Quando uma empresa com o tamanho da Lenovo publica resultados, há sempre números grandes. Mas o terceiro trimestre do ano fiscal 2025/26 não é apenas grande: é o melhor trimestre da história da empresa. 22,2 mil milhões de dólares de receita, todos os segmentos a crescer mais de 10% e a inteligência artificial a transformar-se no motor principal de crescimento. Não é marketing: é contabilidade.

O melhor trimestre da história da empresa chinesa: 22,2 mil milhões de dólares de receita, crescimento de 18% e inteligência artificial já a representar quase um terço do negócio global.
A Lenovo, talvez a empresa tecnológica mais completa do mundo mas paradoxalmente uma das menos glamorosas, fabrica desde computadores pessoais até servidores de centro de dados, passando por telemóveis Motorola, tablets, monitores e soluções empresariais de todo o tipo. Se calhar tens uma ThinkPad ou um IdeaPad em casa. Se calhar o teu escritório corre num servidor Lenovo. E se tens um Motorola no bolso, então já percebes do que estamos a falar.
Neste terceiro trimestre, a empresa demonstrou aquilo que os seus executivos prometem há anos: que ser grande em muitas frentes ao mesmo tempo é vantagem, não fraqueza. Quando os PCs transaccionam, os servidores de IA compensam. Quando os servidores estabilizam, os serviços crescem. É a versão tecnológica de não ter todos os ovos no mesmo cesto.
Receita por Segmento – Q3 FY 2025/26 (mil milhões USD)

Fonte: Lenovo Group Q3 FY25/26 Financial Results
Os números que importam
A receita total de 22,2 mil milhões de dólares representa um crescimento de 18% face ao mesmo trimestre do ano anterior. Mas o número que mais impressiona não é a receita bruta: é o crescimento do lucro líquido ajustado, que subiu 36% para 589 milhões de dólares.
Porquê ajustado? Porque a Lenovo fez neste trimestre uma reestruturação significativa do seu negócio de infra-estrutura, gerando encargos extraordinários de 285 milhões de dólares. Se contares esses encargos, o lucro líquido reportado caiu 21%. Mas os encargos são pontuais – o negócio subjacente é claramente mais lucrativo.
Destaques Financeiros – Comparação Anual
| Indicador | Q3 FY 25/26 | Q3 FY 24/25 | Variação |
|---|---|---|---|
| Receita Total | $22.204M | $18.796M | ▲ 18% |
| Lucro Líquido Reportado | $546M | $693M | ▼ 21% |
| Lucro Líquido Ajustado | $589M | $435M | ▲ 36% |
| Receita de IA | ~$7.100M | ~$4.130M | ▲ 72% |
| Margem Lucro Ajustado | 2,7% | 2,3% | ▲ 0,4 p.p. |
| Lucro por Acção (basic) | 4,44 ctvs | 5,66 ctvs | ▼ 22% |
“A IA tornou-se um motor de crescimento multi-anual para o Grupo, com receita relacionada com IA a crescer 72% em termos anuais, representando quase um terço da receita total do Grupo.”— Yuanqing Yang, Chairman e CEO da Lenovo
IDG: quando os PCs voltaram a ser interessantes
O Intelligent Devices Group – o negócio de PCs, portáteis e telemóveis Motorola – cresceu 14% para 15,8 mil milhões de dólares. Não é um número que cause espanto à primeira leitura. Afinal, toda a gente tem um computador. Mas o contexto é importante.
A indústria de PCs atravessou dois anos difíceis após o boom pandémico. Toda a gente comprou computador entre 2020 e 2022, e depois deixou de comprar. A Lenovo não apenas sobreviveu a esse período como saiu dele mais forte. Neste trimestre, ultrapassou 25% de quota de mercado global em PCs – algo que nenhuma outra empresa alguma vez conseguiu. É a décima vez consecutiva que ultrapassa o mercado em volume de PCs.
Crescimento por Segmento (% anual)

Fonte: Lenovo Q3 FY25/26
Quota de Mercado PC Global (%)

Fonte: Lenovo Q3 FY25/26
A Motorola teve o melhor trimestre de sempre em volume e activações de telemóveis. Os Motorola razr fold e os modelos da linha signature foram apresentados no CES de Las Vegas em Janeiro, onde a Lenovo revelou também o Qira – um assistente de inteligência artificial que funciona de forma nativa em todos os dispositivos Lenovo e Motorola, sem precisar de aplicações separadas. O Qira ganhou um dos prémios “Best of CES 2026”.
IDG – Intelligent Devices Group
| Indicador | Valor / Estado | Contexto |
|---|---|---|
| Receita IDG | $15,8B | ▲ 14% anual |
| Quota mercado PC (trimestral) | 25,2% | ▲ 1 p.p. anual |
| Quota mercado PC (anual) | 24,9% | Recorde histórico |
| PCs – crescimento receita | +17% | Apesar de escassez de componentes |
| Motorola – volume | Recorde | Melhor trimestre de sempre |
| Trimestres consecutivos acima mercado | 10 | Em volume de PCs |
ISG: os servidores que a IA precisa
O Infrastructure Solutions Group cresceu 31% para 5,2 mil milhões de dólares – um recorde. É aqui que a IA se torna mais visível: servidores de alto desempenho para treinar e executar modelos de inteligência artificial. A Lenovo tem uma carteira de encomendas de servidores de IA no valor de 15,5 mil milhões de dólares. Não é receita actual – é trabalho por facturar nos próximos meses e anos.
O número mais surpreendente do ISG é o crescimento do sistema de arrefecimento líquido Neptune, que a Lenovo desenvolve internamente para os seus servidores: cresceu 300% em receita face ao ano anterior. O porquê é simples: servidores de IA geram calor imenso. Chips como os Nvidia H100 ou H200 dissipam centenas de watts cada um, e quando tens centenas deles num único bastidor, o arrefecimento a ar tradicional simplesmente não chega. O arrefecimento líquido tornou-se componente crítico da infra-estrutura de IA.
O que é arrefecimento líquido em servidores?
Em vez de ventiladores a soprar ar frio sobre os chips, o arrefecimento líquido faz circular água (ou outro fluido) em circuito fechado directamente sobre as superfícies quentes. É muito mais eficiente: líquidos transportam calor muito melhor que ar. O sistema Neptune da Lenovo cresceu 300% em receita, reflectindo o apetite crescente por centros de dados de IA que exigem esta tecnologia.
A reestruturação do ISG – que gerou os 285 milhões de encargos extraordinários – vai na direcção certa: simplificar portefólio, focar nas áreas de maior crescimento (servidores de IA e inferência) e reduzir custos operacionais. A Lenovo prevê poupar mais de 200 milhões de dólares anuais nos próximos três anos com esta reorganização.
ISG – Infrastructure Solutions Group
| Indicador | Valor | Variação |
|---|---|---|
| Receita ISG | $5,2B | ▲ 31% |
| Pipeline de servidores IA | $15,5B | Carteira de encomendas |
| Arrefecimento Neptune | Recorde | ▲ 300% |
| Receita CSP (Cloud) | Recorde | Base de clientes em expansão |
| Encargos reestruturação | -$285M | One-off; poupança futura >$200M/ano |
SSG: os serviços que ninguém vê mas toda a gente usa
O Solutions and Services Group cresceu 18% para 2,7 mil milhões de dólares, com margem operacional acima dos 22%. É o segmento mais pequeno dos três, mas é o mais rentável e o mais consistente: este foi o décimo nono trimestre consecutivo de crescimento anual. Quase cinco anos sem uma única quebra.
O negócio de serviços geridos e soluções projectuais já representa quase 60% da receita do SSG, uma mudança significativa face a anos anteriores quando serviços de manutenção e suporte básico dominavam. Isto é importante porque serviços geridos geram receita recorrente – menos volatilidade, mais previsibilidade.
SSG – Crescimento de Receita (19 trimestres consecutivos, estimativa ilustrativa)

Fonte: Lenovo Group — 19 trimestres consecutivos de crescimento reportados
A IA como negócio, não como promessa
O que distingue este relatório da Lenovo de muitos outros relatórios de empresas tecnológicas é que a IA não é aqui tratada como visão de futuro. É tratada como receita presente. 32% da receita total já vem de produtos e serviços relacionados com inteligência artificial. São 7 mil milhões de dólares num único trimestre.
A Lenovo divide a sua estratégia de IA em três camadas: dispositivos com IA integrada (os PCs e telemóveis com capacidades de processamento local de IA), infra-estrutura de IA (os servidores ISG), e soluções empresariais de IA (o trabalho do SSG com empresas que querem implementar IA nos seus processos). É uma abordagem completa que poucos concorrentes conseguem replicar com a mesma amplitude.
O Qira, apresentado no CES, representa a aposta da Lenovo no que chama “Hybrid AI” – inteligência artificial que funciona em parte localmente no dispositivo e em parte na nuvem, sem que o utilizador precise de perceber ou gerir essa divisão. O objectivo é simples: IA que ajuda sem precisar de ser invocada, que percebe contexto sem exigir comandos.
Receita de IA vs Receita Total – Lenovo Q3 (estimativa com base nos dados reportados)

Fonte: Lenovo Q3 FY25/26 — IA representa 32% da receita total em Q3 FY25/26
ESG: as estrelas verdes
Para além dos números financeiros, a Lenovo acumulou distinções em sustentabilidade. Pela quarta vez consecutiva obteve classificação AAA da MSCI ESG (a nota máxima), e recebeu duplo reconhecimento A da CDP (Carbon Disclosure Project) tanto em alterações climáticas como em segurança da água. Não é marketing verde: estas classificações independentes têm metodologia rigorosa.
Pelo segundo ano consecutivo, a Lenovo foi incluída na lista das 100 melhores empresas para inovadores da Fast Company. É o tipo de distinção que ajuda a atrair talento – e atrair talento em engenharia e IA é, hoje, o recurso mais escasso e valioso da indústria tecnológica.
Resumindo
A Lenovo teve o melhor trimestre da sua história, e não foi por acidente. A aposta consistente numa estratégia de IA transversal a todos os negócios – desde o PC que usas em casa até aos servidores que correm os modelos de linguagem que usas online – está a produzir resultados financeiros concretos. 22,2 mil milhões de dólares de receita, 72% de crescimento na receita de IA e quota de mercado histórica em PCs são números que falam por si.
Para o consumidor comum, o que importa saber é que a Lenovo continua a investir pesado em dispositivos mais inteligentes, com IA a funcionar localmente e na nuvem. Para o mundo empresarial, é um fornecedor que vai de portáteis a servidores de IA, com serviços que crescem há 19 trimestres seguidos. E para quem acompanha a indústria, é a prova de que a IA já não é o futuro. É a receita de hoje.





