Esta análise aos Sony WF-1000X está pensada e escrita em moldes muito diferentes dos que habitualmente publico. Estão preparados para uma viagem?
Decidi contar uma história que sirva a Análise aos auriculares Sony WF-1000X. E começa assim:
Façam como eu. Apanhem o metro. Escolham um banco o mais próximo de uma das portas.
Olhem as pessoas. Os seus olhos, a cor dos dentes, o penteado, a armação dos óculos.
Só depois os pertences, a roupa, os acessórios.
Agora concentrem-se e reparem… agarrado com as duas mãos ao varão principal, é alto, esguio, deve andar na casa dos 20 anos.
Moreno, dentes brancos, não é fumador. Cabelo preto, comprido e ondulado.
Pela forma como abraça o varão e nele encosta o peito mostra que é pouco seguro de si.
Deve conhecer problemas no liceu ou então no primeiro ano de faculdade. As miúdas? Talvez. Não deve ter sorte na conquista.
Não é popular. Tem cara de Manuel. Manuel, não. Gabriel, tem mais cara de Gabriel.
Faltam meia dúzia de paragens para o meu destino e submeto-me ao poder do smartphone
Ligo a App Headphones Connect após uma breve passagem pelos e-mails e escolho o modo de cancelamento de ruído adaptativo.
O que vou ouvir? Decido pela escolha aleatória da pasta “em trânsito pelas catacumbas de Lisboa”.
Olhemos para a porta mais afastada, por sinal, do lado que não abre.
Encostado nas costas de um dos bancos está, pelas brancas no cabelo e pequeno papo, um trintão.
Aros modernos e flexíveis. Barba por fazer. Olha com desinteresse as cores, objectos e linhas horizontais que a velocidade provoca.
De vez em quando estuda atentamente o mapa. Está um pouco perdido, nota-se que não costuma utilizar os transportes públicos.
Estou na dúvida se é um publicitário brasileiro ou um free-lancer lisboeta. Assim sendo vou tratá-lo por Marco. Dá para os dois lados do mundo.
A seu lado e encostado à porta viaja um jovem bancário
Cabelo mais comprido que a norma exige, mas que se desculpa pela juventude dos vinte e poucos.
Barba escanhoada, passando a vista por um qualquer suplemento económico.
Mal desvia o olhar da informação que julga vital para a sua vida, o que denota uma enorme dependência daquilo que os outros pensam dele.
Zé Manel, assim mesmo, pelo diminutivo e conjugação.
Encostada às costas do outro banco está uma rapariga baixa e mais gorda do que hoje é aceitável socialmente.
Cabelo curto com madeixas louras e laranja.
Uma mescla de tons que acompanham a palete colorida e bem disposta com que brindou a face.
Por baixo das enormes e artificiais pestanas, os olhos são pequenos, tristonhos e olham o nada.
Corpo cansado e embalado, por vezes sacudido, pelas curvas dos túneis.
Pela hora deve estar de regresso a casa no primeiro de diversos transportes.
Deve ser empregada numa loja de centro comercial. Maria, Ana Maria como o Bond.
Percebo que reparou na minúscula luz azul do bluetooth a piscar dentro dos meus ouvidos, uma em cada um.
É educadamente curiosa ao tenta perceber o que é sem dar nas vistas, mas mal a olho, desvia o olhar o mais rapidamente possível.
Não evito um sorriso e ela também não.
Mesmo à minha frente sentam-se duas jovens modernas e rebeldes quanto baste
Uma é francamente bonita. Tem qualquer coisa de africana. A tez… não, é clara demais.
Acima de tudo o cabelo muito negro, meio em rasta, meio em trança, que condizem com os magníficos olhos.
Uma boca rasgada com lábios generosos mas que não chegam a ser africanos.
Vão, ou estão, a fazer as delícias de um qualquer jovem.
A simpatia natural tem lógica se lhe chamarmos Inês.
A sua amiga Marta tenta ser-lhe igual mas dificilmente o conseguirá.
Já apresenta algumas olheiras que denotam muito tempo agarrada ao verbo.
O cabelo, castanho claro, não tem o volume nem a beleza do da Inês, está comprido e enrolado desordenadamente, o que também não a favorece.
Ambas devem estudar comunicação social.
Inês deverá ser repórter de moda.
Marta irá escrever grandes peças sobre os problemas que afectam a comunidade.
Serão amigas por muitos mais anos.
Há quem entre, quem saia e os que continuam
Um dos que ficou escolheu o centro do corredor para prosseguir viagem.
São quase dois metros de musculação levada a sério.
Cabelo puxado para trás num misto de gel e óleo natural, pente 1 nos lados com uma espiral rapada numa espécie de desenho tribal.
Masca pastilha.
Usa auscultadores dourados e prateados, enormes sem isso ter a ver directamente com a potência sonora e de assinatura norte-americana.
Absorto, lá vai abanando ligeiramente a cabeça ao compasso quaternário que também lhe move um dos pés.
Tem um nome gravado num cachucho que lhe apanha três dos cinco dedos: Guido.
Fico a pensar se ele percebe que também estou a ouvir música e que não faço um alarde tão grande.
Algumas das pessoas que lhe estão próximas desviam-se depois de uma careta desagradável, mas Guido está-se pouco nas tintas.
Uma das vantagens dos meus micro auriculares é exactamente esta, a de não emitir decibéis para fora com aquele som agudo e irritante que nos entra pelo juízo dentro.
De repente, uma paragem mais brusca provoca a perda de equilíbrio de quase toda a gente
Até eu, que continuo sentado, tive de atirar um pé mais para a frente para servir de travão ao embalo.
Alguns viajantes desabafam surdamente qualquer coisa enquanto outros, já batidos, controlam o seu corpo de uma forma mecânica, quase automática.
O som dos meus auriculares atenua-se automaticamente para deixar ouvir o recado técnico exclamado pelos altifalantes: vamos ficar parados uns minutos devido a qualquer problema da linha.
A música recupera o seu fulgor enquanto reparo que Guido se aproxima de Inês e Marta, mas não lhe adivinho qualquer sorte.
Acertei. A carruagem lá arrancou.
Chegámos a uma das mais importantes estações
Uma daquelas em que as carruagens vazam quase até ao fim mas que se enchem novamente a uma velocidade e método pouco comuns na mentalidade lusitana.
No meio da confusão percebo dois jovens “rebeldes”.
Há que ter mais cuidado com os pertences.
Um dos grandes trunfos dos Sony WF-1000X é o tamanho diminuto que nos permite encaixá-los perfeitamente dentro do ouvido sem sacrificar a estupenda qualidade de som e passo despercebido.
O par é batido e balanceia-se de varão em varão com uma desenvoltura digna de um atleta de alta competição.
Nem repararam num polícia que entrou atrás deles pela porta mais longínqua.
É um jovem e atlético agente cuja pequena placa no peito descreve o seu número e o nome Mendes.
Os putos continuam a fazer razias a quem vai de pé.
Os ligeiros encontrões colocaram quase todos em alerta e até Guido já nem presta atenção ao ritmo que estava a ouvir.
E num rompante…
Mesmo antes das portas se abrirem antes da paragem, um dos miúdos faz um movimento de apanha com a mão
O embalo é rápido e arranca a correia da mala de uma senhora e, pelo caminho, o cabo dos auscultadores de Guido que os fazem cair e estatelar-se no chão onde são pontapeados para longe pela bota do agente Mendes que disparou na perseguição dos jovens.
Seguiu-se uma grande algazarra: a senhora gritava por socorro, Guido pelos seus defuntos auscultadores e Mendes para o walkie talkie clamando por reforços à saída da estação.
Ouvi tudo isto graças ao som adaptativo dos Sony ao ambiente que tem esta crueldade, a chamada à dura realidade quando menos a esperamos.
A próxima estação é a minha e aproveito para retirar dos ouvidos os WF-1000X.
Enquanto os coloco na pequena caixa de transporte que também os recarrega, olho para Ana Maria que continua a tentar perceber o que raio é isto que arrumei.
Pisco-lhe o olho ao sair pela porta e percebo-lhe um sorriso tímido e corado.
Andar de Metro tem destas coisas, histórias que passam a memórias embaladas pela banda sonora que é, afinal, a nossa vida











