
in Metropolis #11
COPIAR É A NOVA CRIATIVIDADE?
É uma questão deveras complicada. De um lado temos a maior parte dos autores que não admitem ver copiadas as suas obras (e muito menos modificadas), por outro uma menor percentagem dos mesmos que não querem saber das suas peças depois de as concluírem, pois o que quiseram exprimir está feito. Ainda existe outro lado que são os autores que não conseguem perceber como se proteger porque nos seus países as instituições que os defendem são de fachada, e tenho a certeza que ainda existem muitos mais lados para outros tantos autores individuais ou colectivos.
Uma coisa é certa, os egos ficam mais inflamados e as vozes fazem-se ouvir quando alguém defende o contrário do que é o direito autoral e que modificar parte da obra é também uma expressão criativa. Esta é uma luta actual, está muito acesa e inflama plateias reais ou digitais a que convém, pelo menos, estar atento ou consciente.
Ao utilizá-la, seremos co-autores, difusores ou modificadores da obra? E essa percentagem de expressão não será também arte e, por conseguinte, não deverá estar sujeita aos mesmos direitos autorais que a peça original?
Mélanie de Rosnay (investigadora no CNRS e elemento fundador da Internacional Comuna e da Creative Commons France) que participou nas palestras Warm Up do Festival In que aconteceram no final de Maio em Lisboa, defende que a “possibilidade de copiar, difundir e modificar obras é uma oportunidade para uma maior diversidade cultural e da expressão criativa”. Clama ainda por alterações legislativas para autorizar a partilha ou modificação criativa, toda uma nova forma de pensar e defender a propriedade intelectual. São propostas fortes que visam criar um novo sistema de remuneração e implementação de um modelo alternativo de negócio a que já chamam Freemium (combinação de utilizações gratuitas com outras pagas com uma taxa). Mas não é uma fuga para a frente, ou seja, abanar uns tostões para que o autor assine o acordo, visto que “mais vale um cheque na mão que dois a voar”?
A questão é muito melindrosa e de fundo, pois para se copiar ou modificar uma peça, ela tem de existir primeiro e não fosse o Homem um bicho que sonha sempre mais alto que a sua sombra e que tem um impulso de querer deixar marca, rasto, história ou um nome, há muito (por motivos pura e simplesmente económicos) que já se teria deixado de criar “arte”, pois em 99% dos casos não alimenta ninguém.
Mas eis que surge outra questão: somos únicos ou embustes, originais ou trapaceiros? É que a nossa própria imagem está baseada em obras que não foram criadas por nós. Ou a apropriação de músicas, fotografias, deixas, livros, filmes, pinturas, anedotas, expressões, cores, sabores, e tudo o mais que todos os outros criaram ao longo dos tempos, são exactamente a mais profunda e original co-autoria, difusão e modificação de um conjunto de obras que soltas valiam por si, mas encaixadas na nossa personalidade constroem toda uma pessoa?
E é essa pessoa mais importante que uma obra ou é apenas o resultado manipulado e alterado de um conjunto delas e, sendo assim, apenas uma “reles” cópia e não um “valorizado” original? Pior, e se nos copiam a personalidade?
Deixemo-nos de coisas: quando o espermatozoide fecunda o óvulo, mistura-lhe dois ADNs que, dizem, são o resumo das melhores características dos nossos progenitores. Portanto, ao nascer já somos manipulados, valorizados, cópias remasterizadas.
Resta-nos apenas adicionar-lhe uma pitada de originais, que vão até sendo substituídos ao longo da vida e das modas, e fazê-los nossos o que é, tão simplesmente, a nossa própria expressão criativa e, portanto, um perfeito e único reoriginal.





