Eis mais um alerta sobre as conspirações tipo #Pizzagate, desta vez da Sofia Barnett, de apenas 17 anos. Quer ser escritora (e já o é) mesmo que esteja a finalizar a secundária em Frisco, no estado norte-americano do Texas.
Sofia quer entrar na Universidade para o ano e seguir Jornalismo ou Política (mal sabe ela que em Portugal basta um cartãozinho de uma Jota qualquer para ter carreira).
Um dos motivos? Fazer perceber à pequenada os males das redes sociais, principalmente da mais badalada TikTok.
Só que há um problema: Sofia gasta 10 horas semanais a fazer scrolling no TikTok. Então em que ficamos? Vamos lá saber as razões da miúda.
PizzaGate, a conspiração da moda
Pelo que parece, Hillary Clinton e John Podesta traficam crianças e sacrificam-nas a Satanás.
Ridículo, não é? O problema é que os jovens acreditam piamente nesta história. Como há mais de meia dúzia de vídeos em sequência sobre o caso, quem é que não acredita que é a mais pura das verdades?

Onde há um, há logicamente outros
Se Hillary e John são focados neste tema, uma pesquisa pelo TikTok e Twitter encontra acesos debates sobre quais as celebridades que têm explorado mais crianças e sacrificando-as aos deuses de Hollywood. Neste caso, Satanás está safo.
Mas as crianças e adolescentes não estão. Mesmo os mais instruídos acreditam tanto nestas historietas que fazem vídeos sobre o assunto. E a coisa entra em loop e torna-se viral.
Números assustadores
As teorias da conspiração encontraram uma nova geração de acólitos entre os adolescentes que passam horas no TikTok, onde – de acordo com um relatório recente do New York Times – as postagens do #Pizzagate foram vistas mais de 82 milhões de vezes nos últimos meses.
Querem outra? Alguém inventou que a empresa de decoração Wayfair está envolvida numa operação de tráfico sexual.
Outra? Até a semideusa Oprah Winfrey está envolvida num complot semelhante.
E ainda outra? Avril Lavigne foi substituída por uma sósia. Bom, sou da geração em que Paul McCartney morreu e foi substituído por alguém…

Ellen e Oprah no mesmo saco
Uma das mais recentes, e badaladas devido aos nomes apontados, é a ideia (depois de um momento complicado na vida profissional) de que Ellen DeGeneres coagiu Oprah a recrutar crianças para o tráfico humano depois de ter visto uma queixa de uma jovem que durou, pasme-se, meio minuto. Mas como foi uma queixa feita em Powerpoint com bonecada e transições animadas, Ellen passou-se dos carretos e passou a ser vista como conspiradora.
O problema é que os jovens acreditam no que assistem nas redes sociais. A falta de informação, a desnoção histórica, o alheamento da realidade, tudo são pequenas pedras que se amontoam até construir uma pirâmide de “auto-conhecimento”.
E como a média de idades do Tiktok é 14 anos nos EUA, que alvo mais fácil (do mais ao menos instruido) para ser agarrado nas teias de grupos como o QAnon e outros extremismos?

Conspirações feitas à medida
“Muitos desses sites e histórias de conspiração são divertidos. São pontos de encontro social. São empolgantes ”, diz Nancy Rosenblum, professora de ética em política e governo da Universidade de Harvard e co-editora da Annual Review of Political Science. “Não é de se admirar que os adolescentes que ‘vivem no ecrã’ sejam atraídos pelo drama.”
O fácil acesso às ferramentas de redistribuição da media social agrava o problema. A cada like, partilha, envio e reenvio, os adolescentes estão popularizando esse conteúdo em todo o mundo.
Repetição subtituiu a validação
“Nas redes sociais, a repetição substitui a validação”, diz Russel Muirhead, professor de democracia e política no Dartmouth College e coautor de Rosenblum.
“A repetição é o que insufla ar nas teorias da conspiração, e a media social é toda sobre repetição. Mas repetir algo que é falso não o torna mais verdadeiro! Os adolescentes são tão vulneráveis a isso quanto os adultos. ”
Redes sociais, a fonte de notícias dos adolescentes
Quem anda neste “jogo”, sabe onde encontrar o target. E no caso das crianças e adolescentes, os grupos-alvo vivem na bolha das redes sociais. E quais são? Há estudos, dados e conclusões sobre isso. Factuais!
É das redes que sugam as notícias e os “factos” e, de repente, estamos a mencionar mais de 54% dos jovens.
Com os adolescentes contando com o TikTok como a sua única fonte de informação, é fácil deixarem-se embarcar nas maiores falsidades. O problema maior? Vivem totalmente desinformados.

Do real ao novo real
De acordo com Joseph Uscinski, professor de ciência política da Universidade de Miami e co-autor de American Conspiracy Theories, “é difícil evitar a propagação das fakenews pois são projectadas para parecer reais. Mas a legitimidade não é a única coisa que as pessoas procuram nas notícias – às vezes, elas só querem ouvir o que querem. “
Não é de admirar, então, que os absurdos de Pizzagate e dos Illuminati sejam tão calorosamente recebidos pelos adolescentes – porque é essa a informação que recebem

Sofia Barnett escreveu que “Da perspectiva de um adolescente, a sociedade em grande parte configurou os jovens para o fracasso. Os adolescentes não conseguem identificar uma teoria sensacionalista envolvendo a morte da princesa Diana como uma propagação de falsidades”.
Os adolescentes são menos hábeis em separar os rumores de uma aterragem encenada na lua das provas científicas de uma viagem lunar bem-sucedida. Eles não são capazes de identificar notícias confiáveis de boatos sem sentido.
Após receberem durante anos a informação através dos media sociais, a capacidade de distinguir factos de mitos diminuiu.
Banir postagens com a tag #Pizzagate no TikTok pode fazer muito para evitar a polinização cruzada.
Então, o que fazer? O mundo está perdido?
Nem tudo está perdido. Existem ferramentas para impedir a disseminação de informações falsas.
“Fique atento: se a repetição por si só fá-lo acreditar em alguma alegação conspiratória, pergunte-se: ‘Qual é a evidência?’ Não se contente com a ‘verdade’”, explica Muirhead.
“Pense, examine e lembre-se que existem apenas algumas coisas na vida das quais podemos ter 100% de certeza, como talvez nossos números de telefone ou nomes do meio. Na maioria das vezes, mesmo quando acreditamos em algo, só podemos ter 60, 70 ou 80% de certeza.”
Discutir, apontar, desconfiar e falar
Os adolescentes também precisam de conversar uns com os outros.
Travar as informações falsas em tempo real impede que se espalhem.
O mesmo acontece com a partilha de informações precisas e reais.
O que Sofia fez numa festa de pijama, que foi tentar alertar os colegas para esta realidade, não foi apreciada. Mas talvez tenha deixado uma semente.
Todos precisamos de Sofias na nossa vida. Agora mais que nunca.
Este post foi baseado no texto que Sofia escreveu para a Wired.





