No CES 2026 surgiu um dos momentos mais relevantes para quem trabalha com vídeo e streaming: o VLC media player na sua nova versão em desenvolvimento, VLC 4.0, foi demonstrado a reproduzir media com codec AV2 num portátil “normal”, ou seja, sem hardware especializado ou placas aceleradoras específicas.
Esta demonstração marcou a primeira vez que o AV2 foi exibido em condições de uso real através de um media player amplamente conhecido e livre de royalties, antecipando o que pode vir a ser o futuro dos formatos de vídeo abertos.
O que é o VLC e por que importa esta demo
O VLC é um dos media players mais usados do mundo e, ainda por cima, gratuito, de código aberto, capaz de reproduzir praticamente qualquer formato de áudio e vídeo existente e disponível para Windows, macOS, Linux, Android e iOS. A sua reputação de compatibilidade e simplicidade tornou-o uma ferramenta indispensável para milhões de utilizadores.
Com a chegada da versão VLC 4.0, espera-se não só um suporte ampliado a formatos emergentes mas também melhorias de interface e funcionalidades gerais, o que, segundo a própria comunidade VLC, também inclui uma revisão substancial da experiência de utilização.
AV2: o sucessor do AV1, mais eficiente e ainda aberto
O foco da demonstração foi o codec AV2, uma evolução aberta e livre de royalties desenvolvida pela Alliance for Open Media (AOMedia), o mesmo consórcio por trás do codec AV1. O AV2 foi concebido para oferecer maior eficiência de compressão e qualidade visual em comparação com o AV1, o que significa que conteúdos de alta resolução podem ocupar menos dados sem perda significativa da qualidade.
Isto é importante porque, no contexto de streaming, transmissões de vídeo e armazenamento, codecs mais eficientes reduzem a utilização de largura de banda e armazenamento, enquanto mantêm ou melhoram a experiência visual final, algo crucial para serviços de vídeo sob demanda, plataformas OTT e transmissões ao vivo.
Porquê esta demonstração no CES 2026 é relevante
O que torna esta demonstração verdadeiramente notável é a sua execução em hardware “comum” — um portátil sem aceleração dedicada, o que sugere que o AV2 e VLC 4.0 poderão funcionar eficientemente em dispositivos pessoais já existentes, sem necessidade de hardware especializado. Isto aponta para um cenário em que o suporte a AV2 pode chegar rapidamente a aplicações de consumo, navegadores e plataformas de streaming assim que o codec estiver oficialmente lançado e integrado em soluções amplas.
Além disso, o facto de o VLC 4 demonstrar esta capacidade reforça a importância de standards abertos: um software gratuito e multiplataforma servir de veículo para experimentar e popularizar um novo formato de vídeo tem impacto directo na adopção global dessa tecnologia.
O que muda para quem consome e cria vídeo
Para o utilizador final, isto pode traduzir-se em:
- Streaming mais eficiente com dados menores sem perda de qualidade significante;
- Suporte mais rápido a novos formatos em players gratuitos e populares como o VLC;
- Compatibilidade ampla em dispositivos sem hardware extra de decodificação.
Para criadores de conteúdo, plataformas e serviços de streaming, codecs como o AV2 prometem reduzir custos operacionais associados à largura de banda e armazenagem, além de abrir portas a transmissões de maior qualidade para mercados com restrições de dados.
Em suma
O facto de o VLC 4.0 ter sido usado no CES 2026 para reproduzir media com AV2 não é apenas um truque técnico. Marca um ponto de inflexão na história dos codecs de vídeo abertos. O AV2, um sucessor do AV1, pretende conduzir o futuro do vídeo digital com maior eficiência e sem custos de licenciamento. Ver esta tecnologia a correr num media player livre e amplamente usado como o VLC, e num portátil comum, antecipa um futuro em que formatos de vídeo avançados serão acessíveis a milhões, não apenas a equipamentos topo de gama.
Queres saber mais sobre esta evolução? Segue o post:
VLC 4.0, CES 2026 e porque esta demo é diferente
Quando o VideoLAN levou o VLC 4.0 ao CES 2026 a reproduzir conteúdos em AV2, não estava apenas a mostrar um codec novo a funcionar. Estava a enviar um sinal claro à indústria: o próximo salto na compressão de vídeo aberta já está a sair dos laboratórios e a entrar no mundo real. E o detalhe importante é este: a demo correu num portátil normal, sem aceleração dedicada, algo impensável há poucos anos quando se falava de codecs de nova geração.
AV1 em poucas palavras: onde estamos hoje
Para perceber o AV2, convém perceber o AV1. O AV1 é um codec desenvolvido pela Alliance for Open Media, criado para substituir codecs proprietários como H.264 e HEVC, oferecendo melhor compressão e sem custos de licenciamento.
Tecnicamente, o AV1 já trouxe avanços importantes:
- Blocos de codificação mais flexíveis
- Melhor predição intra e inter-frame
- Transformações mais eficientes
- Entropia mais sofisticada
O resultado foi simples de medir: menos bitrate para a mesma qualidade visual. O problema também ficou claro: complexidade elevada, sobretudo na codificação, e uma curva de adopção mais lenta até existir hardware dedicado.
AV2: não é apenas “mais compressão”
O AV2 não nasce apenas para espremer mais alguns por cento de eficiência. Ele nasce para resolver limitações estruturais do AV1 e preparar o vídeo para a próxima década. A lógica muda em três frentes principais.
1. Predição ainda mais inteligente
O AV2 introduz modelos de predição espacial e temporal mais avançados, com maior capacidade de adaptação ao conteúdo. Em termos simples, o codec passa a “perceber melhor” o que está a acontecer numa cena, seja movimento subtil, textura fina ou transições complexas. Isto reduz artefactos típicos em cenas difíceis como fumo, água, sombras ou grão cinematográfico.
2. Blocos e transformações mais flexíveis
Enquanto o AV1 já tinha dado um salto face aos codecs clássicos, o AV2 expande ainda mais a flexibilidade dos blocos de codificação. Isto permite tratar zonas do ecrã de forma mais específica, aplicando mais compressão onde ela é invisível e preservando detalhe onde o olho humano realmente repara.
3. Preparação para workflows modernos
O AV2 foi pensado desde o início para:
- Resoluções muito elevadas
- HDR avançado
- Conteúdos gerados ou tratados por IA
- Streaming adaptativo de nova geração
Isto não é apenas teoria. É uma resposta directa ao crescimento de conteúdos 4K, 8K e experiências imersivas, onde o custo de largura de banda começa a ser o verdadeiro gargalo.
AV1 vs AV2: diferenças práticas
Em termos práticos, o que se espera do AV2 face ao AV1 é:
- Melhor qualidade visual ao mesmo bitrate
- Ou a mesma qualidade com menos dados
- Melhor preservação de detalhe fino
- Menos artefactos em movimento complexo
Tudo isto mantendo o mesmo princípio base: formato aberto, sem royalties e controlado por um consórcio e não por uma única empresa.
Porque o VLC 4.0 é tão importante nesta história
O VLC sempre teve um papel curioso na evolução do vídeo digital. Não dita standards, mas acelera a sua adopção. Ao integrar suporte experimental a AV2 no VLC 4.0, a VideoLAN está a fazer duas coisas ao mesmo tempo. Primeiro, está a validar que o codec já é funcional fora de ambientes académicos. Segundo, está a permitir que programadores, criadores e curiosos testem AV2 num player real, sem ferramentas obscuras ou hardware exótico.
Historicamente, quando um codec funciona bem no VLC, o ecossistema começa a mexer. Navegadores, plataformas e fabricantes observam.
Impacto real para criadores e plataformas
Para quem cria vídeo, o AV2 promete:
- Menos espaço ocupado em arquivo
- Melhor qualidade em exportações finais
- Maior margem para HDR e pós-produção
Para plataformas de streaming, o impacto é ainda mais directo: - Menor custo de largura de banda
- Melhor qualidade em ligações fracas
- Maior escalabilidade global
Tudo isto sem pagar licenças por codec, algo que continua a ser um ponto crítico no negócio do vídeo.
E o hardware? A pergunta inevitável
Hoje, a demo do VLC 4.0 corre em software. Amanhã, o AV2 vai precisar de aceleração por hardware para escalar verdadeiramente. A diferença é que, desta vez, a indústria já sabe o que fazer. O percurso do AV1 abriu caminho, e o AV2 chega com mais maturidade, mais planeamento e menos ingenuidade técnica.





