A história de Tommy “Slim” Borgudd, um músico sueco que trocou a bateria dos ABBA (sim, desses) pela Fórmula 1, é um dos casos mais singulares do desporto motorizado pois foi um homem que viveu ao compasso de dois mundos: o do pop e o das corridas.
Para os fãs de música, ele será sempre o baterista que tocou com os ABBA; para os apaixonados pelos motores, o improvável piloto que, contra todas as probabilidades, conseguiu marcar um ponto no Campeonato do Mundo de F1. Sim, mais que o Pedro Lamy, Nicha Cabral ou Matos Chaves (e isto porque o Tiago Monteiro fez podium e tudo).
Tommy “Slim” Borgudd: dos palcos suecos às boxes

Nascido em 1946, Tommy Borgudd começou o seu percurso longe dos circuitos. Nos anos 60 e 70, foi figura constante da vibrante cena musical sueca, participando em bandas como Lea Riders Group, Made in Sweden e Solar Plexus, onde o seu ritmo enérgico e fluido lhe valeu respeito entre músicos e produtores.
Foi nessa fase que se cruzou com Björn Ulvaeus, um dos fundadores dos ABBA, criando uma amizade que mais tarde lhe abriria portas insuspeitas.
Borgudd colaborou em algumas gravações da banda, e quando o seu nome começou a circular entre os paddocks, o título “o baterista dos ABBA na F1” tratou de escrever a própria lenda.
Do som da bateria ao rugido dos motores
Enquanto a carreira musical prosperava, Borgudd alimentava uma paixão paralela: as corridas. Começou discretamente na Fórmula Ford, na década de 60, uma categoria onde muitos talentos nasceram.
O seu sentido de ritmo e equilíbrio revelou-se uma vantagem surpreendente ao volante.
Em 1973 venceu o Campeonato Escandinavo de Fórmula Ford, e em 1979 conquistou o título sueco de Fórmula 3, terminando ainda em terceiro lugar na F3 europeia.
Em 1981, com 34 anos – idade em que muitos pilotos já pensam na reforma – Borgudd estreou-se na Fórmula 1 com a equipa ATS.
O seu carro, embora longe de ser competitivo, chamava a atenção por um detalhe curioso: o logótipo dos ABBA nas laterais.
Ao contrário do que se dizia, não era um patrocínio oficial, mas sim um gesto de amizade de Björn Ulvaeus e Benny Andersson, que queriam ajudá-lo a captar o interesse de patrocinadores.
Um ponto que valeu uma carreira
Sem dinheiro e com um carro frágil, Borgudd surpreendeu logo na estreia.
No Grande Prémio de San Marino de 1981, qualificou-se à frente do colega de equipa e terminou em 13.º, um feito notável para um estreante num dos carros mais lentos do pelotão.
Mas a consagração viria em Silverstone, no Grande Prémio da Grã-Bretanha, onde terminou em 6.º lugar, conquistando o seu único ponto no Mundial de F1.
Para um músico sueco transformado em piloto privado, foi um feito quase poético.
Do paddock aos camiões

Em 1982, Borgudd juntou-se à Tyrrell, uma equipa de maior reputação, mas a falta de financiamento rapidamente ditou o fim da sua aventura na F1.
Longe de desistir, virou-se para uma nova paixão: o Truck Racing, ou seja, corridas de camiões onde a sua condução agressiva e controlada brilhou novamente.
Venceu o Campeonato Britânico de Truck Racing e a Taça Europeia FIA de Camiões, continuando a competir esporadicamente em turismos e até nas 24 Horas de Le Mans.
Reformou-se em 1997, encerrando uma carreira que o levou dos palcos enfumados da Suécia às grelhas de partida dos maiores circuitos europeus.
Um homem, dois mundos
Depois de pendurar o capacete, Borgudd manteve-se ligado ao desporto motorizado, trabalhando na Radical Sportscars como gestor de distribuição e continuando a inspirar quem acreditava que as paixões podem coexistir.
Faleceu em fevereiro de 2023, aos 76 anos.
Nunca venceu um Grande Prémio de F1 nem liderou tops musicais, mas a sua vida foi uma sinfonia improvável entre o ritmo dos tambores e o som dos motores.
Tommy “Slim” Borgudd provou que a vida não precisa seguir o mesmo compasso, às vezes muda de compasso, e é aí que nascem as histórias inesquecíveis.





