Lê-se um título com “Sennheiser” e qualquer entusiasta de áudio para o que está a fazer, temendo o que está a adivinhar: a confirmação, a 23 de Março de 2026, de que a Sonova – empresa suíça de audiologia proprietária da divisão consumer da Sennheiser desde 2022 – pretende vender o negócio, é uma dessas notícias. Não porque seja um choque absoluto para quem acompanhou os sinais dos últimos anos mas porque é a segunda vez em cinco anos que a Sennheiser consumer muda de mãos, e a segunda vez que uma empresa compra este activo com grandes declarações e o revende sem os resultados esperados.

Sennheiser: o que está à venda e o que não está
Antes de qualquer conclusão precipitada, é importante perceber exactamente o que está em causa: a Sennheiser como empresa não está à venda. A família Sennheiser, que continua a liderar a empresa original fundada em 1945, retém a divisão de áudio profissional, que inclui microfones, sistemas de transmissão, equipamento de estúdio e a Neumann.Berlin, uma das marcas de microfones de referência mundial.

O que vai a leilão é a divisão consumer: os auscultadores Momentum Wireless, os modelos audiófilos HD 560S, HD 600, HD 650, HD 800S, os auriculares in-ear IE 600 e IE 900, as barras de som e a licença perpétua da marca Sennheiser para produtos de consumo. Em 2022, a Sonova pagou €200 milhões por este conjunto de activos e apenas quatro anos volvidos quer sair.
Como se chegou aqui
A aquisição parecia lógica num slide de apresentação: em 2021, a Sonova absorveu cerca de 600 colaboradores e instalações de produção na Alemanha, Irlanda, Roménia e Estados Unidos. O então CEO Arnd Kaldowski vendeu a ideia como um investimento de longo prazo com uma narrativa elegante: alguém compra auscultadores Sennheiser aos 25 anos, desenvolve perda de audição aos 55 e recorre a um aparelho auditivo Sonova porque a marca já existe na sua memória emocional.
Ou seja, os auscultadores premium serviriam como porta de entrada para dispositivos médicos num espaço de tempo de trinta anos. Para mim, como se calhar para muitos de vocês, esta lógica não tinha qualquer fundamento credível, tanto mais que na prática não funcionou.
A divisão consumer nunca representou mais do que 6% das vendas totais do grupo Sonova, e os resultados do último semestre mostram uma queda de 11,6% nas vendas. O novo CEO Eric Bernard assumiu a marca em Setembro de 2025 com uma visão diferente da do seu antecessor. A Sonova fez as contas e concluiu que o negócio de auscultadores e barras de som tem ciclos de produto, canais de distribuição e dinâmicas de mercado demasiado diferentes do core de audiologia médica para justificar a alocação de recursos.
O mercado que a Sennheiser perdeu

A Sonova não conseguiu estabelecer a Sennheiser como uma força relevante num segmento altamente competitivo, dominado pela Apple, Sony, Bose e JBL, marcas que controlam a maioria das vendas globais de auscultadores através de ecossistemas fortes, preços agressivos e liderança em funcionalidades como o cancelamento activo de ruído.
Os números são impiedosos: na Austrália, a Sennheiser detém apenas 3% do mercado de auscultadores, contra 39% da Apple, 14% da Bose e 11% da Sony. A presença em lojas físicas tem enfraquecido e, para sustentar as vendas, a Sonova recorreu cada vez mais a descontos – o caminho mais rápido para corroer a margem e o posicionamento premium em simultâneo.
A situação foi ainda complicada por uma coima de quase €6 milhões aplicada pelo regulador alemão da concorrência em 2025, relacionada com práticas de fixação de preços no retalho anteriores à própria aquisição.
Há também a questão da inovação perdida: em 2018, o engenheiro Axel Grell – responsável pelo desenvolvimento dos icónicos HD 600, HD 650, HD 800 e do lendário Orpheus – saiu da Sennheiser após 27 anos. Fundou em 2023 a sua própria empresa, a grell UG, onde trabalha actualmente com outros ex-colaboradores da marca. Não é um detalhe menor: é a prova de que o talento que construiu a reputação audiófila da Sennheiser já não está dentro de casa.
Um padrão que se repete no sector

Esta situação insere-se numa tendência mais ampla de marcas de áudio a mudar de mãos. Em 2023, a Audeze foi adquirida pela Sony Interactive Entertainment. Em 2024, a Bose comprou o grupo McIntosh. A Beyerdynamic – outra marca alemã com mais de um século de história familiar – foi adquirida por uma empresa chinesa por €122 milhões em 2025. E a 9 de Março de 2026, apenas duas semanas antes do anúncio da Sonova, a Focal e a Naim foram adquiridas pela empresa belga Barco por €135 milhões.
O padrão é claro: as marcas de áudio com herança e reputação mas com dificuldades de escala no mercado de consumo massificado estão a circular de mão em mão, frequentemente em direcção a conglomerados asiáticos ou fundos de private equity. O que aconteceu à AKG é o exemplo mais citado nas comunidades audiófilas: o nome continua a aparecer em produtos, mas a fábrica de Viena que os construiu durante décadas foi encerrada. Esse precedente paira sobre a venda da Sennheiser.
Quem pode comprar e o que isso significa

Não há nenhum comprador anunciado mas as especulações online vão desde cenários optimistas – um comprador europeu que preserve a identidade da marca, ou até um interesse da própria família Sennheiser em recomprar o activo – até cenários mais sombrios envolvendo conglomerados chineses ou fundos de investimento orientados exclusivamente para a rentabilidade a curto prazo.
A divisão profissional permanece firmemente nas mãos da família Sennheiser e continua a operar de forma independente, incluindo marcas como a Neumann e os negócios de pro audio e broadcast. A família controla a marca, e a marca é o activo mais valioso desta transacção. Isso dá-lhe algum poder negocial sobre quem adquire a licença e em que condições.
Para quem tem hoje auscultadores Sennheiser consumer – um HD 650 na prateleira, uns Momentum 4 na gaveta, uns IE 600 na mala – a mensagem oficial é tranquilizadora: há garantias e suporte e o desenvolvimento de produto continuam inalterados durante o processo de venda.
Mas essa garantia cobre apenas o período de pesquisa de comprador. Um novo proprietário pode reestruturar programas de garantia, deslocar a produção ou eliminar linhas de produto inteiras. Ninguém que compre hoje produtos Sennheiser consumer sabe se as peças de substituição, as actualizações de software ou as redes de reparação ainda existirão daqui a três anos sob nova gestão.
Em suma
A Sennheiser consumer está à venda pela segunda vez em cinco anos, e desta vez o contexto é mais preocupante do que em 2021. Não porque a empresa vá fechar – não vai – mas porque o activo pode ir parar às mãos de um comprador desconhecido, num sector onde os precedentes recentes não são particularmente animadores para quem valoriza a herança de engenharia alemã que construiu a reputação da marca.
Para os entusiastas de áudio, o HD 800S continua a ser um dos melhores auscultadores alguma vez construídos. A questão é quanto tempo esse legado sobrevive quando a prioridade passa a ser o retorno do investimento e não a perfeição acústica.





