Sim, o terrorismo anda aí e os tempos são de máximo alarme. Mas os verdadeiros terroristas ainda nem começaram a mostrar as garras.
Os sinais de uma profunda mudança estão aí e não deixam de alimentar teorias conspirativas e aumentar as vendas de livros que lemos há décadas. George Orwell anda aí outra vez.
Theresa May defende abertamente o policiamento da internet. Sim, de toda a internet, uma das pretendidas medidas já avançadas em discurso e agora reforçadas devido a mais um atroz ataque terrorista.
Um elemento de uma das polícias portuguesas, em entrevista hoje mesmo a um canal generalista, defende que o ciber-espaço tem de ser tratado da mesma forma como as ligações por terra, mar e ar, ou seja, terá de ser fortemente policiado, mas e logicamente, “sempre de acordo” com as leis que defendem a privacidade de todos os países envolvidos nesta longa batalha que é já uma guerra sem quartel.
Que leis são estas? Quem define estas fronteiras? Quem as irá defender após uma desculpa/razão tão grande quanto a morte de inocentes?
Mas existe um sinal um pouco menos político e bem mais social que demonstra que o público (leia-se consumidor ainda livre de escolher mais ou menos o que quer) está deveras preocupado com estes avanços que prometem um policiamento sem quartel a toda e qualquer liberdade pessoal. “Têm medo? Dêem-nos a password que prometemos segurança!“: e esse sinal é o interesse crescente por equipamentos que emulam as tecnologias “antigas”, ou seja, consolas de jogos que fingem ser dos anos 90, como telemóveis que servem apenas para… telefonar.
Lá no futuro Reino Desunido, Sir Cary Lynn Cooper é um psicólogo reconhecido que continua a dissertar pela Manchester Business School onde vem apontando uma relação causa/efeito: em tempos complicados e de incerteza, a população vira-se para o que já conhece e domina (ou pensa dominar, acrescento eu) e é normal assistirmos a um reaparecer de equipamentos que nos alimentam a nostalgia e a estabilidade de outrora.
Os recentes eventos, desde os atentados terroristas ao próprio Brexit que é visto como um atentado contra a Europa, passando por este vendaval que se chama Trump, é uma mina para quem souber aproveitar-se comercialmente de toda a situação.
Por exemplo, o repensado Nokia 3310, que foi lançado agora nas lojas, é um produto deste receio. Ninguém quer ver a sua intimidade devassada pelas forças policiais que conquistam direitos dia após dia. E um instrumento pré-web2.0 pode muito bem ser a solução para, eventualmente, sacrificar as nossas garantias e liberdades em menor escala.
Mas será que isto é verdade? Afinal, do mais antigo ao mais recente, os telemóveis têm um microfone com capacidade para gravação de uma conversa. Há muito que um GPS mostra onde estamos. Existe uma memória interna que grava todos os nossos passos, principalmente com a extraordinária “ajuda” das aplicações de saúde que até podem enviar os dados reais sobre o nosso estado físico para uma… seguradora.
Sim, o terrorismo anda aí e os tempos são de alarme. Mas algo me diz que os verdadeiros terroristas ainda nem mostraram as garras.
Acaso se lembram do Soilent Green? E do THX 1138? Ou do mais recente (cinematograficamente) The Island?
Vamos dar as passwords de livre contade ou deixamos de utilizar as vantagens da web que hoje em dia nos facilitam tanto a vida?
Por quanto é que estamos dipostos a sacrificar o nosso medo?







