o seu programa, uns apostam na formação técnica, outras em áreas como Apps, research, royalties, contratos com marcas locais ou globais, produção de espectáculos, inserção nos media, publishing, e tantas do antigamente como dos novos tempos. A produção de vídeo é, tal como nos anos 80, uma das áreas com maior crescimento. Mas se no tempo dos Novos Românticos, Futuristas e Vanguardas o destino era a MTV, hoje é o Youtube.
Como diz Gigi Johnson do instituto californiano Maremel (consultores de media), “Alguns dos meus alunos têm 50.000 fãs no Youtube mas não sabem o que fazer com eles. Portanto, há que aprender a “psicografia” desses fãs, onde e com quem andam, o que comem, do que gostam e demais informação. Tudo isso é vital para conseguir convencer os parceiros e os patrocinadores para gastarem o dinheiro em campanhas bem definidas e para targets específicos”.
Drew Taggart, responsável pelo programa Bandier na Syracuse University, sabe bem do que fala: “A indústria musical é complexa e muito estranha. Os autores continuam convencidos que, se conseguirem fazer a melhor música do mundo, isso chega para que sejam ouvidos. Nada é tão falso. Eles precisam de uma audiência que os leve até esse patamar. E esse é um trabalho muito complexo e duro!”
Os novos dados foram lançados e a tal luz começa a brilhar. O problema é que para lá chegar, os músicos que já eram super homens terão de aprender a ser extra homens. Estarão dispostos a isso?







