Xá das  5
  • NOTÍCIAS
  • AUDIO
  • RODAS
  • VÍDEO + FOTO
  • ANÁLISES
  • OPINIÃO
  • MOBILE
  • IDEIAS
Sem resultados
Ver todos os resultados
Xá das  5
  • NOTÍCIAS
  • AUDIO
  • RODAS
  • VÍDEO + FOTO
  • ANÁLISES
  • OPINIÃO
  • MOBILE
  • IDEIAS
Sem resultados
Ver todos os resultados
Xá das  5
Sem resultados
Ver todos os resultados

Quando deixamos de ser úteis.

João Maria por João Maria
Junho 27, 2026
Quando deixamos de ser úteis.

quando deixamos de ser úteis

Share on FacebookShare on Twitter

Quando deixamos de ser úteis, há uma pergunta que me tem acompanhado nos últimos dias.

O que acontece quando uma pessoa deixa de ser útil?

Não útil no sentido humano da palavra.

Útil no sentido moderno.

Produtiva.

Rentável.

Capaz de gerar resultados.

A pergunta surgiu enquanto lia comentários sobre Cristiano Ronaldo.

Curiosamente, os comentários diziam menos sobre Ronaldo do que sobre nós.

Durante mais de vinte anos, Cristiano Ronaldo carregou às costas uma parte considerável das expectativas de um país inteiro.

Quando deixamos de ser úteis , todos descobrimos algo sobre nós próprios . Uma reflexão sobre conhecimento , envelhecimento , poder e valor humano .
www.abola.pt

Marcou mais de 900 golos. Ganhou praticamente tudo o que havia para ganhar. Transformou Portugal numa potência respeitada no futebol mundial. Inspirou milhões de jovens dentro e fora do país.

Mas basta um jogo menos conseguido para surgir um coro de vozes a perguntar:

“Já não está acabado?”

“Já não serve?”

“Quando é que sai?”

É fascinante observar este fenómeno.

O mesmo homem que durante anos foi celebrado como herói passa rapidamente a ser tratado como um problema a resolver.

Acontece no futebol.

Mas acontece também na política.

PS bandeira 1024x576 1
https://www.jornaldocentro.pt

Quantos dirigentes partidários, autarcas ou governantes são aplaudidos enquanto ajudam a conquistar votos e esquecidos assim que deixam de ser eleitoralmente relevantes?

28 Lideresjogam ultimos 36057665
https://jornaleconomico.sapo.pt

Quantos militantes dedicam décadas a uma causa para descobrirem, mais tarde, que eram importantes apenas enquanto eram úteis?

Acontece nas empresas.

Enquanto alguém produz resultados extraordinários, é descrito como indispensável.

Quando se reforma, muda de função ou perde influência, a organização segue em frente como se nada tivesse acontecido.

Acontece até nas relações pessoais.

Há amizades que desaparecem quando termina o cargo.

Há convites que deixam de chegar quando desaparece o poder.

Há telefones que deixam de tocar quando deixa de haver algo para oferecer.

Talvez o mais inquietante seja perceber que esta forma de olhar para os outros não surgiu por acaso.

Vivemos numa época em que o desempenho se tornou a principal medida de valor.

O filósofo Byung-Chul Han defende que passámos de uma sociedade disciplinar para uma sociedade do desempenho.

filc393sofo capa
https://revistaintertelas.com/2019/04/12/a-trajetoria-de-byung-chul-han-e-a-sua-descricao-do-colapso-social/

Antigamente a pressão vinha de fora.

Hoje vem de dentro.

Já não basta trabalhar.

É preciso produzir.

Já não basta participar.

É preciso destacar-se.

Já não basta existir.

É preciso provar constantemente que continuamos a ser relevantes.

Talvez por isso tenhamos cada vez mais dificuldade em lidar com o envelhecimento, com a perda de protagonismo ou com a simples passagem do tempo.

Cristiano Ronaldo não está a competir contra os outros jogadores.

Está a competir contra a memória que temos do Cristiano Ronaldo de há dez anos.

E essa é uma competição impossível de vencer.

A psicologia ajuda-nos a compreender este fenómeno.

Existe um conceito chamado adaptação hedónica.

Em termos simples, os seres humanos habituam-se rapidamente ao extraordinário.

Aquilo que inicialmente nos surpreende acaba por se tornar normal.

Durante anos, Ronaldo fez coisas que pareciam impossíveis.

Mas a repetição do extraordinário transformou o extraordinário em expectativa.

E quando a expectativa não é cumprida, surge a frustração.

O mesmo acontece nas organizações.

Um colaborador excecional supera objetivos durante anos.

Ao fim de algum tempo, aquilo deixa de ser mérito e passa a ser obrigação.

O reconhecimento desaparece.

A exigência permanece.

Mas talvez exista ainda uma explicação mais profunda.

Vivemos numa cultura cada vez mais marcada pelo descarte.

Trocamos de telemóvel com facilidade.

Mudamos de emprego com rapidez.

Consumimos notícias em segundos.

Passamos de uma tendência para outra sem olhar para trás.

O sociólogo Zygmunt Bauman descreveu este fenómeno através da ideia de modernidade líquida, uma realidade em que os vínculos se tornam mais frágeis, mais temporários e mais dependentes da conveniência do momento.

E quando tudo se torna descartável, existe o risco de também as pessoas passarem a ser vistas dessa forma.

Enquanto servem um propósito, permanecem.

Quando deixam de servir, substituem-se.

No fundo, começamos a confundir duas palavras que parecem semelhantes, mas não são.

Útil e utilitário.

Ser útil é uma qualidade.

Todos gostamos de sentir que contribuímos para algo maior do que nós próprios.

Mas ser tratado de forma utilitária é outra coisa.

É valer apenas enquanto se produz um determinado resultado.

É ser visto como um instrumento e não como uma pessoa.

Talvez seja por isso que tantas pessoas entram em crise quando se reformam.

Durante décadas ouviram que eram indispensáveis.

No dia seguinte descobrem que a empresa continua a funcionar.

O cargo desaparece.

O telemóvel deixa de tocar.

As reuniões acabam.

E surge uma pergunta devastadora:

“Quem sou eu agora?”

0df49df39138472e6085e1daa17f18c5
https://www.rtp.pt

Quando deixamos de ser úteis.

Curiosamente, talvez muitas das críticas mais agressivas a figuras como Cristiano Ronaldo revelem mais sobre quem critica do que sobre quem é criticado.

Porque, no fundo, todos sabemos que um dia chegará a nossa vez.

Todos teremos um momento em que alguém mais novo ocupará o nosso lugar.

Todos teremos um dia em que a nossa experiência deixará de compensar a energia dos que chegam.

Todos teremos um último jogo.

Uma última reunião.

Um último projeto.

Um último cargo.

Talvez seja essa a razão pela qual o declínio dos outros nos incomoda tanto.

Ele recorda-nos algo que preferimos esquecer.

A nossa própria finitude.

Também na política encontramos este fenómeno.

Os partidos apresentam-se como comunidades de valores.

Mas muitas vezes funcionam como comunidades de utilidade.

Enquanto alguém traz votos, influência, notoriedade ou capacidade de mobilização, é valorizado.

Quando deixa de trazer esses benefícios, o entusiasmo esmorece.

Não é um fenómeno deste ou daquele partido.

É um fenómeno humano.

A História está cheia de líderes, dirigentes, militantes e governantes que passaram rapidamente da primeira fila para o esquecimento.

O que nos obriga a uma pergunta desconfortável:

Será que admiramos verdadeiramente as pessoas ou admiramos apenas o poder que exercem naquele momento?

Talvez o verdadeiro teste de carácter de uma sociedade não esteja na forma como trata os vencedores.

Isso é fácil.

A verdadeira medida de uma sociedade está na forma como trata quem já não precisa de provar nada.

Os idosos.

Os reformados.

Os doentes.

Os que perderam influência.

Os que já deram o melhor de si.

Porque é aí que descobrimos se acreditamos na dignidade humana ou apenas na utilidade humana.

E talvez seja por isso que a discussão sobre Cristiano Ronaldo seja muito maior do que futebol.

No fundo, a questão não é se ele deve ou não ser titular.

A questão é outra.

Quando uma pessoa deixa de ser tão útil como era ontem, continua a merecer o mesmo respeito?

A resposta que dermos a essa pergunta acabará por definir não apenas a forma como olhamos para Cristiano Ronaldo.

Definirá também a forma como um dia seremos olhados pelos outros.

Tags: Cristiano Ronaldoparticipaçãosociedadeterceira idadeutilidadevelhicevelhos
João Maria

João Maria

João Maria é especialista em Segurança e Saúde no Trabalho, perito em acidentes laborais e auditor de qualidade. Com uma carreira marcada pela gestão de pessoas, implementação de projectos e resolução de crises, alia a experiência prática a uma visão crítica sobre política, economia e sociedade. Procura, em cada intervenção, não apenas soluções imediatas, mas também abrir espaço a novas conversas e oportunidades de transformação.

Deixe um comentário Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Recomendados.

Um pequeno-almoço pirata? arrrrr…

Um pequeno-almoço pirata? arrrrr…

Outubro 22, 2016
Honda revela Civic Type R

Honda revela Civic Type R

Setembro 29, 2014

10º FESTIVAL MENTAL

MENTAL 2026

Parceiros

TecheNet
Logo-Xá-120

Gadgets, tecnologia, ensaios, opinião, ideias e futuros desvendados

  • Estatuto editorial
  • Política de privacidade , termos e condições
  • Publicidade
  • Ficha Técnica
  • Contacto

© 2026 Xá das 5 - Director: João Gata

Sem resultados
Ver todos os resultados
  • NOTÍCIAS
  • AUDIO
  • RODAS
  • VÍDEO + FOTO
  • ANÁLISES
  • OPINIÃO
  • MOBILE
  • IDEIAS

© 2026 Xá das 5 - Director: João Gata