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O futuro da IA em Portugal

João Gata por João Gata
Julho 27, 2025
O futuro da IA em Portugal
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O futuro da IA em Portugal

O investimento massivo de Silicon Valley na IA, a que Portugal não está imune, pode vir a sofrer um duro revés

Os crescentes receios de recessão nos Estados Unidos, paralelos à sobreavaliação das empresas de IA e tecnologia, podem criar uma tempestade bíblica nos próximos tempos. Portugal, embora com um ecossistema mais pequeno, não está imune a estes ventos de mudança. Mas será que a IA vai implodir brevemente?

Quanto vale o futuro?

Habitualmente, para responder a essa pergunta, seria necessário perguntar a filósofos ou economistas. Mas se fores um CEO tecnológico, tens um número concreto: cerca de mil milhões de euros.

É quanto a indústria tecnológica como um todo está preparada para gastar na construção da indústria de inteligência artificial nos próximos anos. E mesmo em Silicon Valley, onde várias empresas têm capitalizações de mercado facilitadas, mil milhões é muito dinheiro.

O contexto português: uma estratégia nacional ambiciosa

Portugal não ficou de fora desta corrida. Em junho de 2019, o Governo português apresentou a estratégia nacional AI Portugal 2030 para delinear os desafios e oportunidades do crescente ecossistema de IA em Portugal. O mercado português de IA quer um volume de mercado de 2.800 milhões de euros até 2030.

Com sete unicórnios incluindoOutSystems, Talkdesk e Feedzai, o ecossistema de startups de Portugal ganhou reconhecimento global. Entre as startups que operam em Portugal, 40 delas são unicórnios e seis destas têm ADN português.

Os grandes sonhos da IA em território luso

Tal como aconteceu globalmente, Portugal apostou forte na IA. A estratégia concentra as suas acções na inclusão, educação, qualificação, especialização e investigação, pois as pessoas são o principal motor de uma implementação bem-sucedida da IA.

Em 2024, oito jovens empresas portuguesas tinham 290 colaboradores, captaram mais de 11 milhões de euros em investimento e tiveram uma receita anual combinada de 18 milhões de euros, todas com ambições de se tornarem o próximo unicórnio nacional.

O problema é que, tal como nos EUA, as empresas portuguesas de IA enfrentam desafios semelhantes de rentabilidade e sustentabilidade.

Quando a conta chega ao destino

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Sam Altman disse que a OpenAI é “a startup mais intensiva em capital da história”. Isto porque, à medida que os modelos ficam maiores, custam cada vez mais a treinar. E isso é apenas o custo de fazer os modelos, para além que executá-los também é altamente caro.

Para as startups portuguesas, este problema é amplificado pela escala menor do mercado doméstico. Enquanto uma empresa americana pode monetizar rapidamente uma base de utilizadores de centenas de milhões, as empresas portuguesas dependem frequentemente da expansão internacional desde cedo, aumentando os custos operacionais.

O dilema dos unicórnios portugueses

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Os três principais unicórnios de Software & Data em Portugal captaram cerca de 240 milhões de euros, um montante inferior à média global da indústria. Isto sugere que, embora Portugal tenha conseguido criar unicórnios impressionantes, estes podem estar subcapitalizados face aos concorrentes globais.

A Feedzai, especializada em prevenção de fraude com IA, a OutSystems com a sua plataforma de desenvolvimento low-code, e a Talkdesk com soluções de contact center baseadas em nuvem, representam o melhor do que Portugal tem para oferecer. Mas será suficiente quando a maré baixar?

Portugal face à regulamentação europeia

A recente promulgação do Ato de Inteligência Artificial (AIA) pelo Parlamento Europeu, que entrou em vigor em abril de 2024, marcou o primeiro grande esforço legislativo abrangente em direcção à regulamentação da IA.

Esta regulamentação pode ser uma faca de dois gumes para Portugal: por um lado, cria barreiras de entrada que podem proteger as empresas estabelecidas; por outro, aumenta os custos de compliance para startups já com margens apertadas.

Está o mundo preparado para um descrédito global da IA?

A questão central não é se a IA tem potencial revolucionário porque o tem. A questão é se o actual nível de investimento é sustentável face aos retornos actuais.

Para Portugal, a situação é particularmente delicada. Apesar de mostrar menos investimento comparativamente aos gigantes americanos, o país criou um ecossistema impressionante. No entanto, se houver uma correcção global na avaliação das empresas de IA, as empresas portuguesas podem ser desproporcionalmente afectadas devido à sua dependência de investimento estrangeiro.

Os sinais de alerta

Tal como em Silicon Valley, há sinais preocupantes:

  • Dependência de financiamento: Muitas startups portuguesas dependem fortemente de rondas de financiamento sucessivas
  • Mercado doméstico limitado: A pequena dimensão do mercado português força as empresas a internacionalizar-se rapidamente, aumentando custos
  • Competição global: As empresas portuguesas competem directamente com gigantes americanos e chineses com muito mais capital

O futuro do ecossistema português

O programa RNi – Portugal Incubators tem 125 incubadoras e aceleradoras certificadas com mais de 4.900 projectos em incubação e 9.000 empregos criados. Esta infraestrutura pode ser crucial se houver uma correcção no mercado — as empresas que sobreviverem podem emergir mais fortes.

A lição da explosão das dot-com no início dos anos 2000 é instrutiva: embora muitas empresas tenham falhado devido ao sobre-investimento e sobreavaliação, o que restou estabeleceu as bases para as mega-empresas de hoje como Google e Meta.

dotcom bubble crash

Há que preparar para a tempestade

Portugal construiu um ecossistema de IA impressionante, mas não está imune às forças globais. Se houver uma correcção na avaliação das empresas de IA, o país pode ver algumas das suas startups mais promissoras em dificuldades.

No entanto, a estratégia nacional focada na educação e qualificação, combinada com uma infra-estrutura sólida de incubação, pode posicionar Portugal para emergir mais forte de qualquer eventual crise. A questão não é se haverá uma correcção, mas quais empresas portuguesas terão a resiliência para a atravessar.

O futuro da IA em Portugal dependerá não apenas da inovação tecnológica, mas da capacidade de construir modelos de negócio sustentáveis numa era de maior escrutínio financeiro. As empresas que conseguirem demonstrar valor real, e não apenas potencial, serão as que sobreviverão ao eventual fim da festa do financiamento fácil.

Tags: O futuro da IA em Portugal
João Gata

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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