Se compraste um Samsung ou um LG (anos antes) e descobriste que o som irritante do disparo fotográfico não se desliga, não é um bug. É propositado. E a história por trás desta decisão revela um problema social que levou a Coreia do Sul e o Japão a implementar uma das medidas tecnológicas mais controversas dos últimos 20 anos.
Molka: o “hidden camera problem” que mudou a indústria
A expressão “hidden camera problem”, ou “câmara oculta”, é um eufemismo para algo bastante mais sórdido: o uso massivo de câmaras fotográficas (e depois de smartphones) para fotografar mulheres sem consentimento em espaços públicos, especialmente a chamada prática de upskirting: fotografar por baixo das saias em transportes públicos, escadas rolantes e outros locais.
Na Coreia do Sul, este fenómeno tem nome próprio: molka (몰카), que se tornou um problema social de tal dimensão que o governo sul-coreano decidiu intervir ao nível tecnológico.
Em 2004, quando os smartphones com câmara começavam a popularizar-se, foi implementada uma regulação que obriga todos os telemóveis vendidos ou fabricados na Coreia do Sul a emitir um som audível de, no mínimo, 64 decibéis sempre que se tira uma fotografia. E esse som não pode ser desactivado. Nunca. Nem em modo silencioso, nem com o volume no mínimo, nem mexendo nas definições. Simplesmente não há maneira.
Como a Samsung e a LG são empresas sul-coreanas, todos os telemóveis destas marcas fabricados na Coreia do Sul – incluindo os que depois são exportados para outros mercados, como Portugal – vêm com esta limitação “hardcoded” no firmware. Mesmo que compres o telemóvel em Lisboa, se tiver sido fabricado para o mercado coreano ou tiver firmware coreano, o som está lá.
O incidente que desencadeou tudo: Japão, 2000

A história começa, curiosamente, no Japão. Em Setembro de 2000, Masashi Tashiro, uma celebridade japonesa e membro fundador da banda Rats & Star, foi detido numa estação de comboios em Tóquio por ter sido apanhado a tentar fotografar por baixo da saia de uma mulher. O caso teve enorme cobertura mediática e serviu de catalisador para uma discussão nacional sobre o potencial de abuso dos telemóveis com câmara, que acabavam de ser lançados no mercado.
O primeiro telemóvel com câmara integrada, o Kyocera VP-210, tinha sido lançado no Japão em 1999. Não fazia qualquer som ao fotografar. A combinação entre a novidade tecnológica e casos de abuso como o de Tashiro levou as operadoras e fabricantes japoneses a implementarem voluntariamente o som obrigatório da câmara.
Keiji Takao, um dos developers envolvidos na criação do J-SH04 (o primeiro telemóvel japonês com câmara integrada), revelou numa entrevista de 2016 à BuzzFeed que o incidente de Tashiro foi determinante: “Era antecipado que, uma vez instaladas câmaras nos telemóveis, haveria inevitavelmente pessoas que as usariam para propósitos voyeuristas.”
Em 2015, o Japão reforçou a medida com uma alteração à Ordinance on the Healthy Development of Juveniles, que proíbe explicitamente o silenciamento do som do disparo fotográfico. Tecnicamente, não é uma “lei” no sentido tradicional, mas sim um conjunto de normas estabelecidas pelas operadoras e fabricantes em colaboração com as autoridades. O resultado prático é o mesmo: iPhones vendidos no Japão, Androids vendidos no Japão, todos fazem barulho ao tirar fotografias. Sempre.
A situação na Coreia do Sul: uma lei a sério
Ao contrário do Japão, onde a medida foi mais uma autorregulação da indústria, a Coreia do Sul tem uma lei efectiva desde 2004 que obriga ao som obrigatório. E não é apenas “tem de fazer barulho”: a lei especifica que o som tem de ter, no mínimo, 64 decibéis, aproximadamente o volume de uma conversa normal.
O problema do molka na Coreia do Sul atingiu proporções alarmantes. Há câmaras ocultas em casas de banho públicas, em vestiários, em hotéis (os chamados “spy hotels” com câmaras escondidas), e os smartphones tornaram-se uma ferramenta adicional para este tipo de crime. Segundo a polícia sul-coreana, os casos de fotografia ilícita com smartphones aumentaram drasticamente entre 2010 e 2019, passando de 1.741 detenções em 2010 para 3.953 em 2019.
Mas aqui está o paradoxo: 86,2% dos sul-coreanos querem poder desligar o som. Segundo um inquérito de 2023 conduzido pela Anti-Corruption and Civil Rights Commission, a esmagadora maioria da população considera a medida desactualizada, ineficaz e incomodativa em situações onde se exige discrição, como bibliotecas, teatros ou eventos ao vivo.
Um caso particularmente mediático aconteceu em 2019 durante um torneio de golfe: o jogador coreano Bio Kim deu o dedo do meio à assistência e atirou o taco ao chão depois de o som de um disparo fotográfico ter interrompido o seu tee shot no 16º buraco. O momento tornou-se viral e ilustra bem o problema: a medida penaliza 99% das pessoas para tentar travar 1%.
A ineficácia da medida
Aqui reside a grande ironia: a medida não funciona. Aplicações de terceiros, tanto na App Store como na Google Play, permitem tirar fotografias completamente silenciosas, contornando a restrição do sistema operativo. A BlackVideo, por exemplo, é actualmente a segunda aplicação de câmara mais vendida na App Store japonesa (custa ¥300, cerca de 1,80€) e permite fotografar e gravar vídeo sem qualquer som, com a funcionalidade adicional de esconder as fotografias numa pasta protegida por password.
Além disso, qualquer câmara digital normal, por mais barata que seja, não tem qualquer obrigação de fazer som. O mesmo se aplica a action cameras, dashcams, e qualquer outro dispositivo que não seja um smartphone. A medida é, portanto, cirúrgica na sua aplicação mas ineficaz no objectivo.
E em Portugal? Europa? Resto do mundo?

Fora da Coreia do Sul e do Japão, apenas dois países entre os 139 membros das Nações Unidas regulam o som das câmaras dos smartphones. A China tem regulamentação semelhante em algumas regiões, mas não de forma universal.
Na Europa, Estados Unidos, e resto do mundo, não existe qualquer legislação que obrigue os telemóveis a fazer som ao fotografar. Os iPhones vendidos em Portugal, por exemplo, permitem desligar completamente o som da câmara nas definições ou simplesmente colocando o telemóvel em modo silencioso.
Mas atenção: se comprares um Samsung ou LG que tenha sido fabricado para o mercado sul-coreano (ou japonês), mesmo que o compres em Portugal, a restrição mantém-se. O firmware está programado para detectar o país de fabrico, não o país de utilização. Há relatos de utilizadores que compraram Samsung em promoções online vindos da Coreia e só depois descobriram que o som era permanente.
Como resolver (se for possível)
Método 1: Verificar antes de comprar
Se ainda não compraste o telemóvel, confirma a origem. Telemóveis Samsung vendidos oficialmente em Portugal pela Samsung Portugal são fabricados para o mercado europeu e não têm esta restrição. O problema surge com importações paralelas, compras online em marketplaces asiáticos, ou modelos comprados em viagem.
Método 2: Modos alternativos
Alguns modelos Samsung permitem desligar o som em “Pro Mode” ou através da aplicação de câmara em modo HDR. Não é uma solução universal, mas funciona em alguns casos.
Método 3: Samsung Routines
A partir do OneUI, a Samsung implementou uma funcionalidade chamada “Routines” que permite criar automatismos. É possível configurar uma rotina que coloca automaticamente o telemóvel em modo silencioso quando se abre a aplicação de câmara. Não é desligar o som directamente, mas consegue-se o mesmo resultado.
Método 4: Aplicações de terceiros
Como mencionado, aplicações como OpenCamera permitem fotografar sem som. Mas perdes funcionalidades avançadas da câmara nativa, especialmente em telemóveis topo de gama onde o software de processamento de imagem faz diferença significativa.
Método 5: ADB e developer mode (avançado)
Existe um método técnico usando Android Debug Bridge que permite modificar as definições do sistema para desactivar permanentemente o som. Requer conhecimentos técnicos, acesso a um computador, e ativar o modo de programador. Não é para utilizadores comuns e pode invalidar garantias.
A questão de fundo
Esta situação levanta questões interessantes sobre até onde deve ir a regulação tecnológica para resolver problemas sociais. A abordagem sul-coreana e japonesa é, essencialmente, punir 100% dos utilizadores para tentar dificultar a vida a uma minoria que comete crimes.
O problema não é tecnológico, é social. A taxa de criminalidade relacionada com fotografia não consentida mantém-se elevada no Japão e na Coreia do Sul apesar da medida. Enquanto isso, países sem qualquer regulação deste tipo não reportam taxas significativamente mais altas de crimes do género, porque o problema está na educação, na aplicação da lei, e na cultura, não na tecnologia.
A medida é, no fundo, teatro de segurança: dá a sensação de que se está a fazer algo, mas a eficácia real é discutível. E entretanto, milhões de utilizadores legítimos têm de aturar um som irritante sempre que tiram uma fotografia ao gato, a uma paisagem, ou a um documento.
Em suma
Se tens um Samsung ou LG e o som da câmara não se desliga, provavelmente compraste (sem saber) um modelo fabricado para o mercado sul-coreano. É uma limitação propositada, implementada há mais de 20 anos como resposta a um problema social grave, mas que se revelou largamente ineficaz para o propósito original.
A boa notícia é que a própria Coreia do Sul está a reconsiderar a medida. Com 86% da população contra, é possível que nos próximos anos a lei seja revista. Mas até lá, se o som te irrita profundamente, as opções são: viver com isso, usar aplicações de terceiros, ou simplesmente não comprar Samsung/LG de origem coreana.
Para os extravagantes que já têm um e não querem mexer em ADB nem usar apps alternativas, resta a solução criativa que alguns utilizadores japoneses adoptaram: tapar o altifalante com o dedo. Não é elegante, mas funciona. E é grátis.




