No Dia Europeu da Protecção de Dados, a Sophos deixa uma mensagem clara: a privacidade digital não existe sem encriptação forte. Num mundo cada vez mais dependente de plataformas digitais, serviços cloud e comunicação online, a protecção da informação pessoal tornou-se um dos temas centrais da soberania digital, da liberdade individual e da segurança colectiva.
Sophos: a protecção de dados como pilar da liberdade digital
O alerta surge pela voz de Chester Wisniewski, Director, Global Field CISO da Sophos, que sublinha um ponto essencial: a encriptação não é um luxo tecnológico, é um direito fundamental.
Encriptação não é o problema. É a solução
A Sophos lembra que já passaram quase 13 anos desde as revelações de Edward Snowden sobre os programas de vigilância da NSA, e que, apesar disso, a discussão continua a repetir os mesmos erros. Sempre que surgem propostas de “acesso autorizado”, “backdoors” ou mecanismos de excepção à encriptação, o resultado é sempre o mesmo: sistemas mais frágeis, mais vulneráveis e mais fáceis de explorar.
A realidade é simples:
se existe uma porta de acesso especial, alguém vai usá-la
se existe uma exceção técnica, alguém vai explorá-la
se existe um atalho de segurança, alguém vai abusar dele
Não é uma questão de “se”, é apenas uma questão de “quando”.
O perigo dos “acessos legais”
A narrativa do “acesso autorizado” é, segundo a Sophos, uma das maiores ilusões da segurança digital moderna. Na prática, não existe acesso seguro quando se cria uma excepção estrutural à encriptação.
A prova disso está nos inúmeros casos em que grupos de cibercrime, como o LAPSUS$ ou o Scattered Spider, conseguiram enganar grandes empresas tecnológicas, fazendo-se passar por autoridades legais para obter dados sensíveis através de canais supostamente “oficiais”.
Ou seja, o próprio modelo de “acesso legítimo” tornou-se uma arma contra os utilizadores.
O utilizador no centro do controlo
A encriptação ponta a ponta devolve o controlo ao utilizador. É esse o ponto central da visão da Sophos. Quando o controlo da informação está do lado de quem comunica, e não do lado da plataforma, do intermediário ou da infraestrutura, a privacidade deixa de ser uma promessa e passa a ser uma realidade técnica.
A lógica é simples:
o utilizador decide
o utilizador controla
o utilizador autoriza
o utilizador partilha
o utilizador protege
Sem intermediários invisíveis. Sem acessos ocultos. Sem excepções silenciosas.
Chat Control e o risco da normalização da vigilância
A referência ao debate do Chat Control não é inocente. A criação de mecanismos automáticos de vigilância, mesmo com boas intenções declaradas, abre portas técnicas que fragilizam todo o ecossistema digital. Uma vez criada a infraestrutura, o seu uso pode ser alargado, adaptado, reconfigurado e explorado para fins completamente diferentes dos originais.
A história tecnológica mostra que infraestruturas de vigilância nunca ficam limitadas ao seu propósito inicial.
Rever as plataformas que usamos
A Sophos deixa também um aviso prático e directo: este dia não é apenas simbólico. É um bom momento para os utilizadores e as organizações fazerem algo simples mas essencial:
- rever as plataformas de armazenamento
- rever as apps de comunicação
- rever os serviços cloud
- rever as redes sociais
- rever os sistemas de partilha de dados
- rever as políticas de privacidade
- rever os modelos de acesso
- rever os níveis de controlo real do utilizador
Não basta confiar na marca. É preciso perceber o modelo.
Privacidade como arquitectura, não como promessa
A protecção de dados não se constrói com discursos, slogans ou políticas bonitas. Constrói-se com:
- encriptação real
- arquitectura segura
- ausência de backdoors
- controlo do utilizador
- transparência técnica
- responsabilidade digital
- governação de dados clara
- soberania tecnológica
Sem isso, tudo o resto é marketing de segurança.
A mensagem da Sophos no Dia Europeu da Protecção de Dados é clara, directa e incómoda: fragilizar a encriptação não protege ninguém, só expõe todos. A privacidade digital não se negocia, não se dilui e não se fragmenta. Ou existe de forma estrutural, ou é apenas uma ilusão confortável. A encriptação continua a ser o último bastião real da liberdade digital. E continua, paradoxalmente, a ser tratada como um problema por quem nunca terá de viver sem ela.










