“Going Underground” foi o mote do mais recente evento da Kaspersky, um Press Tour que aconteceu em Londres na penúltima semana de Junho.
O Xá das 5 foi o meio de comunicação português exclusivo presente neste mega e intensivo curso sobre “Cyber Self Defence”.
Sabemos que estamos a ser constantemente vigiados e, de dia para dia, vêm a lume mais notícias sobre invasão de privacidade, roubo de dados, software que capta a identidade dos nossos contactos, somos alertados para o imenso negócio que está por trás de toda esta realidade e, mesmo assim, continuamos alegremente a fornecer os dados mais pessoais, tanto em inquéritos que oferecem qualquer merchandising, como no preenchimento de coisas tão simples como os cartões de desconto que todas as lojas têm hoje em dia. E reparem, fica tudo registado online bem à nossa frente.
Acumule-se tudo isto ao grande e real perigo do malware cada vez mais intrusivo e que segue todas as nossas pesquisas online, gravando os sites que frequentamos, as vezes que por lá passamos, as músicas que ouvimos e as marcas que nos encantam, para citar exemplos. Não é novidade para ninguem ser inundado por pop-ups e banners que, curiosamente, nos mostram lojas que vendem o produto que estivemos minutos antes a procurar. Coincidência? Também não é por acaso, que os sistemas que nos facilitam de forma automática a vida (tradutores, correctores, preenchimento de palavas ou até frases) são os mesmos que nos aprendem os hábitos e, agora que quase meio mundo sabe o que é um algoritmo, apreendem as vontades.

O painel Kaspersky (na foto) não foi brando nas suas apresentações. Muito pelo contrário. Aliás, se vos disser que no fim do dia e durante o jantar que terminou a acção, só se falava do que se ouviu e apreendeu, não estou a exagerar. No meu canto um espanhol, uma malaia, um sul-africano e um mexicano, discutiam comigo as soluções avançadas (ou aconselhadas) para nos esquivarmos a toda esta moderna perseguição. A resposta era o mote desta aventura: “going underground” e mesmo assim com muitos cuidados.
Um dia bastou para ficar a saber como nos entram nos computadores, como controlam os nossos smartphones, como nos perseguem os hábitos, como nos filmam os passos, como nos gravam as conversas, como fotografam quem está connosco, como…
A nossa impressão é mesmo digital, deixa marca e apagá-la é uma tarefa quase impossível
Mas as questões são bem mais complexas do que pensamos. Afinal quem nos espia, a troco de quê e a mando de quem? Talvez não saibam, mas os grupos de ciber-criminosos, spy-terrorists, hackers ou o que lhes quiserem chamar não são, muitas vezes, os autores do crime mas sim quem fornece a fórmula ou a chave para que uma terceira parte o cometa.

Qualquer governo endinheirado pode aceder à democratização da espionagem e “comprar possibilidades” para atacar objectivos bem definidos. E este sim, é o nosso problema!
O The Hacking Team é um dos mais poderosos e sofisticados grupos de malfeitores digitais, têm um preço, um vasto mercado de potenciais clientes e até apresentam uma “customer policy”. Ficamos cientes que não vendem a pessoas singulares nem a países “red flag”, um alívio, portanto.
Os activistas são os novos alvos, como a destemida Ala’a Shehabi
Mas não actuam sozinhos. Muitos jornalistas foram atacados durante o movimento 20 de Setembro pelos hackers Mamfakinch, sediados em Marrocos mas com uma rede internacional bem montada. O software usado nessa acção foi publicitado pelos próprios hackers e o governo marroquino apressou-se a utilizá-lo, logicamente mediante um alto preço.
A cada dia que passa, são cada vez mais os jornalistas espiados por regimes estrangeiros. Para citar um exemplo, e através de software programado pelo The Italian Job, jornalistas europeus em solo norte-americano estão a ser seguidos a cada segundo. Eles sabem-no, nós ficámos a saber.
Método
Não é difícil perceber quem é quem nestas coisas. Por exemplo, a assinatura do The Hacking Team é fácil de descobrir nas imagens que enviam. Mais difícil é saber onde estão. Por exemplo, refugiam-se numa blindagem digital em destinos com mais de 4 biliões de entradas. Como encontrar a agulha neste palheiro, ou seja, como descobrir os servers que alojam os membros e os seus imensos dados?
A Kaspersky, assim como outros, movem uma perseguição tipo gato e rato, e conseguiram já elaborar um mapa de actuação e de países que albergam as suas sedes.
Qualquer cidadão, normalmente agente de alguém, consegue facilmente através de uma normalíssima ligação à internet, comprar os serviços em qualquer destas sedes. E situações mais extraordinárias têm vindo a acontecer debaixo dos nossos narizes, como países sem tanto poderio tecnológico, alugarem os serviços técnicos de outros países mais poderosos.
Simples, não é?
E nós? Nós somos… os alvos! Assim, tão simplesmente. Não precisamos de ser jornalistas, mas como qualquer um pode ter uma opinião e torná-la pública, quiçá até unir alguns amigos e começar um “movimento”, temos de ser controlados. Gravados. Perseguidos.
O problema é que sabemos, deixamos e até oferecemos os dados mais pessoais, seja nas redes sociais, nos cartões de desconto das lojas, no GPS do carro, nas fotografias em que “tagamos” os amigos num certo local a determinada hora, ou seja, damos de bandeja tudo o que os países ou agências querem obter.
Os nossos próprios equipamentos já trazem, de raíz, instrumentos de vigilância. Os casos recentes em que políticos foram gravados pela App LiveMic de um iPhone, são a ponta de um enorme iceberg.
Há formulários e manuais de instrução pela net que nos ensinam a instalar software, ligar microfones e câmaras de computadores e tudo o mais.
É daqueles que já tem paranóia, porque ouviu uma história de alguem que foi filmado pelo próprio computador sem saber, e colocou fitacola por cima da câmara do laptop? Fez bem. Mas tapou a câmara do smartphone? Ah, pois é…
Os implantes
A cada segundo que passa, mais uma pessoa comprou um telemóvel com capacidade de ligação à net. Esta pessoa passa imediatamente a ser um alvo.
Mobile Implant I
A Kaspersky apontou inclusive alguns dados que, se me apercebi, confirmam que os primeiros implantes de vigilância são colocados através da própria App do iTunes. O Dropbox também usa uma qualquer artimanha.
Um “truque” simples, invisível e que, por exemplo, ajuda o governo saudita a apanhar dissidentes no aeroporto.
Mobile implant II
Quase todas as funções de um smartphone podem ser usadas para fins ilícitos. Livemic para gravar conversas, Whatsapp para gravar textos, e tantos etc. Afinal, o sistema iOS que a Apple vende como o menos vulnerável a este tipo de coisas, é um dos mais hackeados.
E são os próprios utilizadores que, ao fazer o Jailbreak do próprio telefone, abrem a porta e convidam quem não desejam ter “em casa”. Com o Jailbreak, acabam-se as actualizações de segurança que ainda nos protegem de muitos ataques. Uma vez essa linha de defesa em baixo, tudo o resto é um castelo de cartas.
Jailbreak is a no go, como bem se sublinhou na conferência.
E os BlackBerry? Têm um executável que permite ao hackers acesso imediato, também criado pelo The Hacking Team.
Windows? Basta olhar o quadro acima…
Após o “problema” Snowden, muitos governos foram colocados em cheque, assim como as operadoras locais (ou globais). Afinal, é ilegal instalar uma App sem nosso conhecimento para registar toda a nossa vida.
A própria forma de vigilância está ultrapassada e os agentes de fato escuro já não existem. Com total acesso aos nossos telefones e computadores pessoais, já não é necessária a colocação de aparelhos gravadores dissimulados atrás dos quadros ou dentro dos candeeiros. Tudo é feito à distância de um… clique. E vem nos filmes.
Para ler o Segundo Artigo sobre este tema clicar na foto














