Análise: Sega MegaDrive Classics, o resumo de uma época dourada que mudou para sempre a face digital do mundo moderno… e dos seus utilizadores
Esta análise ao Sega MegaDrive Classics levou-me de volta aos anos 90, época de ouro para os videojogos, onde os argumentos não referiam jargão como latência, definições gráficas em 4K HDR nem lootboxes.
É em homenagem a esta época que nos chega hoje o Sega MegaDrive Classics que é exatamente aquilo que o nome indica: um agrupamento de clássicos da consola de 16 bits da Sega.
O leitor mais atento dirá certamente – mas esta coleção já não saiu noutras consolas? Sim, correto, a Sega já nos presenteou com outros compêndios da sua vasta biblioteca.
Então, valerá acrescentar Sega MegaDrive Classics à colecção?
É o que vamos descobrir.

Regresso ao Passado
A verdade é que foi criado aqui um trabalho muito interessante na recriação do nosso quarto de adolescente (no meu caso, criança).
Está lá tudo – a televisão CRT, os posters com o ouriço Sonic de olhar desafiante e a estante repleta de caixas e caixas de títulos.
O que é uma chatice, porque infelizmente Sega MegaDrive Classics não permite ver as capas das caixas.
E é pena ter uma colecção de jogos desta era sem o ritual de poder apreciar os desenhos feitos à mão, acompanhados da arte no cartucho e do manual de instruções.
Bom, falávamos do nosso quarto, não é? As opções estão divididas entre Extras, Online Multiplayer, Opções da TV, Emulação, Controlos, Hub, Áudio e os jogos.
E acreditem que há muito por calibrar, principalmente na opção da Emulação.
Desde aplicar filtros de imagem que adicionam píxeis até a jogar o modo espelho – como se jogássemos o reflexo do jogo -, há aqui muito material para customizar, até mais que o costume.
Jogar online os clássicos que reuniam verdadeiras turmas num sofá promete e bastante.
Fizemos algumas sessões, aleatórias e filtradas. Nas aleatórias, normalmente calhava ou Streets of Rage ou Golden Axe.
E deixem que vos diga: talvez seja pura nostalgia, mas jogar estes beat-em-up sem o colega no sofá ao lado não tem a mesma graça.
Já jogos como o Dr Robotnik’s Mean Bean Machine… digamos que a maior parte do meu tempo online dedicou-se a gritar, furiosamente, contra quem se atrevia a derrotar-me neste viciante clone de Puyo Puyo.
A nível de lag, o mesmo é inexistente, demora apenas no matchmaking. O que provavelmente se deverá a uma base de utilizadores diminuta.

Jogar como dantes?
Meus amigos, já joguei diversas colectâneas. De jogos da MegaDrive também, mas com tantas opções que fielmente recriem a experiência original?
É que, para além da customização da qualidade da imagem, conseguimos também em Sega MegaDrive Classics colocar o ecrã curvo.
Não para emular uma qualquer 4K HDR, mas sim para simular o efeito das televisões antigas, dos cabos Scart.
Ok, ok, é apenas um efeito estético. Porém, num título onde a grande aposta é atrair quem viveu esta época, é um ponto muito interessante e positivo. Como os extras, aliás. Estes estão divididos entre troféus, desafios e um scoreboard.
Os troféus servem o mesmo propósito dos troféus da PS4, na verdade.
Temos entre conseguir 500 argolas num qualquer Sonic, até vencer 25 inimigos numa só sessão em Golden Axe II atirando-os para fora do cenário.
Já os desafios colocam-vos num momento do jogo onde precisam de completar determinados requisitos.
Este sim, promete desafiar aqueles que, há 20 anos, reinavam o recreio com as suas perícias na consola da Sega.
Lembram-se dos gabarolas que diziam que passavam o Revenge of Shinobi sem perder vidas? É muito nessa base.
Então e os jogos?
Estranho ainda não termos falado do ponto mais importante do jogo, não é?
Mas deixei propositadamente para o fim a colecção de jogos por uma razão muito simples: não estou completamente confiante que esta seja a colectânia definitiva.
Primeiro, falemos dos pontos positivos:
Temos um grupo muito distinto, bem dividido entre os clássicos absolutos da Sega MegaDrive (Golden Axe, Sonic, Phantasy Star II, entre outros) e autênticas pérolas (Gunstar Heroes, Beyond Oasis – ou The Story of Thor, como era conhecido em Portugal).
Só que depois temos ausências inexplicáveis, como Sonic III & Knuckles e presenças muito questionáveis, como Columms III ou o inenarrável Virtua Fighter II.
Nenhuma colecção é perfeita e, sem poder utilizar jogos third-party, ficam de fora grandes títulos como Castlevania: Bloodlines ou Teenage Mutant Ninja Turtles: The Hyperstone Heist.
Contudo, lá está: estamos a falar duma lista de 53 jogos disponíveis, com multiplayer online.
Isto não passa de picuinhice pura. A mesma picuinhice que invadirá, provavelmente, aqueles que ou não tomaram contacto com os jogos desta altura ou então estão destreinados, como eu.
O que é que eu quero dizer com isto? Tomemos em conta Dynamite Headdy, um daqueles jogos que em condições normais nunca sairia do Japão mas que, felizmente, viu a luz do dia.
É um jogo de plataformas cuja personagem principal é uma marioneta que consegue customizar a sua cabeça com várias armas e habilidades, num mundo que simula uma peça de marionetas.

Personagens inesquecíveis
Este jogo tem um gato assassino. E um bebé voador que se vai transformando nas várias fases da vida humana.
Bom, não vou fazer spoilers – mas aconselho vivamente a experimentarem este jogo.
Onde é que ia? Ah – jogos difíceis. Que é o que Dynamite Headdy é: um jogo extremamente bem desenhado, ou não fosse da Treasure.
O primeiro nível não nos leva de mão dada, mas ajuda-nos a compreender as várias técnicas e possibilidade que Headdy nos oferece.
A partir dali, é o salve-se quem puder. Que é como quem diz, utilizarmos tudo o que aprendemos para nos safarmos com as poucas vidas que temos no total.
O que em 2018 seria, num título normal, uma experiência repleta de tutoriais, ajudas, e vidas infinitas, hoje temos de decorar os níveis até à exaustão porque quando se morre, acaba-se o jogo.
Só para Millennials?
A pergunta que se impõe é esta: quem nunca jogou MegaDrive, deverá comprar este Sega MegaDrive Classics?
Sim, acho que sim. Se gostarem de videojogos e não se importarem de ter mais dificuldade que o costume na sua experiência, é um compêndio obrigatório do que de melhor se fez nesta indústria.
Se, como eu, cresceram nesta época, nem deveriam precisar de chegar ao fim desta análise para concluir que é compra obrigatória.
Quanto mais não seja para ensinar umas lições aos filhos que, provavelmente, nos dão goleadas no FIFA ou nos deixam a ver navios em Overwatch ou Fortnite.
Este é o argumento mais valioso deste jogo: o potencial para unir gerações de jogadores, da mesma forma que clássicos do cinema juntam gerações de cinéfilos.
Só não leva a pontuação máxima porque há aqui jogos que são apenas “palha”.
Mas não perdoo a falta do melhor jogo de sempre da MegaDrive. COMO NÃO TER O SONIC III & KNUCKLES?







