O dia 17/08 fica para sempre associado para a Huawei como mais uma batalha perdida. Guardei a análise do Huawei P40 Pro para este momento
O dia 17 de Agosto era importante para a Huawei devido ao anúncio do endurecimento das sanções norte-americanas e, confesso, esperei por elas para escrever sobre os dias que tive para usar a coqueluche Huawei P40 Pro, um dos mais notáveis smartphones da actualidade mas que se apresenta sem um dos principais atributos para os utilizadores Android, ou seja, todas as aplicações Google.
Ora o dia 17 chegou e com ele a confirmação do que se “temia” (e já lá vou às aspas): a administração norte-americana, encabeçada pelo sr. Trump e através do Departamento de Comércio, vai agravar as sanções contra a Huawei e 18 das suas subsidiárias, impedindo-lhes o acesso a tecnologia norte-americana.
Sabemos que muito se deve ao atraso norte-americano em relação à tecnologia 5G e a acusações são fortes, principalmente através de um dos muitos porta-voz de Trump: Mike Pompeo afirma que a Huawei é “um braço armado da vigilância do Partido Comunista Chinês e uma ameaça à privacidade dos cidadãos e à integridade das infraestruturas 5G”.
Ok, já sabíamos de tudo isto, e que o conflito EUA vs China tende a agravar-se de dia para dia, mas Trump mistura alhos e bugalhos com o famoso conceito desnorteado do “vírus chinês” que, afinal e por culpa própria, tem sido muito mais nefasto para os cidadãos que diz, afinal, proteger.
O mundo contra a Huawei
Esta guerra sem quartel vai fazer mossa à marca e aos seus objectivos comerciais, pois os aliados dos norte-americanos prontamente assinaram a cartilha e vão proibir a venda de equipamentos da marca, como o Reino Unido já a partir do final deste ano. Por muito que a marca afirme que nunca vendeu tanto, na verdade os números apontam para um decréscimo de 5% nas vendas o que até se pode considerar ténue. Mas o problema maior virá com a tal proibição que se avizinha.
As “aspas” entram aqui, pois há quem entenda a posição de Trump e acredite que o governo chinês usa tecnologia com propósitos menos, enfim, legais. Mas há quem acuse as marcas norte-americanas, principalmente a Alphabet através da Google, as redes de Zuckemberg e a própria Apple, de fazer exactamente o mesmo.
Uma coisa é certa, os dados estão viciados e mais que lançados, tudo o que pensamos nosso já é de todos, mediante um pagamento que visa a utilização de contactos, gostos, hábitos e até ideais para nos venderem o que querem vender (desde shampôo a partidos políticos).
A Huawei contra o mundo
A marca chinesa, e as suas afiliadas, têm conseguido manter a chama viva com alguns truques de marketing e noção do que ainda é legal, ao lançar em catadupa modelos recentes com designações passadas. Mas não chega, como é lógico, e a desconfiança vai-se instalando.
Mas não se pense que a quebra de vendas da Huawei significa uma retoma percentual da Samsung e da Apple, as principais concorrentes.
Os resultados são muito diferentes do que se pensaria e ambas as marcas também viram as suas vendas descer. Pode ser da pandemia, pode ser do desinteresse, pode ser de muitos factores como o surgimento de mais e melhores concorrentes que já fazem sombra nas gamas baixa e média.
E, claro, nem se fala do 5G, estruturas que necessitam do apoio dos governos para serem uma realidade em cada país. E quem não se lembra da vinda de emissários norte-americanos para exigir de António Costa uma mudança de planos, mesmo com contratos (valentes) assinados anteriormente com a Huawei?
Os chineses têm tempo, dinheiro e paciência
A verdade é que a Huawei está a vender cada vez mais… dentro de portas, a sua loja de aplicações cresce de dia para dia, o sistema operativo próprio está a começar a ser instalado em televisores e demais equipamentos e, daqui a uns tempos, iremos assistir ao nascimento de um verdadeiro adversário ao status quo ocidental.
Será que esta guerra foi uma boa ideia?
Para já, sim. Os EUA conseguiram travar a produção dos processadores Huawei denominados Kirin e que concorriam directamente com os Qualcomm e etc. Porquê? Porque a divisão HiSilicon da Huawei escolheu software norte-americano (Cadence Design, Synopsys) e fabrica-os na Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. que, independentemente de ser em Taiwan, utiliza equipamento norte-americano. E é assim que se faz acontecer.
E, agora, em que ficamos?
Vale a pena comprar os topos de gama Huawei?
Pois esta é a verdadeira questão para quem sempre foi fã dos topos de gama da marca, máquinas admiráveis, mas que ultimamente já surgiram no mercado sem os serviços Google.
E foi para tirar teimas que pedi um Huawei P40 Pro que me foi entregue um par de semanas.
Huawei P40 Pro, uma máquina estrondosa
O P40 Pro ganhou vários prémios desde que surgiu, rebentou a escala da qualidade fotográfica, e culminou esta semana com os galardões EISA 2020/21 para “melhor câmara de Smartphone” e “Melhor Smartphone” do ano, autocolantes que fariam milagres no linear e nas lojas online mas cuja importância é rasgada pelo que se está a passar.
Como utilizador Android que sou desde que o Windows Phone “faleceu”, parti para a análise com um misto de entusiasmo e receio.
O sorriso deve-se ao potencial imagético do, para todos os efeitos, telefone, quando se apresenta equipado com um sistema de quatro câmaras Leica, uma delas Ultra Vision de 50MP com detecção de autofoco, estabilização óptica de imagem, outra uma lente telescópica de 12MP que permite um zoom óptico de 5x e digital até 50x.
Ainda contamos com uma Ultra Grande Angular de 40MP e ainda uma lente ToF de profundidade 3D para uma eficaz profundidade de campo.
No vídeo temos várias possíbilidades de gravação: 2160p/1080p/720p a 30/60fps com HDR e GyroEIS.
Para as selfies contamos com uma dupla 32MP (f2/2) e grande angular 26mm e ToF por infravermelhos. O vídeo pode ser captado a 2160p a 30 ou 60fps ou a 1080p a 30fps.
Se no papel estes valores prometem resultados comparáveis a uma câmara fotográfica clássica, há que contar ainda com a intervenção e melhoramento de todo um processo de inteligência artificial.
E quanto à captação de imagens e vídeo durante a noite ou em espaços pouco iluminados, o P40Pro continua e melhora os incríveis e quase mágicos resultados que “da noite se fazem dia”.
O coração
Já se sabe que a máquina é baseada num processador próprio que agora corre o risco de ter os dias contados, mas há que dizer que o HiSilicon Kirin 990 5G é poderosíssimo, principalmente se aliado a 8GB de RAM. Podemos escolher o espaço de armazenamento e ainda contar com cartão de expansão (de formato próprio).
O ecrã é uma ode ao brilho e qualidade, com umas esplenderosas 6,58” OLED com 2K de resolução e taxa de actualização que podemos escolher entre 60 ou 90Hz, fazendo gala da curvatura em quatro eixos a que se chamou Overflow.
Com uma bateria de 4200mAh, bem generosa e com carregamento rápido a 40W e por indução a 27W (e como já é habitual nestes últimos modelos, também carrega outros devices compatíveis), contamos com uma tomada USB-C 3.1, sensor ID sob o ecrã e reconhecimento facial.
Mas como no melhor pano cai a nódoa, é incompreensível que este topo de gama não tenha duas colunas para um som estereofónico. Incompreensível até é amável…
O comportamento
É, de facto, uma máquina portentosa, extraordinariamente rápida, um ecrã fluído, rápido, brilhante, mas confesso, não sou fã de ecrãs que terminam curvados. Não me dão jeito, embora sejam visualmente muito atraentes. Até a própria Samsung, que começou este moda com o primeiro Edge, já entendeu dar um passo atrás nos mais recentes topos de gama, minimizando essa curvatura ou até, nas versões menos caros, eliminando-a de vez.
O EMUI 10.1 é um bom aliado ao Android 10, mas é a possibilidade de conexão integrada com os portáteis da marca que marca posição, espelhando o nosso Huawei na glória de um monitor de maiores dimensões, algo parecido com o DEX da adversária sul-coreana. Também a pensar na rival, a Huawei tem agora um sistema lateral de sub-menus e uma janela com noticiário próprio, visto que não pode contar com a Google.
E chegamos à grande questão: Google!
Usei o terminal durante vários dias como ele vem de fábrica, apostando nas soluções próprias e procurando aplicativos mais ou menos alternativos para o dia a dia. A utilização até pode ser satisfatória para quem não vive integrado no mundo online, ou que trabalhe com e nele.
Mas para quem procura mais, começam os problemas. Existem formas e fórmulas de “dar a volta” ao sistema e, confesso, para efeitos de análise, tive de fazê-lo. Mas é um processo bastante complexo, que tem de ser feito passo a passo e não está ao alcance dos mais comuns utilizadores.
Depois existe todo o mundo dos APK que são um pau de dois bicos, pois há que “abrir” o telefone a terceiros e com isso sacrificar a segurança. Se pretendem fazê-lo, procurem ajude de alguém que saiba da poda.
Por muito armazenamento que a Huawei ofereça (50GB de nuvem durante um ano, mas apenas 5GB ad eternum) e do serviço de música, o click não se dá.
É-me impossível não usar os serviços Google, principalmente o e-mail, pois é nele que tenho as contas pessoas e profissionais com reencaminhamentos e as clouds cheias de conteúdos. Se posso usar o Waze em vez do Google Maps, sim, já o faço em telefones Google, mas ter de abrir as páginas oficiais para aceder ao Youtube, por exemplo, é pouco prático.
O mundo está realmente ao alcance de um logotipo de uma app e a pressa é quem mais ordena quando todos estes processos custam tempo.
Uma excelente câmara
Temos, portanto, um smartphone de topo com todas as condições para ser um vencedor mas que acaba por nos deixar um tanto ou quanto frustrados.
E, convenhamos, pagar mil euros (grosso modo) por uma excelente câmara fotográfica que também faz chamadas, por excelente que seja (e é), é demasiado “puxado” para os problemas que adivinhamos no futuro, pois algumas das apps que abrem hoje podem não abrir amanhã.
E é uma pena, uma real pena.
Pode ser que com uma utilização prolongada, quem o escolhe encontre aplicações fantásticas que podem mitigar a falta da Google. Mas temo que com a adversidade actual, reforçada agora pelos EUA, não faça com que o P40Pro tenha o lugar que merece.





