Um dia vamos vestir burkas…
e envolvermo-nos em plástico metalizado.
O que temos sempre na mão para atender e fazer telefonemas? Um smartphone, na maior parte dos casos, não é? E este aparelho serve também para tirar fotografias, filmar, encontrarmos uma rua através do GPS, um serviço, uma loja, checarmos as nossas várias caixas de email, utilizar aplicações fantásticas, algumas profissionais, e jogar, por exemplo, Angry Birds.
Ora é exactamente a partir do Angry Birds que James Glanz, Jeff Larson e Andrew W. Lehren escreveram uma peça para o New York Times que me chamou ainda mais a atenção para este drama, ainda não totalmente perceptível, que é a utilização e o conhecimento de todos os nossos dados e vida, violados e guardados a cada segundo, pelas mais famosas agências “secretas” e de segurança do mundo para além daquelas que ninguém conhece mas alguns sussurram.
Começa a peça (matéria, no Brasil) afirmando que estas agências conseguiram criar códigos que lhes fornecem todos os dados sobre onde estamos, a que horas e com quem. E isto enquando atiramos pássaros enfurecidos contra porcos esverdeados. Atenção, não é um sub-código ou porta do ou no jogo, mas sim algo mais complexo e que está presente em… qualquer jogo ou aplicação. Esta realidade foi-lhes, aos autores da peça, assobiada pelos Serviços Secretos Britânicos. “Dizem” eles, ou variadíssimos documentos entretanto apanhados, que a cada nova geração de smartphones, mais “Leaky Apps” são reforçadas e mais dados são capturados. Algumas destas Apps estão activas desde 2007 e nada, neste momento, está a salvo. Tudo o que colocamos nas redes sociais, tudo o que pesquisamos no Google, em suma, tudo o que fazemos em Mobile é facilmente apurado.
E em casa também.
Logicamente que todos nós, mais atentos, sabemos disto. Mas uma coisa é pensar que acontece aos outros, outra é perceber, finalmente, que nós somos os outros e que estamos a ser, pura e simplesmente, violados no nosso foro profissional e pessoal. E o pior? Nós é que damos toda a licença, ao aceitar sem ler a maior parte dos contratos (de letra pequenina), mas neste campo minado até isso é de somenos importância. Ficamos assustados e revoltados, não é? Mas e se nesses mesmos documentos vem escarrapachado que as agências filtram os dados para ficar a saber também as nossas preferências e orientação sexuais, para além das simpatias politico-partidárias? Ui…
Já durante este mês de Janeiro, o presidente norte-americano anunciou medidas que restrigem estas acções e são defensoras da privacidade dos cidadãos, ao mesmo tempo que se preocupa com a informação colectada pelas agências de comunicação e publicidade. Mas estas defendem-se garantindo que o fazem para criar conteúdos, aplicações e tudo o mais que satisfaçam pessoalmente cada cliente, ou seja, a famosa designação “tailored-size” (feito à medida) que abre todas as portas e tudo ultrapassa em… nosso nome e para nosso bem.
Ok. Sabemos de tudo isto, o Snowden Gate está longe de terminar (e acreditamos que foi só ele que desviou informação?), mas a questão é que, quanto mais nos apercebemos deste fluxo informativo numa única direcção, começamos a ser censores de nós próprios sem nos apercebermos. No nosso íntimo, sabemos que, afinal, estamos a expor-nos cada vez que utilizamos uma qualquer App, já para não mencionar o GPS e os serviços de mapas. Trememos só de pensar que, afinal e à distância, um malandreco com alguns conhecimentos informáticos pode ligar a câmara do nosso computador portátil ou tablet, apagando a luz que informa o estado activo. Conhecemos, diariamente, alguém que foi lesado por um erro informático ou que foi roubado através da banca online. Trancamos cada vez mais portas, mas esquecemo-nos de fechar a janela que temos aberta para o mundo.
Num repente, os próprios televisores têm internet, estando ligados permanentemente ao modem lá de casa, já para não mencionar as mais modernas consolas de jogos que obrigam a essa ligação. O 4G e a fibra ajudam, e muito, a que integremos todos os nossos equipamentos num ambiente controlado (também por nós) e sem fios, o ideal de qualquer pessoa que goste de decoração. Mas à medida que nos vamos deixando prender por toda esta rede invisível, é-nos cada vez mais difícil dela sairmos pois somos fascinados por tecnologia e os seus avanços. Os óculos com câmara estão aí para podermos filmar cada passo que damos e cada pessoa que encontramos. Os relógios inteligentes também. A roupa conectada já em preparação…
Enquanto isso, a NSA quadriplicou a verba para este departamento informativo. E esse é um dado oficial que, sabemos, nunca o verdadeiro.
A questão é simples: quando chegaremos à conclusão que somos prisioneiros do outrora sonho digital? Quando lhe percebermos o pesadelo e nos tornarmos censores dos amigos? Quando tivermos medo de pronunciar as siglas das agências “secretas”? Quando o “manter o low profile” reacordar pesadelos do passado ou, ironia das ironias, passarmos a vestir Burka para despistarmos as câmaras de vigilância e reconhecimento de rosto, multiplicadas anualmente em todas as cidades principais?
“Opá, Burka? Já é um bocadinho para lá de Bagdad, ó Xá…”
Pois… é por isso que o artista nova iorquino Adam Harvey já trabalha em moda anti-vigilância e a sua, enfim, nova colecção, denomina-se “Stealth Wear“. E como podem ver pelo vídeo, não há diferença alguma entre o capote e uma burka…






