
O Instagram tornou-se terreno fértil para grupos paramilitares de nacionalistas cristãos e supremacistas brancos que usam as ferramentas dos influencers modernos para recrutar membros e espalhar ideologias extremistas.
A estética da radicalização
Em Fevereiro, uma conta identificada como “The 13th Northeast Guerillas” publicou um reel ao som de Kendrick Lamar. O vídeo mostrava homens armados com equipamento táctico em poses na natureza, rostos censurados ou cobertos por máscaras de caveira, crucifixos visíveis no pescoço. A mensagem parecia benigna: fitness, comunidade, preparação, treino de sobrevivência.
Esta é apenas uma das cerca de 200 contas identificadas pelo Tech Transparency Project como relacionadas com milícias, muitas delas parte de uma nova geração de grupos paramilitares que combinam nacionalismo cristão com supremacia branca.
Como grupos paramilitares usam estética moderna e marketing de influencer para recrutar uma nova geração
Estes grupos não são apenas organizações paramilitares: são marcas. Vendem merchandising, equipamento táctico, patches e até treino com armas. Alguns escondem-se atrás de empresas aparentemente legítimas.
Para citar um exemplo, a Kill Evil, uma loja de roupa com quase 30.000 seguidores, exemplifica esta tendência. A sua declaração de missão: “Para aqueles que acreditam na luta contra o mal… preservação dos valores cristãos, rejeição da degeneração e resistência aos inimigos de Cristo.” Em Lisboa também existiu uma loja similar no bairro Pote de Água…
A geração “Christ-Pilled”
Este movimento reflecte as sensibilidades de jovens homens brancos obcecados com fitness e “Christ-pilled”, alguns auto-denominados “tradcaths” (católicos tradicionais). Produzem memes provocatórios que misturam interpretações idiossincráticas do catolicismo com ideologias de supremacia racial.
Os grupos partilham conteúdo que revela as suas convicções: capturas de posts do nacionalista branco Jared Taylor sobre imigração, posts sobre declínio das taxas de natalidade brancas, memes anti-muçulmanos.
Katie Paul, directora do Tech Transparency Project, explica: “É transformar ideologia em cultura de influencer. O Instagram é a melhor plataforma… é visual e permite monetização fácil.”
Ameaça real ou performance?
Jon Lewis, da George Washington University, questiona se estes grupos representam ameaça real: “fazem treino de guerrilha, filmam para o Instagram, e voltam para casa dos pais”. Contudo, a combinação de retórica de guerra racial com exortações para pegar em armas é preocupante.
Muitos chamam-se “guerrilheiros” em vez de milícias, implicando que o “inimigo” é o governo federal e, implicitamente, a diversidade racial que este representa.
O paradoxo Trump
Este movimento cresce mesmo com Trump no poder. Tradicionalmente, a actividade paramilitar aumentava durante administrações democratas, mas este padrão quebrou-se, galvanizado pela normalização de teorias conspiratórias.
Estes “influencers militantes” preparam-se para os “tempos finais” ou uma batalha entre o bem e o mal. Alguns adoptam uma abordagem aceleracionista, preparando-se para conflito racial que vêem como inevitável.
Falhas das plataformas
O Meta tem regras contra organização paramilitar, mas grupos de vigilância criticam a empresa por não ser suficientemente proactiva na aplicação. E como bem sabemos, Mark Zuckerberg já beijou a mão…
Estes grupos operam em células autónomas pequenas, conectadas online, em linha com a mudança para organização extremista hiper-local dos últimos anos.
O que pode acontecer
Este fenómeno representa a convergência de tendências preocupantes: gamificação do extremismo racial, brandificação da violência política, uso sofisticado de redes sociais para radicalização.
O Instagram tornou-se campo de treino para nova geração de supremacistas que dominam as ferramentas digitais melhor que os antecessores. A questão não é apenas se representam ameaça imediata, mas que cultura política racial ajudam a criar.
NdoA: este texto é baseado numa reportagem da Wired.





