A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta para escrever textos ou criar imagens. Pelo menos é essa a visão da Google Cloud, que aproveitou o evento Google Cloud AI Live Lisboa para mostrar como pretende ajudar as empresas portuguesas a entrar numa nova fase da transformação digital: a chamada Empresa Agêntica.
O conceito pode parecer saído de um filme de ficção científica, mas traduz uma evolução bastante prática. Em vez de recorrer a um único assistente de IA para responder a perguntas, as organizações passam a utilizar vários agentes inteligentes capazes de colaborar entre si, analisar informação, tomar decisões e executar tarefas de forma autónoma, sempre sob supervisão humana.
O que é uma Empresa Agêntica?
Nos últimos dois anos, muito se falou sobre inteligência artificial generativa, capaz de criar textos, imagens, código ou apresentações.
Agora, a Google acredita que o passo seguinte consiste em criar verdadeiros “colegas digitais”.
Na prática, estes agentes inteligentes deixam de responder apenas quando recebem uma ordem directa. Passam também a planear tarefas, comunicar entre si e executar processos completos, reduzindo o trabalho repetitivo e permitindo que os colaboradores se concentrem em actividades de maior valor.
É uma mudança que poderá transformar profundamente áreas como atendimento ao cliente, segurança informática, análise de dados, logística ou gestão financeira.
Empresas portuguesas já estão a aplicar esta estratégia
Durante o evento realizado em Lisboa, várias empresas nacionais apresentaram exemplos concretos da utilização das plataformas da Google Cloud.
A Sonae MC explicou como está a recorrer ao Google SecOps e ao Gemini AI para automatizar a detecção de ameaças informáticas e reduzir o tempo necessário para recuperar operações críticas em caso de incidente.
A NOS revelou estar a desenvolver uma estratégia orientada por dados, processando actualmente mais de mil milhões de chamadas de API por mês através da infraestrutura da Google Cloud. Segundo a operadora, a automatização baseada em inteligência artificial já permite resolver cerca de 70% das interacções com clientes e reduzir em 25% os tempos de resolução de serviços.
Também a Farfetch continua a aprofundar a utilização de inteligência artificial para personalizar a experiência de compra no segmento do luxo e acelerar o desenvolvimento das suas equipas através de programas internos dedicados à IA.
Por sua vez, a Caixa Geral de Depósitos confirmou que está igualmente a recorrer às plataformas cloud e às ferramentas de inteligência artificial da Google para acelerar a sua transformação digital e melhorar a experiência dos clientes.
Google Meet passa a traduzir conversas em tempo real
Uma das novidades mais interessantes apresentadas em Lisboa diz respeito ao Google Meet.
O serviço de videoconferência vai começar a disponibilizar o Gemini 3.5 Live Translate, um sistema capaz de traduzir automaticamente a voz dos participantes durante uma reunião.
Ao contrário das legendas automáticas, a nova funcionalidade gera uma nova voz traduzida praticamente em tempo real, preservando o ritmo, a entoação e até parte da expressividade do interlocutor.
O suporte inicial abrange mais de 70 idiomas, incluindo português, permitindo mais de 2.000 combinações linguísticas diferentes numa única reunião.
Para aumentar a transparência, todo o áudio criado por inteligência artificial inclui uma marca invisível baseada na tecnologia SynthID, permitindo identificar posteriormente que se trata de conteúdo gerado por IA.
Numa primeira fase, esta funcionalidade ficará disponível em versão de testes para alguns clientes empresariais do Google Workspace.
Criar vídeos em português será muito mais simples
Outra novidade importante chega ao Google Vids, a plataforma da Google dedicada à criação de vídeos.
Entre as novas funcionalidades destaca-se o Slides-to-Vids, capaz de transformar automaticamente uma apresentação em vídeo narrado.
A grande novidade para os utilizadores portugueses é que as vozes artificiais passam agora a estar disponíveis nativamente em português, dispensando soluções externas ou dobragens improvisadas.
O Google Vids passa igualmente a oferecer:
- Avatares gerados por inteligência artificial para apresentar conteúdos;
- Clipes de vídeo mais longos através do modelo Veo 3.1;
- Um futuro sistema de controlo emocional da voz, permitindo ajustar o tom do avatar conforme o contexto da apresentação.
Na prática, criar vídeos institucionais, formações ou apresentações poderá tornar-se uma tarefa bastante mais rápida.
A formação continua a ser uma prioridade
A Google Cloud considera que a inteligência artificial só produzirá impacto se existir talento preparado para a utilizar.
Por isso, anunciou várias iniciativas de formação dirigidas ao mercado português.
Entre elas destacam-se:
- O programa Shaping Tomorrow, desenvolvido em parceria com a Católica-Lisbon SBE e a Kellogg School of Management, que leva executivos portugueses a Silicon Valley para conhecerem de perto o ecossistema da inovação em IA.
- A iniciativa Impulso AI, realizada com a APDC, que já formou mais de 2.000 profissionais em todo o país.
- Um financiamento de 1 milhão de dólares, atribuído pela Google.org, para formar mais de 7.000 estudantes universitários em competências relacionadas com inteligência artificial.
- Uma parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, destinada a preparar futuros médicos para integrar a IA na prática clínica.
A IA deixa de ser apenas uma experiência
Grande parte das apresentações realizadas durante o Google Cloud AI Live Lisboa teve uma mensagem comum.
A inteligência artificial está a deixar de ser um conjunto de experiências isoladas para passar a fazer parte da operação diária das empresas.
Ferramentas como o Gemini, o Google Workspace ou os novos agentes inteligentes começam agora a assumir tarefas concretas, desde o atendimento ao cliente até à análise de dados, produção de conteúdos ou segurança informática.
O desafio já não passa tanto por perceber se a IA será útil, mas sim por decidir onde poderá gerar maior valor.





