A Apply AI começa por ser política, mas tem de se tornar prática. A estratégia europeia Apply AI quer trazer a inteligência artificial do laboratório para a fábrica, das ideias para a linha de produção, com mais de mil milhões de euros de financiamento e uma ambição clara: reduzir a dependência de infra-estrutura estrangeira e criar um backbone de IA com controlo europeu.
A Europa não pode continuar a correr em servidores de outros
A verdade incómoda é simples: quando a AWS ou a Cloudflare falham, fábricas, armazéns e serviços públicos europeus param.
Juntas, Amazon, Microsoft e Google controlam cerca de 70% do mercado público cloud na Europa; os fornecedores europeus mal atingem 15%. É uma dependência que afecta resiliência, desempenho e soberania de dados.
Eis o nó: enquanto a UE regula e financia, a maior parte da potência de computação necessária para treinar e operar modelos de grande escala continua fora do continente. A caixa de ferramentas pode ser europeia, mas os motores ainda são estrangeiros.
Apply AI e a aposta na IA industrial – GREÏ na linha da frente
A Apply AI não é só um programa de bolso cheio de promessas. Destina-se a operacionalizar IA em cenários industriais, onde os ganhos são imediatos e mensuráveis.
É aqui que plataformas como a GREÏ entram: segundo Giedrė Rajuncė, CEO e cofundadora da GREÏ, a IA já está a reformular a monitorização das operações em tempo real. “A IA pode monitorizar operações em tempo real, dando visibilidade sobre como os processos funcionam. Chamo-lhe uma revolução em tempo real. Em vez de depender apenas de automatização dispendiosa, as empresas podem ligar software baseado em IA às câmaras existentes e obter ganhos de 10 a 30% em eficiência”, diz Rajuncė.
Isto explica porque a indústria se tornou o campo de provas mais convincente para a Apply AI: resultados rápidos geram confiança entre gestores, atraem investimento e formam competências técnicas locais.
O problema do investimento e do talento: a Europa tem de acelerar
Entre 2018 e 2023 as empresas norte-americanas atraíram mais de 120 mil milhões de euros em investimento privado em IA, contra cerca de 32,5 mil milhões para a UE.
Em 2024, as empresas americanas levantaram cerca de 109 mil milhões de dólares só naquele ano. São números que colocam pressão: há capital e talento a fugir para onde o dinheiro paga mais.
A Apply AI tenta inverter esta tendência ao criar mercados domésticos para soluções industriais de IA. Mas a estratégia falhará se não vier acompanhada de incentivos claros para retenção de talento, de melhores condições para escala de startups e de infra-estrutura de computação europeia capaz de suportar modelos avançados.
Portugal e a oportunidade prática – do papel ao chão da fábrica
Para Portugal, a lição é prática: investir em pólos de computação de proximidade, acelerar a modernização das linhas industriais e apoiar projectos que mostrem ROI rápido. Não é missão impossível: 41% das grandes empresas da UE já adoptaram pelo menos uma tecnologia baseada em IA em 2024, segundo o Eurostat. Mas a implementação em larga escala exige colaboração entre indústria, universidades e centros de dados locais.
Medidas concretas que Portugal pode promover: programar linhas de financiamento específicas para IA industrial, criar centros regionais de treino de modelos, e exigir cláusulas de soberania de dados em grandes contratos públicos.
O que funciona na prática – começar por um problema claro
A experiência mostra que transformações começam por resolver um problema operativo concreto: detectar anomalias numa linha, reduzir paragens não planeadas, optimizar consumo energético.
A Apply AI tem de financiar casos de uso replicáveis que provem eficiência e reduzam custos. Só assim surgirão compradores, investidores e escala.
A batalha por talento e capital é real, mas a adopção industrial oferece vantagem: dados industriais são abundantes, os ganhos são quantificáveis e as empresas que provaram valor tornam-se vitrines para o ecossistema.
Riscos e vigilância estratégica
A corrida pela infraestrutura própria envolve riscos: excesso de regulação pode estrangular inovação; falta de infra-estrutura local perpetua dependência; e uma estratégia fragmentada entre estados membros dilui impacto.
É necessário um equilíbrio entre padrões técnicos comuns, investimento coordenado e projectos piloto de alto impacto. A UE tem uma janela de oportunidade, mas o relógio não pára.
Em suma
A Europa já tem políticas ambiciosas e financiamento, mas falta-lhe músculo de computação e escala de investimento para competir ao mesmo ritmo dos gigantes norte-americanos. A Apply AI é a tentativa de virar o jogo, levando IA para o chão da fábrica e criando casos de sucesso que atraiam talento e capital.
Se Portugal souber transformar essas ideias em projectos concretos em parques industriais e centros de dados locais, pode ganhar espaço na nova economia da IA industrial. Caso contrário, ficará a ver a sua indústria a depender de tecnologias e decisões de fora.





