O Panhard & Levassor entrou em território português a 10 de Outubro de 1895, tornando-se no primeiro automóvel a circular no país. Passaram 130 anos desde que este veículo francês causou espanto nas autoridades alfandegárias – que não faziam a mínima ideia de como classificar aquela “coisa com rodas e motor” – e protagonizou o primeiro acidente de viação registado em solo nacional, numa estreia que não podia ter sido mais portuguesa.
Desalfandegamento criativo: quando um carro vira máquina a vapor
A chegada do Panhard & Levassor às alfândegas portuguesas gerou confusão burocrática digna de um sketch dos Gato Fedorento. Os funcionários aduaneiros, confrontados com um objecto para o qual não existia categoria fiscal, decidiram pela solução mais criativa possível: classificaram o automóvel como máquina movida a vapor. Não interessava que o motor fosse a combustão interna – se tinha rodas e fazia barulho, seria taxado como locomotiva portátil.
O veículo foi adquirido e importado pelo Conde d’Avillez, um aristocrata com gosto por novidades tecnológicas e, aparentemente, pouca perícia ao volante. O Panhard & Levassor de 1290 cc era capaz de atingir a vertiginosa média de 15 km/hora – velocidade que hoje qualquer ciclista urbano ultrapassa sem esforço, mas que em 1895 representava o futuro da mobilidade.
Viagem inaugural do Panhard & Levassor: Lisboa-Santiago do Cacém via burro

Na sua viagem de estreia entre Lisboa e Santiago do Cacém, o Conde Jorge d’Avillez protagonizou o que viria a ser o primeiro acidente de viação registado em Portugal. A vítima? Um burro desafortunado que cruzou o caminho do automóvel e não teve tempo de reagir aos 15 km/h de fúria mecânica francesa.
O dono do animal recebeu então a impressionante quantia de dezoito mil réis como indemnização – valor que representava o triplo do preço de um burro na época. Para contextualizar, o Conde pagou por um burro morto o equivalente a três burros vivos, estabelecendo um precedente judicial interessante: atropelar com tecnologia importada sai caro.
Este episódio marca também o início de uma tradição secular portuguesa: acidentes rodoviários com indemnizações desproporcionadas e discussões intermináveis sobre quem teve culpa.
Do Conde Avillez ao Museu do ACP: 70 anos de custódia
O primeiro automóvel a entrar em Portugal foi doado ao Automóvel Club de Portugal em 1954 pela família Garrido, que entretanto havia herdado a relíquia. O ACP iniciou um processo de restauro que ficou concluído em 1961, devolvendo ao veículo a glória original – ou o mais próximo possível dela, tendo em conta que se tratava de um carro com 66 anos à data.
Desde então, o Panhard & Levassor tem sido peça de exposição em diversas ocasiões, servindo como testemunho tangível dos primórdios da motorização em Portugal. Actualmente, o veículo encontra-se exposto na secção regional do Norte do ACP, onde pode ser visitado por entusiastas de automóveis clássicos e por qualquer pessoa interessada em tocar com os próprios olhos num pedaço de história com rodas.
Panhard & Levassor: especificações que hoje fariam rir (mas que em 1895 eram ficção científica)

O Panhard & Levassor que inaugurou a era automóvel portuguesa tinha características técnicas modestas pelos padrões actuais, mas revolucionárias para a última década do século XIX:
- Cilindrada: 1290 cc
- Velocidade média: 15 km/hora (num bom dia, com vento favorável)
- Consumo: irrelevante, porque combustível era artigo de luxo
- Sistemas de segurança: nenhuns (travões funcionavam se Deus quisesse)
- Airbags: a barba do Conde
- Protecção contra burros: inexistente, como se provou
Em suma
Há precisamente 130 anos, Portugal recebia o seu primeiro automóvel – um Panhard & Levassor que custou dezoito mil réis em indemnizações antes sequer de chegar ao destino inaugural. O veículo que causou perplexidade nas alfândegas, foi classificado como máquina a vapor e protagonizou o primeiro atropelamento da história nacional está hoje preservado pelo ACP, servindo como memória de uma época em que velocidade de 15 km/h causava sensação e burros ainda não sabiam olhar para os dois lados antes de atravessar.
Que o Conde d’Avillez descanse em paz, o burro também, e que o Panhard continue a contar esta história gloriosamente ridícula às gerações futuras.
Mais informações: Automóvel Club de Portugal






