A jornalista e analista Karen Hao tem sido uma das vozes mais lúcidas na crítica à indústria da Inteligência Artificial. Não a IA enquanto ferramenta – que tem o seu lugar –, mas a ideologia por trás do movimento que promete a salvação da humanidade através da célebre AGI, a Inteligência Artificial Geral, sempre prestes a chegar, sempre a justificar o próximo investimento, o próximo data center, o próximo sacrifício geopolítico, energético ou social.
Nos seus ensaios e entrevistas mais recentes, Hao descreve esta indústria como um império moderno, uma estrutura de poder que se alimenta de uma mistura curiosa de entusiasmo, medo, fé tecnológica e capital infinito. E, num dos seus paralelos mais fortes, aproxima este império da ficção de Frank Herbert em “Dune”. A comparação não é literária: é económica, política e moral.
A nova “melange”: dados, energia e trabalho invisível
No universo de Frank Herbert, toda a economia – e todo o poder – gira em torno da melange, o recurso vital que permite navegação espacial, previsões e supremacia.
Hao compara este mecanismo ao que está a acontecer hoje:
- Dados, recolhidos em escala planetária
- Energia, consumida em centros de computação gigantescos
- Clusters de GPUs que custam mais que pequenas cidades
- Trabalho invisível, precaríssimo, usado para rotular e limpar conteúdos
É a mesma lógica imperial: quem controla o recurso controla o futuro.
A bolha dot-com reencarnada em IA

Karen Hao lembra-nos que o sector da IA repete os erros da bolha dot-com:
expectativas desmedidas, investimentos quase místicos e uma narrativa de “inevitabilidade” que dispensa escrutínio.
Só que desta vez, a escala é outra:
não estamos a falar de lojas online ou motores de busca.
Estamos a falar da estrutura da sociedade.
- Consumo energético colosal
- Desigualdade digital crescente
- Concentração de poder em meia dúzia de empresas
- Cidades dependentes de servidores, e servidores dependentes de governos
É um sistema que se expande com a violência silenciosa dos impérios.
Talvez ainda não rebentou porque todos acreditam que é tarde demais para travar.
Evangelistas da AGI: fé, profecia e poder
Um dos pontos que Hao sublinha com regularidade é a transformação dos líderes de IA em evangelistas, figuras que já não vendem produtos, mas visões de futuro. Falam de AGI como outros falavam da utopia marxista ou do destino manifesto americano: uma inevitabilidade histórica, algo que acontecerá porque tem de acontecer.
Este messianismo tecnológico faz lembrar as casas nobres de “Dune”, cada uma com o seu profeta, o seu programa militar, a sua fé no controlo do futuro. E, como em Dune, a fé é uma ferramenta política.
Esta narrativa tem consequências muito reais:
- molda regulamentação
- atrai capital quase ilimitado
- legitima riscos
- mascara desigualdades
- alimenta a corrida global ao “mais rápido, maior, inevitável”
E, no fim, torna a sociedade dependente de sistemas que ninguém controla verdadeiramente.
O império que se constrói com silício e silêncio

O que torna o alerta de Karen Hao tão valioso é que ela não fala de IA como ameaça abstracta ou delírio de ficção científica. Ela fala de economia, trabalho, poder, infraestrutura, governação. É um enquadramento muito mais realista e urgente do que qualquer debate sobre máquinas conscientes.
Tal como em Dune, o verdadeiro perigo não está no que as máquinas fazem, mas no que os impérios fazem em nome delas.
Estamos a construir sistemas que exigem quantidades obscenas de energia, que concentram poder em poucas corporações e que se expandem sem escrutínio suficiente. Tudo isto enquanto repetimos que a tecnologia será a resposta para todos os males, porque a alternativa é admitir que não sabemos para onde vamos.
Hao propõe que quebrar este ciclo é possível, mas exige duas coisas:
- regulação séria,
- e sobretudo, desencantamento.
Deixar de acreditar que a IA é um destino inevitável. Perceber que é apenas uma tecnologia, e que a nossa relação com ela é uma escolha, não uma profecia.
Em suma, o que diz Karen Hao?

A comparação de Karen Hao entre a corrida da IA, a bolha dot-com e o universo de “Dune” é mais do que uma metáfora elegante. É um alerta. Estamos a repetir um padrão antigo, mas desta vez numa escala muito maior, com um impacto que não será apenas económico, mas civilizacional.
A especiaria mudou: já não é extraída do deserto, mas de servidores que nunca dormem.
O império mudou: já não precisa de exércitos, apenas de modelos cada vez maiores.
O perigo mantém-se: quem controla a melange controla o futuro.
E a pergunta que Hao deixa implícita é simples e inquietante:
queremos mesmo que esse futuro pertença a tão poucos?






