A rede social Bluesky, aquela que era a grande aposta contra o ex-Twitter e a hegemonia norte-americana, não está apenas a crescer devagar, como está a crescer mal. E isso é muito mais preocupante do que pensamos.
O padrão é conhecido por qualquer analista de plataformas digitais: explosão inicial de registos, entusiasmo mediático, seguida de abandono progressivo. Confundir contas criadas com utilizadores reais continua a ser um erro clássico da indústria tecnológica, e a Bluesky parece estar a repeti-lo sem grande capacidade de correcção.
Os números, isolados, impressionam: entre Setembro de 2024 e Janeiro de 2025, a plataforma passou de 10 milhões para 27,4 milhões de contas registadas, ou seja, quase triplicou em poucos meses. Em qualquer pitch de startup isto soaria a sucesso mas o problema surge quando se olha para a actividade real: em Setembro de 2025, a Bluesky tinha apenas 1,5 milhões de utilizadores activos diários, menos 40% do que os 2,5 milhões registados em Março do mesmo ano. A trajectória é clara e nada animadora.
As pessoas entram, exploram durante uns dias, não encontram razão para ficar e desaparecem. O Slate resumiu bem o fenómeno em Junho de 2025 ao notar que muitas contas se estavam a tornar fantasmas. Não por suspensão, não por bloqueio, mas por puro desinteresse.
O Bluesky e o problema europeu
Na Europa, o cenário é ainda mais complicado: a adopção é morna e há razões estruturais para isso. Desde logo, a plataforma começou mal ao ignorar obrigações básicas da União Europeia, ao não divulgar números de utilizadores europeus como exige o Digital Services Act. Para uma rede que se vende como transparente e descentralizada, este detalhe não é irrelevante. É um sinal de descuido num mercado especialmente sensível à regulação digital.
Depois há a ausência de massa crítica local: em Bruxelas, muitos jornalistas e correspondentes europeus criaram contas durante o pico de Novembro de 2024. Foi um gesto simbólico, quase performativo: testaram, publicaram alguns posts e regressaram ao sítio onde o trabalho acontece. A Bluesky nunca conseguiu recriar o ecossistema frenético que fez do Twitter uma ferramenta indispensável durante os anos 2010.
A troca rápida de informação política, rumores, bastidores e pequenos escândalos institucionais simplesmente não migrou. Os jornalistas continuam no X, mesmo reclamando diariamente e jurando que vão cancelá-lo, porque, afinal, continua a ser por lá que as fontes falam primeiro e onde os políticos anunciam decisões.
Uma câmara de eco difícil de ignorar
Há também uma questão de percepção ideológica: um estudo de Maio de 2025 do Pew Research Center concluiu que a adopção da Bluesky está fortemente concentrada à esquerda do espectro político. Para muitos europeus fora de círculos altamente politizados, a Bluesky parece uma rede social americana para progressistas americanos irritados com Donald Trump e Elon Musk. Não é propriamente um convite universal para seguir futebol, cultura pop ou notícias locais.
Este enquadramento não surgiu do nada: o maior pico de crescimento ocorreu logo após as eleições presidenciais norte-americanas de Novembro de 2024, quando a actividade nos EUA aumentou cerca de 500%. Foi uma fuga reactiva ao X, motivada por factores políticos e emocionais. Não foi crescimento orgânico sustentado por uma proposta de valor clara. E fugas políticas raramente constroem plataformas duradouras.
A geografia conta a história toda
A distribuição geográfica do tráfego da Bluesky é revela que em Julho de 2025, os Estados Unidos representavam cerca de 50% do tráfego total. Seguiam-se Japão, Reino Unido, Alemanha e Brasil. A Europa, somada, não chega a 15%. Um único país, o Japão, ultrapassa qualquer nação europeia individualmente.
Mais curioso ainda é o mapa linguístico, pois existem comunidades visíveis em inglês, japonês e português brasileiro. Falta quase tudo o resto. Não existe uma comunidade francesa forte, nem alemã, espanhola ou italiana com peso semelhante ao que existia no Twitter. Para uma plataforma que aspira a ser global, esta ausência faz mossa.
O problema central dos efeitos de rede
No fundo, tudo se resume ao mesmo ponto: as redes sociais vivem e morrem por efeitos de… rede. Sem utilizadores activos, não há conteúdo e sem conteúdo relevante, não há utilizadores activos.
A maioria das pessoas entra durante um pico mediático, procura quem já seguia noutras plataformas, não encontra essas pessoas e nunca mais volta. Sem amigos, colegas, fontes ou criadores relevantes, qualquer rede social transforma-se rapidamente num deserto bem desenhado.
Tecnicamente, a Bluesky tem mérito: o AT Protocol é interessante, a descentralização é real e não apenas discurso de marketing, e os feeds personalizáveis são uma boa ideia. Mas nada disso substitui gente a usar a plataforma todos os dias.
Bluesky frente à concorrência real

Para um utilizador português ou europeu, a pergunta é simples: porque usar a Bluesky em vez do X ou do Threads (que também perdeu muito do gás inicial). A resposta, para a maioria, é pouco convincente: o X mantém a massa crítica e o Threads oferece integração imediata com o Instagram, evitando começar do zero.
No outro lado da moeda, a Bluesky oferece controlo algorítmico e descentralização. São argumentos relevantes para programadores e entusiastas tecnológicos, mas irrelevantes para quem só quer acompanhar notícias, desporto ou conversas informais. A complexidade técnica, que poderia ser um trunfo, torna-se uma barreira.
Turismo digital não cria comunidades
Triplicar contas registadas enquanto os utilizadores activos caem mês após mês não é crescimento saudável, é “turismo digital”. As pessoas visitam, não se instalam e regressam ao sítio de onde vieram.
Sem ferramentas profissionais maduras, sem analytics relevantes, sem modelos claros de sustentabilidade, sem criadores e jornalistas a apostar seriamente na plataforma, a Bluesky entra num ciclo vicioso: não há conteúdo porque não há audiência. Não há audiência porque não há conteúdo. O sistema fica preso.
Em suma
A Bluesky não está apenas a demorar a crescer: está a mostrar que nasceu demasiado dependente de um contexto político americano específico, confundindo um momento emocional com uma mudança estrutural de comportamento digital e, como é normal, fora desse contexto, a proposta perde força.
Complexo para utilizadores comuns, descuidado face à regulação europeia, sem massa crítica suficiente e marcado por uma percepção de câmara de eco ideológica, a Bluesky enfrenta o problema clássico das redes sociais: precisa de utilizadores para atrair utilizadores, mas os que chegaram primeiro não ficaram.
Entretanto, o X continua disfuncional mas central, e o Threads cresce de forma silenciosa apoiado numa base instalada gigantesca, enquanto a Bluesky fica como mais uma alternativa bem-intencionada que confundiu barulho mediático com adopção real. Os números de registo impressionam em comunicados, mas os utilizadores activos em queda contam a história verdadeira.





