A Kobo sabe que ler num tablet cansa, porque e afinal, trata-se de fisiologia: os ecrãs que emitem luz directa para os olhos durante horas seguidas cobram o preço no final do dia, e quem já passou uma tarde a ler num iPad sabe exactamente do que estou a falar, já para não falar no peso e no tal alumínio que magoa os dedos.
O problema era que até há pouco a alternativa a cores – um e-reader com tinta electrónica colorida – ou não existia a preços razoáveis, ou existia com resultados tão medíocres que a cor era mais promessa do que realidade. Mas o Kobo Clara Colour, cuja primeira aparição data do ano passado, é o ponto em que esta equação mudou de vez.
E Ink Kaleido 3

A tecnologia E Ink Kaleido 3 funciona de forma diferente de qualquer ecrã que se use no dia-a-dia, pois em vez de emitir luz, reflecte-a – como o papel. A cor é acrescentada através de uma camada de filtros sobre o painel de tinta electrónica existente, o que significa que se mantêm todas as vantagens do formato, ou seja, ausência de reflexos, leitura confortável sob sol directo, bateria que dura semanas, tudo isto com a adição de uma paleta de cor que muda completamente a experiência para determinados tipos de conteúdo.
Para quem lê banda desenhada, graphic novels, fanzines ou qualquer publicação onde a ilustração e a cor são parte da narrativa, a diferença é imediata. As capas dos livros deixam de ser interpretações a cinzento do que o designer imaginou e passam a mostrar o que foi de facto criado.



As paletas suaves do Kaleido 3 – que privilegiam a legibilidade do texto sobre a saturação da cor – são uma escolha deliberada e inteligente: não é a cor vibrante de um ecrã LCD, é uma cor que vive bem com o texto em vez de competir com ele.
O texto em preto e branco, que continua a ser a grande maioria do que se lê num e-reader, perde ligeiramente em contraste face a um painel monocromático puro e resulta da camada de filtros de cor. Para a leitura prolongada de romances ou ensaios, não é um problema prático. Para quem tem visão muito sensível ao contraste, vale a pena comparar com um modelo monocromático antes de decidir, ou seja, chegando à loja (se tiverem modelos fora da embalagem) peçam para colocar os dois Claras lado a lado para ver a diferença com e sem cor.
Kobo Clara Colour no dia-a-dia
A iluminação ComfortLight PRO ajusta automaticamente a temperatura de cor ao longo do dia, aquecendo progressivamente o tom do ecrã à medida que a noite avança. Para quem lê antes de dormir – que é, estatisticamente pelo que se diz, a maioria de quem usa e-readers -, é um detalhe com impacto real na qualidade do sono. Não é marketing: a exposição à luz azul antes de dormir interfere com a produção de melatonina, e um ecrã que reduz essa exposição automaticamente faz muita diferença.

Os highlights a cores merecem menção especial: o Clara Colour permite sublinhar passagens em diferentes cores directamente no ecrã táctil, o que transforma a releitura de textos de estudo, ensaios ou documentação técnica numa experiência consideravelmente mais organizada do que o sublinhado único dos modelos anteriores. É possível usar amarelo para ideias centrais, azul para referências e verde para citações, por exemplo – um sistema de anotação que no papel exigiria três marcadores diferentes. O que o Clara Colour não tem é suporte para stylus: os destaques funcionam por toque no ecrã, não por escrita manual. Para quem quer anotar com caneta, o Kobo Libra Colour é o modelo adequado, com ecrã maior e esse suporte incluído, embora a um preço superior.
A resistência à água IPX8 – que garante sobrevivência a imersão em até dois metros durante 60 minutos – transforma o Clara Colour no companheiro ideal para banheira, piscina ou praia sem a ansiedade habitual de aproximar electrónica da água.
E o Bluetooth para audiolivros permite ainda alternar entre ler e ouvir sem mudar de dispositivo: inicia-se o livro a ler no sofá e continua-se a ouvir a caminho do trabalho, com a posição sincronizada automaticamente.

Ecossistema
O catálogo da Kobo ultrapassa os oito milhões de títulos, com integração directa com a plataforma Libby para acesso às colecções de bibliotecas públicas – em Portugal, através da Biblioteca Nacional e de várias bibliotecas municipais aderentes.
A subscrição Kobo Plus dá acesso ilimitado a uma selecção alargada de títulos por um valor mensal, uma alternativa interessante para leitores frequentes. O suporte a artigos via Instapaper e a compatibilidade com os formatos mais comuns eliminam a necessidade de conversões e transferências complicadas.
Sustentabilidade
Na componente ambiental, o Clara Colour usa plástico reciclado pós-consumo e materiais recolhidos do oceano na sua construção – não como declaração de intenções mas como especificação verificável. A Kobo disponibiliza ainda kits de reparação via iFixit em mercados seleccionados, uma escolha de design que é rara na electrónica de consumo e que significa que um Clara Colour pode ter uma vida útil de vários anos sem ser substituído ao primeiro sinal de desgaste.

Em suma
O Kobo Clara Colour é um e-reader que resolve um problema real – ter cor num dispositivo de leitura sem comprometer o conforto ocular nem o orçamento – e fá-lo sem excessos nem atalhos.
As 6″ podem ser “curtas” para PDFs complexos ou manga de página dupla, e quem quer anotar manuscritamente precisará do Libra Colour, mas para tudo o resto – romances, ensaios, banda desenhada, fanzines, revistas – é o dispositivo mais equilibrado disponível a este preço. E é leve, muito leve.

Preço
(aprox.) 180€






