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Quando a IA se tornou mais EU do que EU (e ninguém estranhou)

João Gata por João Gata
Agosto 7, 2025
IA gen x jg
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IA gen x jg

Ou o desaparecimento programado de um humano com boa ligação à internet (e à IA)

Vou escrever mais uma vez sobre a IA, não vou ser gentil, e permitam-me começar com uma pequena confissão: enquanto me preocupava com o preço da gasolina, gás, electricidade, comissões várias e taxas multiplicadas, via muita gente ao almoço debater fervorosamente quem merecia ganhar mais um big brother (marca registada e tal) e comentar todos os jogos de futebol com a clarividência de uma qualquer bancada. Enquanto isto, e de forma sorrateira, mas não invisível – longe disso – a inteligência artificial estava a roubar-me (-nos) o futuro. E estando cansado das conversas acima – e demais similares -, não só deixei como ainda aplaudi a ratice.

E fiz mal.

Desiludam-se com o discurso reconfortante do “a IA facilita-nos muito a vida” e outras lapalissadas modernas. A única coisa que facilita é a minha (nossa) própria substituição. O que testemunhamos é um golpe de Estado executado em câmara lenta, com a particularidade de eu, enquanto vítima, fazer questão de financiar os meus próprios carrascos. E os vossos!

Sam Altman e a utopia do sofá eterno

O senhor da OpenAI anda a evangelizar pelo mundo fora com a sua versão da terra prometida: um futuro onde não preciso de trabalhar. Que encantador! Mas o que vou fazer quando o meu trabalho desaparecer? Ah, claro, vou receber um tal de rendimento básico universal. Que generosidade. E esta quantia é controlada por quem, exactamente? Ora, pelos mesmos que me despediram, helloooo!

É um esquema de uma elegância quase artística: primeiro automatizam as minhas funções, depois oferecem-me umas migalhas para não me revoltar, e finalmente ficam a decidir se me alimento ou passo fome. É como se me oferecessem qualquer coisa substancial e cara – no início parece uma dádiva, mas depois… já conhecemos o desfecho da história.

O meu trabalho não é apenas uma fonte de rendimento. É a minha identidade, o meu propósito, a razão pela qual me levanto de manhã sem me questionar sobre o sentido da vida. Sem ele, transformo-me num zombie consumista sustentado pela actual e sempre em metamorfose disponibilidade algorítmica.

A geração que está a crescer digitalmente lobotomizada (comigo a ajudar)

Vou deixar os rodeios e o politicamente correcto de lado e apontar a verdade: a geração actual está a crescer cognitivamente deficiente, e eu sou cúmplice. Já observei alguns jovens que são incapazes de resolver uma operação aritmética básica sem consultar o smartphone. Não conseguem redigir um texto sem o ChatGPT como co-autor. Perderam até a capacidade de ter ideias originais sem se aperceberem disso.

Confesso que também já usei IA para me ajudar em textos. Senti-me esperto, eficiente, rápido, até sofisticado. Agora percebo que estava apenas a terceirizar o meu próprio pensamento.

Os algoritmos reproduzem os meus preconceitos, mas apresentam-mos vestidos de objectividade científica. Estou literalmente a aceitar discriminação como se fosse uma lei da física, e quando uso essas ferramentas, propago-a sem pudor ou mesmo noção.

Elon Musk e a lobotomia voluntária

A Neuralink representa o próximo acto desta comédia macabra onde sou mais um protagonista involuntário. Musk quer convencer-me de que implantar um chip no meu cérebro é um acto terapêutico. Terapêutico para quê? Para curar a minha inconveniente capacidade de pensamento independente? A memória já não é o que foi, mas a capacidade de juntar frases para resultar num parágrafo ainda funciona… digo eu.

Amanhã, e sem fazer grande esforço, imagino-me a acordar sem conseguir distinguir entre uma memória da minha infância e um ficheiro descarregado durante a noite. Observo alguém ou algo a reunir os meus sonhos para gravá-los, catalogá-los para vender a empresas de marketing. E se por acaso pensar de forma “incorrecta” num deles, o sistema corrige-me automaticamente sem dó nem piedade.

Por outro lado, uma parte de mim fica tentada. Seria mais fácil ter todas as respostas instantaneamente sem nenhum esforço. Mas depois um raio atinge-me e sou apontado por um dedo muito grande que sai do céu, tipo Monty Python. E caio novamente em mim.

A vigilância que eu próprio autorizo

Cada interacção que tenho com sistemas de IA é uma confissão involuntária. Eles conhecem as minhas dúvidas, questões, obsessões, fraquezas e vulnerabilidades psicológicas. Ao debater e trocar ideias, fico com a certeza que me compreendem melhor do que eu próprio, o que, convenhamos, não é assim tão difícil.

E autorizo tudo isto! Aceito os termos e condições sem ler. Permito cookies. Digo “sim” a tudo porque quero apenas que funcionem. Bom, minto… gasto horas a negar autorizações naqueles malditos quadros que nos pedem para aceitar – OU NÃO – as “nossas” escolhas ao visitar um site que só permite a visita depois desse trabalhão esgotante e repetitivo. Mas, extenuado, deixo passar alguns para depois me revoltar quando a “notícia” é apenas uma bacorada idiota para servir de apoio a um título clickbait.

Esta informação é depois utilizada contra mim: para me vender produtos de que não preciso, potencialmente para me negar seguros porque já não sou jovem, recusar-me créditos porque já não sou jovem e rejeitar as minhas candidaturas a tudo e mais alguma coisa porque… já perceberam. E o mais assustador é que eu próprio forneci todos os dados.

Como estou a destruir o planeta para me salvar dele

Aqui reside a minha ironia pessoal: estou a devastar o ambiente para criar uma ferramenta que supostamente me protegerá dos… danos ambientais que eu próprio causo.

Cada pergunta que faço ao ChatGPT consome dez vezes mais energia que uma pesquisa convencional. Quando uso estas ferramentas diariamente, contribuo para emissões de carbono equivalentes a voos intercontinentais. E ainda consumo milhões de litros de água potável indirectamente.

O funeral da minha criatividade

A IA já iniciou a sua ofensiva contra a minha capacidade criativa, e eu tenho sido um colaborador entusiástico. Fervoroso, até! Quando peço ajuda para escrever emails, relatórios, atas e até rápidas e inocentes reinterpretações de comunicados de imprensa para este blog, estou a atrofiar músculos mentais que um dia foram meus.

Vejo-me a preferir sugestões automáticas porque são “mais perfeitas” que as minhas ideias imperfeitas. Estou a tornar-me espectador da minha própria criação. E as sinapses que se lixem…

Cronologia do meu declínio anunciado

Vou tentar projectar como será a minha própria extinção:

2025-2030: perco o trabalho para um algoritmo. Os meus descendentes tornam-se analfabetos sem assistência digital. Mas até aceito que a justiça e medicina sejam automatizadas porque “é mais eficiente”.

2030-2040: considero seriamente implantar um chip porque todos os “bem-sucedidos” têm um. Voto em quem o algoritmo me recomenda. Deixo de falar a minha língua materna porque a IA não a compreende bem.

2040-2050: torno-me cidadão de segunda classe por ser “não-modificado”. Aceito que os meus netos sejam geneticamente “melhorados” porque “é pelo bem deles”.

2050-2060: já cá não devo estar, mas se já for um novo imortal, serei da última geração que se lembra do mundo humano e analógico. As máquinas controlam tudo, mas já me habituei. Tornei-me animal de estimação das minhas próprias criações.

O meu manual de sobrevivência pessoal

Primeiro: preciso de abandonar gradualmente estas dependências. Vou usar motores de busca que não recolhem os meus dados. Voltar aos livros e aos discos físicos. Ensinar o meu neto algumas competências analógicas. Aliás, já estou a meio caminho disto tudo…

Segundo: vou reconstruir comunidades presenciais. Reunir-me fisicamente com pessoas reais. Conversar sem intermediários digitais. Aprender competências práticas que resistem ao colapso tecnológico.

Terceiro: se ainda houver eleições, vou voltar a votar conscienciosamente. Apoiar políticos que compreendem as implicações desta transformação que me afecta directamente. Sim, faz rir, mas temos de acreditar que haverá um político com noção, se bem que ainda não tenha nascido (pelo menos por cá).

Quarto: vou defender o meu direito à imperfeição. A minha lentidão, os meus erros, a minha ineficiência – são as minhas características distintamente humanas. Não posso permitir que mas confisquem.

IA e a minha conclusão incómoda

Talvez já seja demasiado tarde para mim. Enquanto me distraía com futilidades digitais, as grandes corporações tecnológicas já compraram o meu governo, o sistema educativo da geração que, em princípio, pagaria a minha velhice e os meus cuidados de saúde. Agora querem adquirir também o meu cérebro.

A IA não é uma ferramenta que uso. É um sistema de controlo social que me usa. E eu estou a pagar religiosamente para ser controlado.

A questão central não é se consigo travar este processo. É se ainda me recordarei do que significa ser eu próprio quando as máquinas me oferecerem todas as respostas pré-fabricadas.

Provavelmente não. Mas pelo menos consigo gerar memes divertidos comigo mesmo usando o ChatGPT ou bonecada usando o Midjourney.

E talvez essa seja exactamente a tragédia: estar consciente da minha própria extinção e continuar a contribuir para ela, um clique de cada vez.

P.S.: Este texto foi redigido por mim, mas não manualmente – isso implicaria papel e caneta de aparo e tinta -, com todas as minhas imperfeições. Seria o regresso ao podcast pessoal (podcat.pt) mas as obras no prédio defronte não me deixam captar áudio sem gravar um disparate terceiro mundista de marteladas descompassadas. E se consideram que eu considero a perspectiva excessivamente pessimista, vou aguardar pelos próximos cinco anos para confirmar. Depois conversamos!

Tags: A destruição do homem pela IAFuturo humanidadeFuturo IAIANeuralinkOpenAIrendimento básico universalSam Altman
João Gata

João Gata

Começou em vídeo e cinema, singrou em jornalismo, fez da publicidade a maior parte da vida, ainda editou discos e o primeiro dos livros e, porque o bicho fica sempre, juntou todas estas experiências num blogue.

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