Desde que o vi nas montras de uma certa loja, e depois de um ou outro passarem por mim, fiquei com uma tremenda curiosidade em guiar o já famoso Citroën Ami. Finalmente consegui e, naturalmente, tenho uma opinião.

Análise Citroën Ami
Análise Citroën Ami

Citroën Ami, a democracia eléctrica

Antes de mais, explicar que o Citroën Ami não é um automóvel mesmo tendo quatro rodas. Não é um desportivo mesmo com duas portas. Então do que se trata? Bom, simplificadamente, é um Quadriciclo, ou seja, um veículo ligeiro que pode ser guiado sem carta de condução, o que promove a mobilidade independente a jovens a partir dos 16 anos ou pessoas que não tenham a dita licença, seja por qual motivo for.

Os quadriciclos são veículos económicos com consumos reduzidos ainda conhecidos por “papa-reformas”, devido ao (até agora) clássico tipo de utilizador. Mas o Citroën Ami vem provar que, quando o conceito é repensado pela malta que tem no pergaminho interpretações automobilísticas como os Dyane, 2CV, Boca de Sapo, GS ou XM, todo um novo mundo de forma e função tem lugar.

É disruptivo? Sem dúvida

A primeira informação visual que se tem de qualquer coisa é geralmente a impressão com que se fica para a vida. Talvez a coca-cola tenha sido das únicas a conseguir dar a volta ao texto e, para isso, até teve um slogan histórico – “primeiro estranha-se, depois entranha-se” – que assenta que nem uma luva nesta interpretação gaulesa.

A curiosidade da forma

O Citroën Ami é uma espécie de cubo com rodas. E isto porque os painéis são idênticos tirando a parte de cima. A ver: o bloco frontal é idêntico ao traseiro e os faróis só mudam de cor (branco e vermelho) enquanto os piscas mantêm-se intactos. A porta é só uma, o que implica ter de montá-la ao contrário num dos lados. Naturalmente, as rodas também são iguais…

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Super espaçoso! E não estou a brincar.

A inteligência da função

Pelo que parece, a Citroën deu carta-branca aos designers e engenheiros apenas com uma ordem: este veículo não pode superar os X euros de produção e não deve ultrapassar os Y euros na venda (claro que isto muda de país para país, como os portugueses bem sabem).

Portanto, e para poupar uns trocos, faz-se uma porta e dois painéis e uma base para receber tudo o resto. Em cima coloca-se uma cabina para a malta não apanhar chuva e vento (e uma versão descapotável seria bem-vinda).

A questão da porta é talvez a mais curiosa. Ao ser a mesma, obriga a um batente frontal no lado do condutor. A abertura faz lembrar os carros antigos e, curiosamente, facilita em muito a entrada e até a saída do interior. Já o pendura não tem este modernismo clássico e a sua porta abre normalmente. Mas também é nesse lado que encontramos, arrumada numa reentrância, a ficha 220V e o seu cabo de três longos metros (que naturalmente vai precisar de uma extensão). De salientar que a Citroën também vende o adaptador para os carregadores de rua.

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Mas há mais curiosidades. Por exemplo, os vidros só se abrem com a força da mão. Divididos em metades, a inferior sobe e trava com um click. Fechá-los não é, adianto já, uma tarefa fácil, pois é preciso ter alma e músculo.

É também através desta entrada de ar rectangular que acedemos aos dois redondos e pequenitos espelhos retrovisores que, já começam a adivinhar, são ajustados à mão. E não, não existe um retrovisor central. Olhem para trás que foi o que fiz.

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Manual, como antigamente.

Para continuar nesta toada, a mão também serve para abrir e fechar a porta puxando guitas de tecido cor de laranja. O que me ri quando procurei a forma como se abria a porta do pendura… deixo-vos este quebra-cabeças quando experimentarem ou entrarem num Ami.

Por trás do tablier encontramos um espaço longitudinal que alberga três caixas plásticas e amovíveis para arrumação da nossa tralha, como chaves, telemóvel, carteira…

Análise Citroën Ami

Atrás do volante existe um espaço para colocar um copo de cola XXL… mas na verdade está preparado para receber uma coluna de som com formato cilíndrico. E, atenção, é o nosso telemóvel e a coluna que trazemos de casa que fazem a parte do sistema de infoentretenimento. E sabem que mais? Tem lógica, mas falta uma bolsa ou esconderijo para guardar a coluna quando saímos do carro.

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Ao lado do pequeno ecrã LCD que nos oferece alguma informação visual, como a velocidade a que nos deslocamos, a percentagem de bateria restante, quilometragem e marcha escolhida, temos o painel central com… três botões: desembaciador, ventoinha, quatro piscas e, ao lado, conectividade USB.

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O desembaciador é capaz de ser a função mais necessária no inverno, pois como escrevi acima, só temos duas pequenas metades de janelas para fazer circular o ar.

A ventoinha servirá para dias de bafo, mas confesso alguma perplexidade com temperaturas de 40 graus no Verão e com tanto vidro para deixar entrar luz no habitáculo.

A ligação USB serve para carregar o telemóvel que, em princípio, será arrumado numa mola por cima deste conjunto de botões. Mas o meu modelo não a trazia, o que achei estranho. Não deveria ser um extra…

Para arrumação, e visto que o banco do pendura está fixo e colocado mais atrás, existe um espaço até generoso para colocar uma pequena mala de mão ou mochila. No lugar do porta luvas temos um cabide para um saco de compras e, ainda, atrás do banco de quem conduz há um espacito para guardar o adaptador ou coisas pequeninas mas que vão andar de um lado para o outro aos trambolhões.

Bom… acho que não me esqueci de nada.

Guiar o Citroën Ami (versão Vibe)

Pois que esta é toda uma experiência só por si.

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Para começar, duas chaves: uma abre as portas, outra dá à manivela… desculpem, “arranca” a bateria. De salientar que existe um travão de mão clássico, que pode convidar para algumas marotices, e que a caixa de velocidades, enfim, tem três botões que estão colocados no lado esquerdo do banco.

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Desta não estava à espera e, confesso, é o único erro que aponto ao Ami. Não é fácil aceder-lhes mesmo compreendendo que apenas precisamos de carregar no D para andar, no N para ponto morto (e poupar bateria nas descidas) e o R para marcha-atrás. Fiquei com a impressão de que só “engatamos” o R depois de passar pelo N, mas se calhar foi do nervoso miudinho.

Mas vamos à experiência!
Admito que o “levantei” um pouco nervoso. Nunca guiei um veículo tão pequeno e tão pouco lesto, pois os 45 km/h de velocidade máxima implicam todo um estudo prévio do trajecto que se vai fazer e em que se deve evitar as vias mais rápidas e frenéticas.

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Com luz directa não fica fácil ler informação

Em boa verdade, durante os dias de ensaio apanhei um com chuva e, confesso, nem me aventurei por aí além, apenas para ir mostrar o Ami a um casal que, quando soube que estava com um, me pediu a visita. E sabem que mais? VENDIDO! Mas enquanto fez sol, lá se via um Ami a abrir por entre a Expo.

O veículo é um must neste tom cinzento com vinis todos cool e “Vibe” e, naturalmente quer pelo tamanho, barulho e originalidade, é um chamariz. Toda a gente olha excepto a que está enfiada no smartphone a ver tiktoks. Mas quem olha, sorri. E isto, boa gente, é meio caminho para o sucesso: o que poderia ser “fatela” é cool. Ou o que está out está in e… (escrever aqui uma opção mais moderna).

Guiá-lo é fácil, mesmo sem direcção assistida (para quê), airbags (idem) e bancos com múltipla regulação. Aliás, existe apenas uma longitudinal para quem guia e acho que mais nada. Ah, e são bué duros, altamente nocivos para quem sofre de dores nas costas.

Mas o target do Ami não são cotas como eu, mas sim jovens garbosos, musculados e imortais. E para esses, até um colchão de ferro com picos serve para dormir.

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O teto panorâmico ajuda ao arranque supersónico

O carro acelera bem até aos 10 km/h, o que nos transforma no “King do semáforo” e garante um sorriso e uma gargalhada enquanto envergonhamos as grandes bombas que circulam por Lisboa… por alguns metros. Ah, mas todos esses centímetros valem ouro!

A cada km que se faz, mais gozo temos. E isto é mesmo verdade. O receio inicial desvanece-se, percebemos os limites e começamos a guiar como quem aprende a andar de scooter numa cidade. É este o tipo de sensação e evolução o que, por um lado, pode ser perigoso para os mais afoitos, mas por outro, garante um bem-estar acumulado

Análise Piaggio Medley 125, a minha primeira aventura em duas rodas

Mas também mete medo: dei por mim a convidar um pendura para ultrapassar o grande teste: conseguir superar os 45 km/h de velocidade máxima. Deixo lá em baixo a conclusão deste episódio.

Curvar é fácil, aliás, fazer 360 graus num curto espaço é garante de gargalhadas. É verdade, este Ami é todo um potencial para a boa disposição e bem-estar e por muitas razões, o que serve quase como conclusão. E se calhar é assim que a começo.

Conclusão

O Citroën Ami vale todos os tostões que custa! E sim, esta é uma afirmação complexa porque não se trata de um automóvel, mas de um quadriciclo. Mas reparem: é ideal para crianças (hoje conhecidas por jovens adultos) que fazem 16 anos e só podem tirar a carta a partir dos 18.

Ou seja, é um veículo perfeito para quem mora longe da escola ou para quem quer ir para os copos até às seis da matina sem ter que chatear o papá ou a mamã para ir buscá-los à after-party. Mas cuidado, o facto de não precisar de carta não implica que se pode fazer o que se quer: o código é obrigatório e a taxa de álcool é muito problemática para quem quer beber uma litrosa (isto sou eu a ser moderno).

Portanto, são quatro rodas com potencial de poder ocasionar acidentes, daí saber o que se ensina a quem vai guiar o Ami. E por aí adiante.

Para todos os outros que têm carta de condução, o Citroën Ami é perfeito para o trajecto casa – trabalho – casa e por várias razões: primeiro, sendo eléctrico não paga parquímetro e ainda tem alguma liberdade sendo um veículo de uma classe mais permissiva.

Poder ser carregado através de uma tomada 220V tradicional é um must, mas é pena que o cabo só tenha três metros. Cinco seriam ideais, mas nada que uma extensão não resolva.

A autonomia de 70 a 75 km é mais que suficiente para um trajecto diário e urbano. Ou rural, desde que se possa no seu final ligar ao interruptor.   

Dá para novos e para menos novos.

E, como podem ver pelos fotomatons, estaciona-se em qualquer buraco o que é superlativo em cidade, principalmente a de Lisboa.

Há mais para dizer mas não quero estragar a surpresa para alguns de vocês que o irão experimentar, tenho a certeza.

O Citroën Ami é lógico, em conta e sai barato no fim do mês

E sim, com pendura cheguei aos 51 km/h… em descida, mas cerrei os dentes como nesta foto abaixo.

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“Saiam-me da frente!”

Preço

O preço ronda os oito mil euros, mais autocolante e extras, menos extras e autocolantes.

Tendo em consideração que os outros “papa reformas” da Ligier e MicroCar custam bem mais com valores que começam nos 12 mil euros, e que têm motor a combustão o que implica outros gastos, a Citroën é muito capaz de ter descoberto um filão dourado com o Ami, principalmente porque já desvendou a vontade de continuar neste caminho com o protótipo Oli.

PS: cara Citroën, à minha conta estão três vendidos só por andar com ele por Lisboa.

Bip, bip, disse!

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A buzina soa alto tanto lá fora como dentro. Cuidado.
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selo Xá das 5

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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