Os EUA preparam-se para iniciar uma nova guerra, desta feita contra o velho mundo (leia-se Europa) e o Brasil.
A questão é simples: os operadores norte-americanos exigem uma internet a duas velocidades. Quer mais velocidade que o vizinho? Pague por isso! Quer mais largura de banda para a comunicação da sua empresa? Pague por isso! Grosso modo, quem quer ser (ou precisa) mais rápido que o vizinho, terá de pagar muito bem por isso.
Esta possível nova realidade levanta um problema bicudo, pois até agora, a grande vantagem da internet era exactamente a sua neutralidade. Este conceito, apoiado por Obama e prometido às Googles e Apples deste mundo, está agora em risco devido à proposta da Verizon que pressiona ferozmente a FCC (comissão federal de comunicações) para que esta altere a regulação. E se isso for mesmo em frente, cai por terra toda a ideia base da própria internet, que se pretende livre e igual para todos (mesmo que a paguemos aos operadores). Será esta uma falsa questão, pois ao fim e ao cabo, e em Portugal por exemplo, sempre pagámos por mais velocidade e mais tráfego? O que pode acontecer é que os preços aumentem tão drasticamente que, numa sociedade cada vez mais conectada e rápida, possam colocar em risco a saúde das próprias PMEs e Start Ups. E ao existir um preço diferente para diversos tipos de download, os próprios conteúdos sofrerão com isso, logo agora numa altura em que o futuro da televisão começa a utilizar a própria internet para se reinventar, através de streaming.
A Verizon sabe que o tribunal supremo pode ter uma decisão judicial a seu favor, pois a operadora “é livre de criar as suas próprias regras de acesso e serviços”. Mas estão a ser fortemente atacados pelos defensores dos direitos, garantias e liberdades do consumidor. E como fica Obama no meio desta situação, visto que é um defensor da actual regulação?
Felizmente, a velha Europa caminha no sentido inverso, querendo reafirmar o seu potencial e dinamismo, ao mesmo tempo que prepara todo um pacote de serviços inovadores como, para citar um exemplo, a telemedicina. O Brasil, curiosamente, assinou na passada semana esta agora famosa “neutralidade”, colocando-se do lado europeu.
O grande perigo norte-americano, para além da provável asfixia às empresas mais pequenas por não conseguirem pagar as taxas elevadissimas que se adivinham, é o desaparecimento do eco-sistema vigente que consolidou dezenas de Start Ups que são agora líderes em vários sectores.
Esta guerra contra a neutralidade dura há mais de uma década, reforçada recentemente pelo acordo firmado entre os gigantes COMCAST e Netflix. A FCC poderá apontar esta nova realidade televisiva – o visionamento de episódios ou filmes em tempo real – como uma razão válida para permitir a nova realidade a duas velocidades, ou seja, uma espécie de autoestrada bem paga por quem nela viaja, ao lado de uma estrada nacional vagarosa e cheia de obstáculos.
Estaremos a presenciar o fim de uma “utopia” para, mais uma vez, a vermos transformada num imenso monopólio?






