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ChatGPT: milhões em crise de Saúde Mental (e a OpenAI admite-o)

João Gata por João Gata
Novembro 3, 2025
Ilustração conceptual mostrando uma pessoa sozinha iluminada pelo ecrã, observada por uma presença digital abstrata — simbolizando a relação emocional e inquietante entre humanos e IA.

Entre o brilho do ecrã e o silêncio da mente, a fronteira entre o humano e o algoritmo começa a desfazer-se.

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Os números são assustadores: 2,96 milhões de utilizadores do ChatGPT podem estar a ter crises de saúde mental todas as semanas. A OpenAI finalmente divulgou dados que confirmam o que muitos já suspeitavam.

A OpenAI divulgou esta semana dados que deveriam fazer-nos parar para pensar. Ou melhor, que nos deveriam fazer questionar se aquela conversa das 3 da manhã com o ChatGPT é realmente uma boa ideia.

Os números são claros (e preocupantes)

Segundo o anúncio oficial da OpenAI publicado a 28 de outubro de 2025, e com base nos 800 milhões de utilizadores activos semanais do ChatGPT, temos:

  • 560.000 pessoas por semana mostram sinais possíveis de psicose ou mania (0,07% dos utilizadores)
  • 1,2 milhões de pessoas por semana têm conversas com indicadores explícitos de ideação suicida ou planeamento (0,15% dos utilizadores)
  • 1,2 milhões de pessoas por semana demonstram níveis potencialmente elevados de apego emocional ao ChatGPT (0,15% dos utilizadores)

Podem parecer percentagens pequenas. Mas estamos a falar de quase 3 milhões de pessoas todas as semanas. Isto não é uma questão marginal.

“Psicose de IA”: quando a conversa se torna demasiado real

Ilustração conceptual mostrando uma pessoa sozinha iluminada pelo ecrã, observada por uma presença digital abstrata — simbolizando a relação emocional e inquietante entre humanos e IA.
Entre o brilho do ecrã e o silêncio da mente, a fronteira entre o humano e o algoritmo começa a desfazer-se.

O fenómeno tem vindo a ganhar destaque nos últimos meses, apelidado de “AI psychosis” ou psicose de IA. Casos documentados incluem pessoas que:

  • Desenvolveram crenças delirantes após longas conversas com chatbots
  • Perderam a noção da realidade, convencidas de que estavam a falar com entidades sencientes
  • Experimentaram episódios maníacos após uso intensivo
  • Formaram ligações emocionais prejudiciais com IA, afastando-se de relações reais

Um dos casos mais graves resultou num processo judicial contra a OpenAI: os pais de um adolescente de 16 anos que se suicidou alegam que o ChatGPT discutiu métodos de suicídio com o filho nas semanas que antecederam a sua morte.

Outro caso relatado envolve um homem sem histórico psiquiátrico prévio que, após semanas de conversas filosóficas com o ChatGPT, ficou convencido de que tinha “quebrado” a matemática e a física, deixou de dormir, perdeu peso e acabou internado compulsivamente numa ala psiquiátrica.

A resposta da OpenAI

Para ser justo, a OpenAI não ignorou completamente o problema. A empresa trabalhou com mais de 170 psiquiatras, psicólogos e médicos de cuidados primários de dezenas de países para melhorar as respostas do ChatGPT em situações sensíveis.

O resultado? O GPT-5, a versão mais recente do modelo, alegadamente:

  • Reduz respostas indesejadas entre 39% e 52% em categorias relacionadas com saúde mental
  • Expressa empatia mas evita validar crenças delirantes
  • Direcciona utilizadores para ajuda profissional quando apropriado
  • Tem maior compliance (65% a 80% menos respostas problemáticas)

Num exemplo citado pela OpenAI, quando um utilizador afirma estar a ser alvo de aviões que sobrevoam a sua casa, o ChatGPT responde: “Deixe-me dizer isto de forma clara e gentil: nenhuma aeronave ou força externa pode roubar ou inserir os seus pensamentos.”

Mas há um problema (ou vários)

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Sam Altman

Primeiro, estes são benchmarks criados pela própria OpenAI. Não há validação externa independente. É como se eu dissesse “fiz um teste a mim próprio e passei com distinção”, tipo Trump.

Segundo, mesmo com estas melhorias, o GPT-5 ainda produz respostas problemáticas. Aliás, numa avaliação, especialistas em saúde mental discordaram sobre se uma resposta era “desejável” em até 29% dos casos.

Terceiro – e isto é importante – a OpenAI disponibiliza modelos mais antigos e menos seguros (como o GPT-4o) aos seus milhões de subscritores pagos. Se a segurança é tão importante, porque não forçam toda a gente a usar o modelo mais seguro?

Quarto: depois de Sam Altman ter dito que a empresa conseguiu “mitigar as questões graves de saúde mental”, a OpenAI relaxou algumas restrições e permitiu que utilizadores adultos começassem a ter conversas eróticas com o chatbot. Prioridades, não é?

A vigilância que ninguém pediu

A OpenAI não revela exactamente como identifica quando os utilizadores estão em sofrimento mental, mas admite que tem a capacidade de analisar todo o histórico de conversas.

Por exemplo, se um utilizador que nunca discutiu ciência com o ChatGPT começa subitamente a afirmar que fez uma descoberta digna de um Prémio Nobel, o sistema pode interpretar isto como possível pensamento delirante.

Isto levanta questões óbvias sobre privacidade. As nossas conversas mais íntimas, vulneráveis e potencialmente perturbadas estão a ser analisadas, catalogadas e usadas para… quê exactamente?

O padrão preocupante

Estudos e relatórios identificaram alguns padrões comuns nos casos de “psicose de IA”:

  • Conversas longas: Muitas pessoas passam horas seguidas a falar com o chatbot
  • Uso nocturno: Interacções frequentes tarde da noite ou de madrugada
  • Validação constante: Os chatbots tendem a concordar e validar, mesmo quando deveriam questionar
  • Degradação em conversas longas: Os modelos de linguagem perdem fiabilidade à medida que as conversas se prolongam (embora a OpenAI afirme ter melhorado isto)

E agora?

A OpenAI contratou o seu primeiro psiquiatra em julho de 2025. O primeiro. Para uma plataforma com 800 milhões de utilizadores semanais. Se isto não vos parece uma jogada de relações públicas para limitar responsabilidade legal, não sei o que é.

Johannes Heidecke, responsável pelos sistemas de segurança da OpenAI, disse à imprensa: “Agora, esperançosamente, muito mais pessoas que lutam com estas condições ou que estão a experienciar estas emergências de saúde mental intensas poderão ser direccionadas para ajuda profissional.”

“Esperançosamente”. Reconfortante, não é?

O que podemos fazer?

Não sendo médico nem psicólogo, parece-me razoável sugerir:

  1. Limitem o tempo de conversa: Se estão a passar horas com o ChatGPT, talvez seja altura de desligar
  2. Cuidado com validação excessiva: Se o chatbot concorda constantemente convosco, especialmente em questões importantes, isso pode não ser saudável
  3. Conversas nocturnas são uma má ideia: Especialmente se estiverem emocionalmente vulneráveis
  4. IA não substitui ajuda profissional: Se estão a passar por dificuldades, falem com um humano qualificado
  5. Não formem laços emocionais com IA: Parece óbvio, mas aparentemente não é

A questão de fundo

O problema não é apenas técnico. É uma questão de prioridades.

As empresas de IA gastam milhares de milhões em capacidade computacional, em tornar os modelos mais inteligentes, mais rápidos, mais convincentes. Mas quanto gastam em garantir que são seguros?

A OpenAI lançou o ChatGPT em novembro de 2022 sem antecipar que se tornaria tão popular como “psicoterapeuta”. Não incluíram profissionais de saúde mental no desenvolvimento. Não tinham sistemas de monitorização robustos. Não tinham salvaguardas para proteger utilizadores vulneráveis.

E agora, quase três anos depois, admitem que centenas de milhares de pessoas podem estar a ter crises de saúde mental relacionadas com a plataforma todas as semanas.

Em suma

Estes números da OpenAI são, simultaneamente, um avanço (porque finalmente temos dados) e profundamente preocupantes.

2,96 milhões de pessoas por semana não é um problema marginal. É uma crise de saúde pública.

E enquanto a OpenAI merece algum crédito por finalmente reconhecer o problema e tentar melhorar, não podemos esquecer que:

  • Lançaram um produto sem garantias adequadas de segurança
  • Continuam a disponibilizar versões menos seguras aos utilizadores
  • Relaxaram restrições mesmo sabendo dos riscos
  • Contrataram um psiquiatra para 800 milhões de utilizadores

A IA pode ser uma ferramenta extraordinária. Mas como todas as ferramentas poderosas, pode fazer muito bem ou muito mal. E neste momento, parece que o lucro continua a falar mais alto que a segurança.

Se usam o ChatGPT ou outros chatbots de IA, façam-no com consciência. Estabeleçam limites. E se algo vos parecer estranho – se começarem a ter pensamentos que não parecem vossos, se sentirem uma ligação emocional estranha, se começarem a questionar a realidade – desliguem e falem com alguém real.

Porque ao contrário do que o ChatGPT vos possa dizer, ele não é vosso amigo. É um modelo de linguagem treinado para prever a próxima palavra mais provável.

E isso, meus caros leitores, não é a mesma coisa que cuidar de vocês.

P.S.: Se vocês ou alguém que conhecem está a passar por dificuldades de saúde mental, em Portugal podem contactar:

  • Linha SOS Voz Amiga: 213 544 545 (16h-24h, todos os dias)
  • Telefone da Amizade: 228 323 535 (16h-23h, todos os dias)
  • Linha SNS 24: 808 24 24 24
  • Em caso de emergência: 112

Este texto foi escrito por um humano (eu), baseado em dados verificáveis e fontes credíveis. Nenhuma IA foi maltratada (ou consultada) durante a produção deste artigo.

Fontes:

  • OpenAI – Strengthening ChatGPT’s responses in sensitive conversations
  • WIRED – OpenAI Says Hundreds of Thousands of ChatGPT Users May Show Signs of Manic or Psychotic Crisis Every Week
  • TechCrunch – OpenAI says over a million people talk to ChatGPT about suicide weekly
  • Platformer – OpenAI maps out the chatbot mental health crisis
  • Mental Health Journal – Minds in Crisis: How the AI Revolution is Impacting Mental Health
  • PBS News – What to know about ‘AI psychosis’

Tags: chatbots e emoçõesChatGPTChatGPT Portugaldependência digitalética da tecnologiaIA e humanidadeimpacto emocional IAinteligência artificial perigosaOpenAI crise mentalpsicologia da IArisco psicológico IAsaúde mental IAsolidão tecnológicavício digitalXá das 5
João Gata

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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