A Bang & Olufsen celebra em 2025 um século de existência, marcando cem anos desde que dois jovens engenheiros dinamarqueses decidiram que os rádios podiam funcionar sem pilhas e que o design de equipamentos áudio merecia mais atenção do que uma caixa de madeira rectangular.
Ontem, dia 23 de Abril, a marca assinalou essa efeméride em Portugal com uma celebração na loja de Cascais – e o Xá das 5 marcou presença para ver de perto o que um século de obsessão com design e som tem para mostrar.



Peter Bang e Svend Olufsen conheceram-se em 1925, logo após terminarem os estudos, e conectaram-se instantaneamente sobre o amor por experiências – o que na prática significava desmontar aparelhos eléctricos no sótão de uma quinta dinamarquesa até descobrirem algo vendável.
Para celebrar o centenário, a marca apresenta edições limitadas que custam o equivalente a um automóvel novo, porque aparentemente é assim que se comemora longevidade na indústria do áudio de luxo.
The Eliminator: a invenção que mudou tudo
A descoberta que lançou a Bang & Olufsen foi o The Eliminator, dispositivo inventado em 1925 que permitia ligar rádios directamente à corrente eléctrica, eliminando a necessidade de pilhas volumosas e caras. Pode parecer óbvio agora, mas na época era genuinamente revolucionário – os rádios a pilhas eram incómodos, as pilhas duravam pouco e eram dispendiosas de substituir.

O The Eliminator transformou o rádio de aparelho ocasional em electrodoméstico permanente, permitindo que famílias ouvissem programação radiofónica sem calcular constantemente quanto tempo de pilha restava. Foi um sucesso comercial imediato e estabeleceu a Bang & Olufsen como empresa de inovação técnica, não apenas montagem de componentes alheios. A invenção também definiu a filosofia da marca: resolver problemas reais através de engenharia inteligente, mesmo que a solução pareça simples em retrospectiva. É uma abordagem que funcionou durante um século, embora os problemas que a marca resolve actualmente sejam consideravelmente mais nichados do que «fazer o rádio funcionar».
Cem anos de design com propósito… e com preço

Ao longo de cem anos, a marca dinamarquesa efectivamente inovou em áreas relevantes. Reinventaram o gira-discos com designs minimalistas quando a concorrência produzia monstros volumosos. Criaram controlos sensíveis ao toque quando a norma eram botões mecânicos que partiam após uso intenso.
Desenvolveram comandos universais antes de serem standard da indústria e sistemas de colunas conectadas antes do conceito multi-room se tornar comum. A contribuição para a estética de design doméstico é inegável – produtos da Bang & Olufsen definiram décadas inteiras em termos visuais.



Quando a maioria dos fabricantes tratava equipamento electrónico como mera funcionalidade técnica a esconder em móveis, a B&O produzia objectos que as pessoas queriam exibir. A filosofia sempre foi que tecnologia pode e deve ser bela, que funcionalidade técnica e estética não são mutuamente exclusivas.
É abordagem que influenciou toda a indústria, incluindo marcas muito mais acessíveis que hoje também prestam atenção ao design.
Circularidade e longevidade: promessas para o próximo século

Para o futuro, a Bang & Olufsen compromete-se com «liderança em craft, design, circularidade e longevidade». Circularidade significa produtos reparáveis, actualizáveis e recicláveis – o oposto da obsolescência programada que domina a electrónica de consumo. É compromisso louvável e adequado a uma marca premium.
Se vais cobrar preços estratosféricos, o mínimo é que os produtos durem décadas e possam ser reparados quando algo falha. A questão é se o modelo de negócio sustenta isto – marcas de luxo historicamente dependem de clientes substituírem produtos frequentemente, não de manterem os mesmos durante vinte anos.
A longevidade também colide com realidade tecnológica: formatos de áudio evoluem, protocolos de conectividade mudam, standards de streaming actualizam. Um sistema de colunas de 2025 pode ter hardware magnífico que funciona perfeitamente em 2045, mas se os protocolos de comunicação estiverem obsoletos, torna-se peso de papel caro – a não ser que a marca garanta actualizações de firmware e compatibilidade retroactiva, um compromisso financeiro considerável.
Bang & Olufsen em suma



A Bang & Olufsen completa cem anos com uma história genuinamente impressionante de inovação técnica e excelência em design. Desde o The Eliminator em 1925 até aos sistemas multiroom contemporâneos, a marca dinamarquesa consistentemente produziu objectos que combinam funcionalidade técnica com estética distintiva.
A celebração de ontem em Cascais, da qual o Xá das 5 foi testemunha directa, foi exactamente o que se esperava de uma marca desta natureza: elegante, contida e com o preço certo para afastar quem não está no público-alvo.



As edições limitadas do centenário são exercícios previsíveis de marketing de luxo – funcionam porque o público-alvo não compra apenas qualidade sonora, compra exclusividade e estatuto. A questão para o próximo século é se a fórmula continua sustentável num mercado onde a Apple, a Bose e a Sony também produzem design sofisticado a preços mais terrestres.
Cem anos merecem reconhecimento pois poucas empresas tecnológicas sobrevivem tanto tempo mantendo identidade coerente. Venham os próximos.






