A melhor série TV dos últimos tempos regressa pela mão da Netflix, mas o seu autor ainda domina os cordelinhos.


Charlie Brooker é, quanto a mim, um dos mais extraordinários criativos deste milénio. Anda um passo à frente dos demais, escreve argumentos televisivos que demonstram uma perspicácia extraordinária no entendimento das sociedades que se querem modernas, toca fundo nos medos de toda uma geração que tenta acompanhar a velocidade tecnológica, mas fá-lo de forma quase imperceptível, ao de leve, como se tudo fosse natural. E é isso que é aterrorizante.

Faz-me sempre lembrar um Huxley com o seu Mundo Novo ou um Lucas em início de carreira quando brilhou em THX1138 e até Harry Harrison que escreveu a novela Soylent Green. Tudo são bases, caminhos, futurismos, percepções. E tudo mimetiza o nosso próprio tempo, discutido em surdina, apontando a estupidificação de uma sociedade demasiado ocupada com trash TV e adição/euforia consumista.

A mais recente aventura de Brooker é a aclamada série Black Mirror. Começou a ser vista por poucos, mas a palavra depressa se espalhou, tendo conquistado um lugar de culto em quem ainda pensa televisão e escolhe o que quer realmente ver. Se a primeira época teve três episódios, a segunda manteve-se fiel a esse princípio muito britânico, apresentando um especial de Natal quando poucos o esperavam. A terceira série, produzida pela Netflix que viu e percebeu o filão, já contou com o dobro dos episódios, para gáudio dos fãs, mantendo a qualidade e a originalidade e, claro, o medo racional.

A quarta série acontece agora. Será que Brooker se mantém fiel a ele próprio ou se vai deixar escorregar pelo sucesso fácil do empurrão de uma plataforma global? À partida, contamos novamente com seis episódios, todos diferentes, todos originais criados por Brooker.

O dinheiro faz milagres e o primeiro da nova fornada é realizado por Jodie Foster, intitulado “Arcanjo”.
Já “Crocodilo”, em baixo, é dirigido por John Hillcoat, um australiano que já assinou muita curta e muito videoclip.

Eu já comecei a roer as unhas e estou sentado à espera em frente do televisor.

 

 

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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