A Sea4Us aproxima-se dos ensaios clínicos em humanos com um analgésico português inspirado no mar cuja fase pré-clínica terminou sem efeitos adversos.
A dor crónica é o inimigo silencioso do nosso tempo. É invisível, persistente e afecta centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Em Portugal, a situação não é diferente: falta inovação, faltam alternativas seguras e falta, sobretudo, uma resposta que fuja ao ciclo dos opioides.
É precisamente aqui que entra a Sea4Us, uma empresa portuguesa de biotecnologia que transformou uma década de investigação marinha numa das potenciais descobertas mais promissoras dos últimos anos.
O seu candidato a fármaco, S#072, acaba de concluir todos os testes pré-clínicos de segurança e toxicologia in vivo, sem efeitos adversos relevantes associados à molécula. Traduzindo: o composto mostrou-se seguro, eficaz nos modelos testados e pronto para avançar para a fase mais delicada e determinante, os ensaios clínicos em humanos, previstos para Abril de 2026.
Sea4U: como nasce um fármaco do mar?
Uma década de mergulhos, biologia marinha e eletrofisiologia de ponta
A Sea4Us não apareceu por acaso. Fundada em 2013 como spinoff da NOVA Medical School, começou com uma pergunta ambiciosa: poderão os organismos marinhos esconder compostos com propriedades analgésicas únicas?
A resposta chegou ao longo de mais de dez anos de recolha, catalogação e estudo de espécies marinhas, especialmente organismos invertebrados que possuem sistemas de defesa bioquímicos altamente sofisticados. Estes ambientes extremos – pressão elevada, competição intensa, adaptações químicas peculiares – tornam o oceano um laboratório vivo cheio de moléculas inéditas.
O S#072 surge precisamente desse trabalho. A molécula foi desenhada com base num mecanismo natural encontrado no mar e optimizada em laboratório português através de eletrofisiologia, screening de canais iónicos, bioquímica avançada e anos de refinamento estrutural.
Ao contrário dos opioides, que actuam sobre recetores associados à dependência, o S#072 actua directamente na origem da dor, modulando canais iónicos específicos envolvidos na transmissão nociceptiva – isto é, o sinal que informa o cérebro de que algo dói.
Esta abordagem é tão inovadora que pertence a uma nova classe de analgésicos, sem risco de vício, sem sedação e sem os efeitos colaterais que há décadas limitam os tratamentos existentes.
Quem pagou esta investigação?
Europa, ciência competitiva e uma equipa portuguesa obstinada
Nada disto teria acontecido sem investimento e a Sea4Us já captou 6,8 milhões de euros através de:
- investimento privado
- projetos europeus extremamente competitivos
- financiamentos internacionais rigorosamente avaliados
- o prestigiado EIC Accelerator, no valor de 2,5 milhões de euros
O EIC Accelerator é uma das linhas de financiamento científico mais difíceis da Europa, atribuída apenas a empresas com tecnologia realmente disruptiva e cheirosa a futuro. Ou seja, para receber este apoio, a solução portuguesa teve de provar valor científico, potencial clínico, impacto económico e relevância global.
Além disso, parte significativa do trabalho inicial foi feita em parceria com instituições científicas portuguesas, incluindo a NOVA Medical School. O projecto também beneficiou de infraestruturas de investigação marinha nacionais, recolha biológica regulamentada e equipas multidisciplinares de fisiologistas, biólogos marinhos, médicos e especialistas em modelos pré-clínicos.
A aposta da Sea4Us na dor crónica não é casual. É estratégica.
A dor crónica afecta 100 milhões de europeus e é uma das principais causas de absentismo, depressão e incapacidade prolongada. As soluções actuais são insuficientes, perigosas ou simplesmente ineficazes para muitos pacientes.
Os opioides funcionam… mas a que preço? Dependência, tolerância, sedação, risco de overdose.
A ciência há anos pede alternativas e a indústria farmacêutica tem falhado em entregá-las. O S#072 pode ser uma dessas alternativas.
A Sea4Us identificou desde o início três factos essenciais:
- Existe necessidade clínica real e urgente.
- Existe um mercado global enorme e desprotegido.
- Portugal tem competências científicas fortes em biologia marinha e eletrofisiologia.
Resultado: um projecto sólido, coerente e centrado numa dor humana que ainda não tem resposta digna.
O que foi feito até agora?
A equipa realizou:
- recolha e análise de compostos marinhos durante mais de 10 anos
- estudos de mecanismos moleculares relacionados com canais iónicos
- testes de eficácia em modelos pré-clínicos
- toxicologia e segurança in vivo, agora concluídas
- certificações internacionais necessárias ao avanço para humanos
- desenvolvimento de patentes nacionais e internacionais
- construção de pipelines adicionais para outros tipos de dor
Este não é um “projecto de laboratório”. É uma década de evolução contínua.
Ensaios em humanos rumo a 2026
Abril de 2026 será o ponto de viragem.
A fase I testarà o S#072 em voluntários saudáveis para confirmar segurança e tolerabilidade. Se tudo correr como esperado, seguem-se fases II e III, estudos em pacientes com dor crónica, onde o potencial terapêutico será finalmente avaliado em contexto real.
Para Pedro Lima, CEO da Sea4Us, “este é o momento em que anos de estudo ganham rosto humano”.
Em suma
Portugal está, de facto, mais perto de desenvolver um tratamento pioneiro para a dor crónica. O S#072 é fruto de ciência nacional, investimento europeu competitivo e um entendimento único do oceano como recurso biotecnológico. Os próximos meses serão decisivos, mas o percurso até aqui já coloca a Sea4Us no mapa da inovação terapêutica global.





