Out of the Unknown, estreada em 1965, foi a série britânica que antecipou o futuro e inspirou Black Mirror
Out of the Unknown aconteceu muito antes de Black Mirror e tratou a ficção científica como drama adulto e social, tendo sido transmitida pela BBC entre 1965 e 1971. Em Portugal, alguns episódios passaram mais tarde na RTP, traduzidos sob o título Além do Desconhecido, ainda que discretamente, em reposições fragmentadas nos anos 70.
Criada e produzida por Irene Shubik, a mesma mente por detrás de Out of This World e inspirada pela literatura de autores como Isaac Asimov, Ray Bradbury, John Wyndham e JG Ballard, esta antologia ousava o impensável para a época: usar a ficção científica para reflectir sobre guerra, tecnologia, alienação e política, e não apenas como mero escapismo espacial.
Enquanto o público se entretinha com os mundos coloridos de Doctor Who ou as aventuras de marionetas de Thunderbirds, Out of the Unknown trazia algo mais cerebral – histórias inquietantes sobre o futuro e, acima de tudo, sobre o presente.
Out of the Unknown: o primeiro espelho negro da televisão
Cada episódio era uma história independente – uma fórmula que hoje associamos a Black Mirror. Mas, em 1965 (ano em que este vosso escriba viu a luz), era algo revolucionário. A série estreou com No Place Like Earth, adaptação de John Wyndham, onde um homem abandona Marte em busca de uma nova vida em Vénus, apenas para descobrir uma sociedade baseada na escravidão. O subtexto era claro: colonialismo, alienação, humanidade perdida.
O que Out of the Unknown fez de notável foi pegar nas angústias do mundo real – a Guerra Fria, o medo nuclear, a desumanização tecnológica – e traduzi-las em metáforas de ficção científica. Episódios como The Counterfeit Man ecoavam a paranóia do pós-Berlim, enquanto Some Lapse of Time, com argumento de John Brunner e direcção de um jovem Ridley Scott, imaginava um futuro devastado pela guerra atómica.
The Machine Stops: a internet antes da internet

Talvez o episódio mais profético tenha sido The Machine Stops, baseado num conto de E. M. Forster. Retratava uma sociedade isolada, onde as pessoas vivem confinadas em cápsulas, comunicando apenas através de ecrãs e dependentes de uma vasta máquina que governa tudo.
Soa familiar? Pois é. Meio século antes de termos Zoom, redes sociais e algoritmos, Out of the Unknown antecipava o que seria o mundo conectado – e vigiado – do século XXI. É impossível não pensar em Black Mirror, Her ou Matrix quando se revê esse episódio hoje.
Irene Shubik, a mulher que ousou desafiar o realismo televisivo
A criadora Irene Shubik foi uma pioneira. Numa televisão britânica dominada por dramas sociais e teatros de câmara, insistiu que a ficção científica podia ser tão séria e sofisticada quanto o drama político ou psicológico. “A boa ficção científica é uma forma de dizer o que não se pode dizer directamente”, escreveu no seu livro Play for Today: The Evolution of Television Drama.
Essa ideia seria ecoada décadas depois por Charlie Brooker, criador de Black Mirror, que confessou nunca ter visto Out of the Unknown, mas reconheceu que o seu trabalho “riffa directamente sobre as mesmas raízes”. Acho difícil que isto seja verdade, mas ele lá sabe.
Um elenco de luxo e um legado esquecido
A série contou com nomes que mais tarde se tornariam gigantes: Patrick Troughton (um dos primeiros Doctor Who), David Hemmings, Yvonne Mitchell, e técnicos como Ridley Scott antes de Hollywood o transformar em mito. O tom era inquietante, filosófico e até claustrofóbico – longe da leveza de outras produções da época.
Apesar do seu impacto, poucos episódios sobreviveram intactos. Muitas gravações foram apagadas pela própria BBC, que reutilizava fitas (tal como a RTP) – uma ironia trágica, considerando o tema recorrente da série: a perda de memória tecnológica.
Do “desconhecido” ao “espelho negro”
Sessenta anos depois, Out of the Unknown mantém-se como um marco visionário. Tal como Black Mirror, não falava realmente do futuro – falava de nós. Do medo de perder o controlo, da confiança cega na tecnologia, da solidão entre ecrãs.
Na RTP, quem viu Além do Desconhecido recorda a sua atmosfera densa, quase teatral, e um certo desconforto existencial. Hoje, em plena era digital, talvez seja altura de o redescobrir. Algum de vocês se lembra? Se sim, deixem um comentário!
Em suma
Antes de Charlie Brooker transformar os nossos smartphones em vilões, foi Irene Shubik quem acendeu o ecrã do medo. Out of the Unknown não só antecipou Black Mirror – foi o seu verdadeiro protótipo. Um espelho preto antes de haver reflexo.






