À primeira vista, o Solocam é um equipamento horrível, desproporcionado, desequilibrado e inestético. Mas este projecto, que está em crowdfunding, é já um sucesso porque obriga à discussão.
Tempos atrás e neste blogue, falei do “novo jornalismo” como consequência da miniaturização dos equipamentos que estão dia a dia mais baratos, qualitativos e, porque é cada vez mais importante, conectados. E esta realidade cria preocupações legítimas. As vozes profissionais dividem-se, pois muitos consideram qualquer tipo de mudança um ataque à sua própria forma de trabalhar. Quanto a esses, só poderei dizer “ou adaptação ou morte” como em muitas outras indústrias e profissões já se verificou (e eu passei por algumas). Mas também há jornalistas que entendem esta democratização do “fazer notícia” como fórmula que lhes permitirá chegar mais depressa, sem grandes custos e de forma privilegiada a um cada vez maior, porque global, número de leitores (espectadores, assinantes).
A qualidade do trabalho continuará a fazer a diferença entre um bom repórter e um pretendente a famoso, e é somente por aí que se deve defender ou atacar uma nova possibilidade “técnica” de relatar a notícia.
Regressando ao Solocam, confesso até o meu entusiasmo em poder comprar um equipamento barato e que me permita trabalhar com qualidade e rapidez. Vamos a contas? Quanto custa uma câmara de vídeo profissional com tripé, baterias, emissor/receptor de microfone, auscultadores, malas de transporte e demais acessórios, já para não falar do próprio operador de câmara que depois entregará ou ele próprio editará a peça? Muitos milhares de euros. E quanto custa um Solocam que inclui Stick, microfone, emissor/receptor bluetooth e mala de transporte e é adaptável a qualquer Action Cam ou Smartphone? 150 euros. Ou seja, com 500 euros qualquer um de nós faz a festa, atira os foguetes e ainda apanha as canas.
Em algumas conversas, colegas profissionais que discordam deste tipo de solução apontam a qualidade como razão primordial para se continuar a utilizar os meios clássicos. Não discordo, pois a qualidade é sempre o objectivo que qualquer profissional de qualquer área deve almejar. Mas ao usar material barato e uma solução revolucionária, serei obrigado a ter um resultado menos bom? Afinal, se é pela qualidade de imagem, alguns smartphones já filmam a 4K. E o problema da captação do som, que quanto a mim sempre foi o problema da equação, é resolvido (presumo que com eficácia) com o Solocam.
Olho esta solução como algo que poderá emprestar mais qualidade ao que muitos “novos jornalistas” fazem em reportagem de eventos, feiras, espectáculos, enfim, os designados “exteriores”. Criará desemprego, pois é disto que também se trata? Sim. Mas abrirá o mercado a quem conseguir um espaço próprio, quiçá, os mesmos que temem ficar sem trabalho. Como em tudo, ou nos adaptamos ou morremos.







