O regresso de Pedro Passos Coelho não é apenas um tema mediático, o aumento da presença mediática de Pedro Passos Coelho não é um detalhe irrelevante. Num sistema político como o português, altamente personalista e fortemente condicionado por lideranças, a simples hipótese de regresso de uma figura com passado governativo significativo altera perceções, mesmo antes de existir decisão formal.
Mas a questão não é se regressa.
A questão é: que impacto estrutural teria esse regresso?
1. O eleitorado da direita não é homogéneo

O crescimento do André Ventura e do CHEGA não pode ser explicado apenas por radicalização ideológica. Há três segmentos distintos na sua base eleitoral:
- Eleitorado protesto, anti-sistema, identitário.
- Eleitorado conservador em matérias culturais e imigração.
- Eleitorado economicamente liberal, oriundo do PSD, desiludido com a falta de assertividade reformista.
É neste terceiro segmento que um eventual regresso de Passos poderia ter impacto real.
Este eleitor não procurava ruptura institucional. Procurava firmeza, disciplina orçamental, redução do peso do Estado e clareza ideológica.
A pergunta central é: esse eleitor saiu por divergência programática ou por ausência de liderança que simbolizasse convicção?
2. Substituição ou sobreposição?

Se Passos regressasse ao espaço político ativo, poderia acontecer uma de duas coisas:
• Substituição parcial do eleitorado do CHEGA pelo PSD
ou
• Sobreposição competitiva, criando fragmentação adicional
A substituição implicaria que parte do voto no CHEGA é contingente e reversível.
A sobreposição implicaria que o voto já é estrutural e não regressa.
Os dados eleitorais recentes mostram que o CHEGA tem consolidado presença em segmentos urbanos periféricos e classes médias-baixas ressentidas com mobilidade social bloqueada. Esse voto não é apenas ideológico. É emocional.
Passos fala sobretudo ao eleitorado ideológico e reformista, não necessariamente ao eleitorado de frustração sistémica.
3. A variável memória económica

O legado de Passos está indissociável do período da troika.
Para uns, simboliza responsabilidade e coragem reformista.
Para outros, representa austeridade e perda de rendimento.
Num contexto atual de inflação, crise da habitação e pressão fiscal, a evocação desse período pode ter dois efeitos opostos:
• Credibilidade técnica
• Reativação de memórias negativas
A eficácia política dependeria da capacidade de reinterpretar esse passado como prova de competência e não como trauma.
4. O impacto interno no PSD

Um eventual regresso não teria apenas efeitos externos.
Internamente, poderia:
• Reforçar a ala mais ideológica
• Criar desconforto na ala mais moderada
• Reposicionar o partido num eixo mais claramente à direita
Isso poderia clarificar o espaço político ou reduzir a capacidade de atração ao centro.
E aqui está um ponto crítico: em Portugal, eleições continuam a ganhar-se ao centro.
5. O cálculo do CHEGA
Para o CHEGA, o cenário mais favorável é uma direita fragmentada, onde o PSD não consegue consolidar liderança clara.
Um Passos ativo poderia obrigar o partido de Ventura a optar entre:
• moderação estratégica
• radicalização diferenciadora
Ambas têm custos.
Moderar dilui identidade.
Radicalizar afasta eleitorado moderado.
6. A dimensão sistémica
A política portuguesa tem evoluído para maior polarização, mas continua estruturalmente moderada.
A entrada ou regresso de figuras fortes tende a reorganizar o espaço partidário, mas raramente o transforma radicalmente.
A questão decisiva é esta:
O crescimento do CHEGA é conjuntural ou estrutural?
Se for conjuntural, um regresso de Passos poderia recentrar parte do eleitorado.
Se for estrutural, o impacto seria limitado e talvez até contraproducente.
No fundo, o “efeito Passos” não depende apenas da sua vontade.
Depende da natureza real do eleitorado que abandonou o PSD.
E essa é a variável que ainda ninguém conseguiu medir com precisão.
No fundo, o regresso de Pedro Passos Coelho não deve ser lido apenas como um eventual movimento individual, mas como um sintoma. Sintoma de uma direita que procura identidade, de um PSD que oscila entre moderação estratégica e afirmação ideológica, e de um eleitorado que ainda não estabilizou a sua redistribuição interna após os últimos ciclos eleitorais.
Se o crescimento do CHEGA for estrutural, assente numa transformação profunda das prioridades culturais e sociais de parte do eleitorado, então o regresso de Pedro Passos Coelho terá impacto limitado, talvez apenas simbólico. Mas se esse crescimento for parcialmente conjuntural, alimentado por vazio de liderança ou falta de clareza programática, então um regresso poderá funcionar como elemento de reequilíbrio, recentrando segmentos que saíram mais por perceção do que por convicção definitiva.
A verdadeira questão não é se Passos quer regressar. É se existe hoje uma maioria à direita que reconheça nesse perfil uma solução para os desafios atuais. E essa resposta não depende da nostalgia, nem da memória da troika. Depende da leitura que o eleitorado faz do presente e da sua expectativa quanto ao futuro.
Talvez o “efeito Passos” seja menos sobre a pessoa e mais sobre o momento político. E é isso que tornará qualquer eventual regresso relevante ou irrelevante.







