A Lenovo acaba de publicar os resultados do seu ano fiscal 2025/2026 e, para variar, não são números modestos. A empresa – que a maioria dos consumidores portugueses conhece pelos portáteis ThinkPad e IdeaPad, mas que é na realidade um dos maiores conglomerados tecnológicos do mundo – fechou o ano com uma receita total de 83,1 mil milhões de dólares, o que representa um crescimento de 20% face ao ano anterior e o valor mais alto da história do grupo.
O lucro líquido ajustado chegou aos 2 mil milhões de dólares, crescendo 42% num único ano. Para colocar estes números em perspectiva: a Lenovo factura mais do que o PIB anual de vários países europeus de dimensão média.
83 mil milhões de dólares, lucros duplicados e a inteligência artificial como motor principal. Os números que a Lenovo apresentou esta semana são difíceis de ignorar.
O último trimestre foi particularmente expressivo, com receitas de 21,6 mil milhões de dólares – um máximo histórico para um quarto trimestre e uma taxa de crescimento homólogo de 27%, a mais alta em cinco anos. O lucro nesse período mais do que duplicou face ao trimestre equivalente do ano anterior.
A inteligência artificial como motor de um terço do negócio
O dado que mais se destaca nos resultados não é o crescimento geral, mas a composição desse crescimento. As receitas directamente relacionadas com inteligência artificial representaram 33% da facturação total anual da Lenovo – e no último trimestre esse número subiu para 38%. Num único ano, as receitas de IA cresceram 105%. Isto não é marketing: é o reflexo de uma empresa que apostou cedo em infraestrutura de IA para clientes empresariais e está agora a colher os resultados dessa aposta.
Para perceber o que isto significa na prática: quando uma grande empresa ou um fornecedor de serviços na nuvem precisa de construir um sistema de inteligência artificial – seja para processar dados, treinar modelos ou servir respostas em tempo real –, precisa de servidores especializados, sistemas de refrigeração avançados e software de gestão.
A Lenovo vende exactamente isso, e a procura está a crescer a um ritmo que a própria empresa descreve como sem precedentes.
PCs, Motorola e os três grupos que compõem a Lenovo
A Lenovo organiza o seu negócio em três divisões principais, e todas cresceram com dois dígitos este ano – o que é, em si mesmo, notável. O Intelligent Devices Group, que inclui os computadores pessoais e os smartphones Motorola, foi responsável por 58,9 mil milhões de dólares em receitas anuais, um crescimento de 17%. A quota de mercado global de PCs da Lenovo atingiu os 24,4% no último trimestre – um máximo histórico –, mantendo a liderança num sector que parecia estagnado e que a chegada dos PCs com IA integrada voltou a animar.
A Motorola, por seu lado, registou um recorde de entregas de smartphones no trimestre, com crescimento de receitas de dois dígitos. Quem diria, quando a marca americana foi comprada pela Lenovo em 2014 por 2,9 mil milhões de dólares, que se tornaria um dos activos mais valiosos do grupo. O Infrastructure Solutions Group, a divisão de servidores e infraestrutura empresarial, foi a que mais cresceu: 32% em receitas no conjunto do ano, atingindo 19,2 mil milhões de dólares.
É aqui que vive o negócio de IA – servidores de alta densidade, sistemas de refrigeração líquida directa para processadores que geram calor intenso, e racks especializados para cargas de trabalho de inteligência artificial. A capacidade de fabrico de servidores ultrapassou os 70 mil racks anuais, e o pipeline de encomendas de servidores de IA está avaliado em 21 mil milhões de dólares.
A empresa concluiu também a aquisição da Infinidat, especialista em armazenamento empresarial de alto desempenho, reforçando a oferta neste segmento. O Solutions and Services Group, que agrupa serviços geridos e consultoria tecnológica, ultrapassou pela primeira vez a marca dos 10 mil milhões de dólares em receitas anuais, com uma margem operacional superior a 20% – um número que qualquer gestor financeiro olharia com atenção.

A ambição dos 100 mil milhões
No comunicado que acompanha os resultados, o presidente e CEO Yuanqing Yang não se ficou pelas habituais declarações de satisfação moderada. Declarou abertamente a ambição de transformar a Lenovo numa empresa de 100 mil milhões de dólares em receitas nos próximos dois anos.
É um objectivo agressivo – significa crescer mais 20% a partir de uma base já recorde –, mas os números actuais e a dinâmica do mercado de infraestrutura de IA tornam-no menos improvável do que parecia há três anos. Do lado da sustentabilidade, a Lenovo recebeu a medalha Platinum da EcoVadis, que a coloca no topo 1% das empresas avaliadas globalmente em matéria de responsabilidade social e ambiental, e foi reconhecida pela Corporate Knights como uma das empresas mais sustentáveis do mundo.
São distinções que cada vez mais pesam nas decisões de compra das grandes organizações europeias.
Em suma, os resultados da Lenovo para 2025/2026 confirmam o que a empresa tem vindo a construir silenciosamente: uma posição central na infraestrutura tecnológica global, com um pé no mercado de consumo através de PCs e Motorola e outro na corrida à infraestrutura de inteligência artificial que está a remodelar a economia digital.
Para o consumidor comum, o impacto mais visível continuará a ser nos portáteis e smartphones. Mas o que está a impulsionar estes números é outra conversa – uma que se passa nos centros de dados das maiores empresas do mundo, onde os servidores da Lenovo estão cada vez mais presentes.






